Num livro intitulado A Educação e o Significado da Vida (edições 70), lemos o seguinte: “A educação moderna está a tornar-nos insensíveis; ela faz muito pouco no sentido de nos ajudar a descobrir a nossa ‘vocação’ pessoal.” Podemos ainda acrescentar, do mesmo livro: “Passamos em certos exames e, se tivermos sorte, conseguimos ter um emprego – que, muitas vezes significa uma rotina para o resto da nossa existência.” O autor deste livro é J. Krishnamurti e a sua tese central deveria ser conhecida por todos quantos estão no ensino, seja em que grau for, professores, auxiliares de educação, diretores de escolas, reitores de universidades, educadores de infância.
Eis a tese: “A ignorância é a falta de conhecimento das características do ‘eu’; e esta ignorância não pode ser dissipada por atividades superficiais e por reformas; ela só pode desaparecer através de uma atenção constante aos movimentos do ‘eu’ em todos os seus relacionamentos.” E, como corolário da sua tese, este argumento: “O autoconhecimento é o princípio da liberdade e só quando nos conhecemos é que somos capazes de criar ordem e paz […] Se os pais se preocupassem verdadeiramente com os seus filhos, eles construiriam uma sociedade nova; mas fundamentalmente, a maioria dos pais não se importa e, assim, não se arranja tempo para um problema tão urgente. Têm tempo para ganhar dinheiro, para se divertirem, para rituais e cerimónias, mas não têm tempo para pensar na educação correta dos seus filhos. […] Por conseguinte, entregam os seus filhos a escolas onde os professores não são diferentes desses pais.”
Perdoe-se a extensão das citações, mas creio que esse breve livrinho faz a radiografia exata deste nosso tempo educativo. Raramente, nos estudos sobre educação, este livro de Krishnamurti é citado, não obstante nele encontrarmos verdades incontornáveis: a educação mundial centrada na competição, nas exigências do mercado; as escolas transformadas num imenso rolo compressor onde nem sequer a preparação para a universidade está a ser equacionada em termos do que a universidade deveria ser: sede do saber e não – como é hoje – lugar do carreirismo mais nefando e das métricas substituindo o pensamento.
Na verdade, a este livro do pensador indiano poderíamos juntar o livro de Nicholas Carr, Prémio Pulitzer em 2011, Os Superficiais – O que a Internet Está a Fazer aos Nossos Cérebros (Gradiva, 2012). O que o autor deste livro constata? O que todos nós constatamos: o declínio da leitura de livros e de jornais, tendo-se iniciado há décadas, com o advento da TV, é absolutamente extraordinário. A internet, desde 2008, fez com que, nos EUA, a circulação de jornais caísse mais de 10%. Abriu falência o jornal mais antigo do Colorado, houve despedimentos em massa; o Washington Post fechou escritórios nos EUA e despediu mais de 100 jornalistas. Mais de 30 proprietários de jornais, incluindo o Los Angeles Times, o Chicago Tribune, faliram e, em Inglaterra, o diretor do The Guardian anunciou, em 2009, que todos os investimentos futuros deveriam ser dirigidos para material multimédia: “Os dias em que podíamos negociar com palavras já passaram”, disse.
Encurtar do pensamento
A imagem é poderosa: as gerações criadas à frente dos ecrãs estão sintonizadas, diz Nicholas Carr, nessa “manta de retalhos” que é a net. É o encurtar do pensamento: resumos compactos, escritores convidados a amputar o que escrevem. Pequenos artigos, críticas misturadas com apreciações sobre produtos banais, tudo concorre para a construção do que Michel Desmurget, autor desse livro capital A Fábrica de Cretinos Digitais diz ser a decapitação dos mais novos, a primeira geração com um QI inferior ao dos pais (a nossa geração).
Noam Chomsky, numa entrevista em 2023, considerava que a IA é o mais poderoso inimigo das democracias e da educação e George Steiner, muito antes de haver IA, era lapidar: a Europa está sempre à beira da catástrofe, posto que é filha da desmemória e repete, sucessivamente, os erros do passado.
Nas bibliotecas americanas o silêncio não existe mais: crianças jogam a guerra online, o livro é o parente pobre desta sociedade digital. Não faltam, neste contexto, as vozes das mais diversas Cassandras. Mas já se sabe: Cassandra avisou Príamo e de nada valeu.
Em Portugal, muitos, nestes dez anos que levamos de imposição computacional, declaram que a falência da leitura e da escrita nas gerações mais novas – sobretudo os “filhos da pandemia” – é proporcional à brutalização das crianças e dos adolescentes. Portugal tem, à entrada do Superior, um dos números mais altos no que toca ao consumo de antidepressivos. Os filhos do ChatGPT são, no fundo, vítimas de um modelo de sociedade que, por um lado, lhes dá, através das plataformas digitais, a excitação permanente dos sentidos; por outro lado, essa mesma sociedade digital – organizada pelos interesses dos mamutes digitais, pela sangria da recolha de dados, posto que os dados sejam acumulação de poder – rouba às crianças e aos jovens (mas também aos adultos), aquilo mesmo que a educação clássica, em tempos, quis garantir: o reforço das democracias pelo reforço mesmo do autoconhecimento. O reforço do espírito crítico contra o festival de bestialidade em que o mundo ocidental se transformou.
Exames como espelho
Os Exames Nacionais deste ano de 2026 são a demonstração mais cabal da falência da educação em Portugal. Não se trata de haver atrasos, como dizem sindicatos e a tutela. A falência educativa é profunda porque há quatro dimensões do problema que ninguém quer ver, nem debater, exceto os professores – esses veem de modo brutal a falência do ensino público.
Enuncio esses quatro eixos do problema educativo-político em Portugal: 1º) É já evidente que, com estes Exames Nacionais, onde a escrita analítica e extensa não existe, os estudantes portugueses não sabem articular um argumento, distinguir facto de opinião, nem sequer conseguem compreender (a ausência de verbos é gritante) o que muitas vezes lhes é pedido que façam num exame, seja de que disciplina for. O conhecimento histórico-cultural está-lhes vedado desde a mais tenra idade. Infantilizados, mas também convencidos de que tudo está à “distância de um clique”, os estudantes portugueses são o espelho da indigência educativa.

O digital apenas agudiza essa incompetência para a escrita e a leitura, com a agravante de – dormindo pouco, viciados que estão nas redes sociais –, muitos estudantes carecerem de horas de sono, aspeto da saúde física e mental que a tutela descura. Acresce a este primeiro facto (o da escrita e da leitura não ser exigida na escola portuguesa) o 2º), que apresento: à custa do digital, os estudantes não têm capacidade de se concentrarem: perante um texto complexo (um poema, um trecho dum romance ou duma peça de teatro), não sabem como analisar, como responder. Estes Exames Nacionais (em especial o de Português) são um convite à preguiça institucionalizada. Ao longo da escolaridade não se estuda com afinco. Todos – professores e estudantes – sabem o óbvio: as classificações devem ser inflacionadas para agradar aos pais e também aos diretores escolares. As diretivas são muito claras: há que fazer transitar o aluno, mesmo se não sabe nada, se não estudou, se é um elemento disruptivo numa turma.
Portanto, há um acordo tácito no sistema educativo: a tutela finge que exige, os professores fingem que ensinam, os alunos fingem que aprendem.
Deriva daqui o 3º facto: Estes Exames Nacionais, e, repito, o de Português, à partida o que deveria ser mais exigente porque obrigatório para todas as áreas, são uma mentira absoluta.
É uma questão mental, esta com que estamos confrontados. E é este o 4º plano em que devemos discutir e denunciar o fiasco educativo que estes exames representam.
Estamos, sem dúvida, perante erros indesculpáveis: professores já falecidos, ou reformados, foram convocados para classificar exames! Noutros casos, professores de uma disciplina receberam provas de disciplinas que jamais lecionaram. Dá-se mesmo o caso de, em inúmeras provas, não se perceber o que classificar e como: onde acabou a resposta do aluno? Continua na folha de prolongamento? É o carnaval digital em toda a sua expressão!
Doutrinação digital
O Ministério da Educação, hoje transformado numa agência de emprego preparada para precarizar ainda mais a profissão docente, acusa os professores de terem – veja-se o absurdo!! – agrafado mal as folhas de resposta dos alunos! Daí o atraso. Mas o atraso é, reitero, uma questão menor. A questão essencial é a doutrinação ideológica que esta imposição digital constitui.
Quando sete em dez portugueses adultos (di-lo a OCDE) não compreendem textos longos e estão rotinados em ler apenas mensagens com um ou dois verbos; quando, como demonstram o PIRLS e outros estudos internacionais, Portugal desce imensos lugares no que tange às mais diversas literacias, que faz este Governo? Que têm feito, no fundo, os sucessivos ministérios? Transforma o professor num “facilitador de aprendizagens”. Transforma os alunos em cobaias de reformas que emperram uma máquina relativamente bem oleada. Jogos didáticos, recurso ao ChatGPT, vulgarização – já na universidade – do digital para toda a espécie de trabalhos; substituição da redação, de técnicas de análise textual, pelo mais sórdido diletantismo digital, eis o que é a educação à portuguesa.
A escola e a universidade não existem em Portugal. Existe só interesse em estupidificar para dominar. Este é um país pobre. Mais pobre e decadente ficará. “Um país faz-se com livros”, disse Monteiro Lobato. Portugal está sempre na vanguarda: com a digitalização seremos dos primeiros a esfacelar por completo o edifício educação: escolas contra escolas, a lógica da concorrência à luz de um recente decreto-lei assinado por Fernando Alexandre; os professores serão formadores online, muitos irão para o desemprego – é o futuro prometido pelo digital. Que país se faz quando não criámos leitores, cidadãos críticos? Um país de sacanas – disse-o o insuspeito Jorge de Sena.