Há duas ou três semanas, António Araújo, no seu obituário do Público, lamentava o desaparecimento do Major Oak, um carvalho de quase mil anos, sob o qual João Pequeno terá dormido a sesta. Era uma árvore antiga, quer dizer, uma acusação viva contra a nossa pressa. Cem anos após cem anos, resistiu a batalhas, tempestades e secas, essas coisas que parecem enormes quando acontecem. Mas não aguentou a pressão turística. Literalmente. Foram tantos que lhe endureceram a terra em redor que o chão deixou de respirar e a árvore morreu — por assim dizer, de estima. E morreu de pé, que é como as árvores costumam morrer. No seu lugar há agora qualquer coisa parecida com um monumento à nossa falta de jeito para amar, que é uma das definições possíveis para estultícia.
O turista ama. Mas ama mal. Abraça as coisas como a Elvira dos Tiny Toons abraçava os animaizinhos. E mata-as numa ternura sem distância, sem ar. Como se gostar fosse a forma mais delicada de arruinar, um polegar para cima de cada vez.
O turista, aplicado, quase profissional, julga que se vive experimentando tudo, registando tudo, publicando tudo. Mas está errado. Seria melhor para todos que se deixasse estar quieto no seu sítio. Mas não consegue. Ninguém lhe explicou, em tempo útil, o nexo de causalidade que Pascal estabeleceu entre sair do quarto e a ruína geral dos homens.
O turista vive inquieto, pobre coitado. Tem a inquietação como quem tem uma doença de pele. Está subjugado por essa pulsão contemporânea do movimento, por essa superstição de que a alma melhora mudando de cenário. E então procura nos lugares que ainda não conhece a resposta para uma necessidade que já não sabe nomear. Como se viajar consistisse em fugir daquilo que não se consegue suportar estando parado. Como se a salvação estivesse no terminal de partidas.
Há, evidentemente, um lado reparador na viagem. Ao sair de onde estamos, caminhando em direcção ao que ainda não conhecemos, avançamos rumo a uma novidade que promete pôr cobro ao fastio da vida como ela é. Aborrece ter de lidar com o que já se sabe que vai acontecer, com os objectos habituais, nas divisões habituais, da vida habitual, na paisagem habitual. É preciso o novo, o diferente, o inesperado. Mas o novo cumpre apenas a necessidade do novo. O diferente cumpre apenas a necessidade do diferente. O inesperado pode nunca acontecer. E o que é anterior a isso permanece irremediado.
Por isso amo o veraneante. O veraneante não vai descobrir; pelo contrário. É uma criatura sábia, o peregrino da infância, aquele que em vez de passar por cima dos lugares, regressa ao seu interior. É o que reconhece. O que quer reencontrar a mesma casa, o mesmo caminho para a mesma praia, o mesmo café, a mesma banca de jornais, a mesma hora em que o sol se vai, a mesma conversa inútil em que tudo parece estar onde sempre esteve.
O veraneante não precisa de conquistar a paisagem. Deixa-se tomar por ela. Habita-a durante o tempo suficiente para não a esgotar. Ao fim de alguns dias, já anda mais devagar, já não olha tanto. Saber onde fica o pão é menos heróico do que a peregrinação. Mas está muito mais perto da peregrinação do que do turismo. Uma praia repetida é uma aprendizagem do limite, uma medida de tempo: da idade, dos mortos, dos filhos.
O problema não é tanto viajar quanto fazer da viagem uma prova de intensidade. Como se o mundo só existisse quando o atravessamos de telemóvel na mão. Há quem volte de longe sem ter saído de si. E há quem fique no mesmo lugar e descubra, de repente, a espessura das coisas.
Aprender a estar onde se está talvez seja uma aventura modesta. Mas nem por isso deixa de o ser. A inquietação não se cura necessariamente com movimento. Quando viajamos, ela vem connosco.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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