Sempre que Cristiano Ronaldo é criticado, ouvimos dizer que Portugal é ingrato. É uma acusação curiosa. A grandeza desportiva do jogador nunca esteve verdadeiramente em causa. Este debate não é apenas sobre futebol.
Nenhum atleta no mundo recebeu o nível de reconhecimento institucional que Cristiano Ronaldo recebeu em Portugal. Demos o seu nome a um aeroporto internacional em plena carreira. Ronaldo foi elevado a símbolo nacional, embaixador do País, exemplo para crianças, estudantes, trabalhadores e empresários. Recebeu as mais altas honras e distinções da nação. Ainda no Natal passado, o primeiro-ministro português recomendou aos portugueses a “mentalidade Cristiano Ronaldo” como desígnio nacional. É difícil encontrar um paralelo, ou imaginar uma consagração pública mais ampla. Chamar ingrato a um povo que há duas décadas idolatra esta figura como nenhuma outra – das artes à política, da ciência à História – é negar a realidade.
Apesar desta consagração ímpar, basta alguém questionar um gesto em campo, o seu lugar na equipa, a sua atitude ou conduta pessoal para surgir o mesmo reflexo: “Depois de tudo o que fez por Portugal…” Como se uma carreira excecional em qualquer área devesse produzir uma espécie de crédito moral ilimitado, capaz de colocar um homem acima do escrutínio.
É um equívoco antigo, espelho de uma fraca cultura crítica. Os portugueses ainda confundem crítica com hostilidade. Quem tece críticas só pode ser alguém que inveja ou odeia. E não alguém que pensa. Perdemos, assim, uma distinção elementar: a de que admirar uma pessoa pelo seu trabalho e discordar dela são movimentos perfeitamente compatíveis. Aliás, são inseparáveis numa sociedade adulta.
Talvez este traço explique porque tantos debates públicos em Portugal não passam do grau zero. Em vez de discutirmos ideias, discutimos lealdades. Em vez de respondermos aos argumentos, tomamos o partido da tribo. A crítica deixa de ser um instrumento de conhecimento, progresso coletivo e passa a ser lida como declaração de guerra. É uma forma particularmente pobre de participar no espaço público, porque transforma qualquer discordância numa questão de carácter.
Deveria ser possível aos fãs agradecer a Cristiano Ronaldo por duas décadas irrepetíveis ao serviço do futebol português e, simultaneamente, encontrar falhas na sua conduta, na sua atitude e até sinais dos vícios do mundo que o criou. Não há contradição nenhuma nisso. Pelo contrário. A gratidão é um sentimento nobre. Mas a maturidade de uma comunidade mede-se precisamente pela capacidade de sustentar duas ideias verdadeiras ao mesmo tempo, com nuances e vários ângulos. Quando deixamos de o conseguir, já não estamos a defender um homem. Estamos apenas a desistir de pensar.
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