Os novos dados demográficos divulgados pelo INE duraram pouco mais do que um ciclo noticioso. Em poucas horas deixaram de ser uma notícia económica para se transformarem em munição política. Antes sequer de se perceber o verdadeiro alcance da revisão estatística, a sentença já estava escrita: Portugal afinal não tinha convergido tanto quanto se pensava com as economias mais desenvolvidas e a culpa era, uma vez mais, da imigração.
A rapidez com que esta narrativa se instalou ficou bem ilustrada pela conferência de imprensa conduzida por Sebastião Bugalho, enquanto porta-voz do PSD, procurando transformar uma revisão estatística numa acusação política aos anteriores governos socialistas.
Comecemos, por isso, pelos factos. A revisão do cálculo da população residente afeta o PIB per capita e obriga a recalibrar a leitura da convergência económica portuguesa. Mas não altera um dado essencial: entre 2015 e 2025, Portugal aproximou-se das economias mais desenvolvidas. A intensidade dessa convergência poderá revelar-se inferior ao que se estimava, até porque falta ainda rever o próprio PIB. Mas a convergência continua a existir. Mudou a aritmética. Não mudou a realidade. Ainda assim, bastou uma revisão estatística para regressar uma velha tentação portuguesa: transformar a imigração na explicação universal para quase tudo.
Habitação. Salários. Segurança. Identidade nacional. Crescimento económico. Quando um único fenómeno serve para explicar simultaneamente os problemas estruturais do País e quase todas as falhas da governação, já não estamos perante uma análise equilibrada. Estamos perante um bode expiatório.
Sabemos hoje que sem imigração milhares de empresas não encontrariam trabalhadores. Agricultura, turismo, construção, logística, indústria, restauração ou cuidados continuados enfrentariam dificuldades muito sérias. O mesmo sucede em setores altamente qualificados. Garantir trabalhadores para funções essenciais nunca impediu o crescimento económico. Tornou-o possível.
Durante anos repetiu-se que Portugal precisava de crescer, exportar mais, atrair investimento e responder à escassez de mão de obra. Foi esse consenso que justificou uma maior abertura ao exterior. Mas quando o mercado respondeu precisamente a essa necessidade através da imigração, muitos dos seus antigos defensores descobriram subitamente que afinal o problema era o mercado. Existe hoje uma curiosa versão do liberalismo: acredita-se na liberdade económica até ao momento em que ela produz consequências social ou culturalmente desconfortáveis.
É também aqui que entra a nostalgia. Basta olhar para localidades como Vila Nova de Milfontes, Odemira, Vila do Bispo ou tantas outras zonas do Alentejo e do Algarve. Durante décadas discutia-se como travar o despovoamento, o envelhecimento, a falta de trabalhadores, o encerramento de escolas, serviços e empresas. Os desertos de gente que ali existiam, inverno depois de inverno. Hoje, muitos desses mesmos lugares, tal como as grandes cidades, são apresentados como prova de que Portugal mudou demasiado. Esquece-se de que, sem imigração, estas comunidades continuariam a perder população, atividade económica e futuro. O problema de ontem era a desertificação. O problema de hoje passou a ser haver pessoas a mais. A velocidade com que mudámos de diagnóstico talvez diga mais sobre a política do que sobre o País.
Há aqui um paralelismo evidente com o Brexit. Também aí a política foi alimentada pela promessa de recuperar um país mais homogéneo, mais soberano e mais reconhecível. O problema é que esse país só existia na imaginação e nunca na realidade. A nostalgia ganha eleições porque simplifica o passado. Governa mal porque não resolve o futuro.
O iliberalismo alimenta-se menos da mentira do que da nostalgia. Não promete construir um futuro melhor, mas sim devolver um passado que nunca existiu como é recordado. Também se esquece, com demasiada frequência, de que a esmagadora maioria dos imigrantes trabalha, desconta e ajuda a financiar um Estado social pressionado pelo envelhecimento demográfico. Fala-se incessantemente dos custos. Quase nunca das contribuições.
Nada disto significa que a imigração não coloque desafios. Coloca, e importantes. Exige controlo das fronteiras, combate às redes ilegais, integração eficaz, investimento em habitação, saúde, educação e regras claras para quem chega. Mas uma coisa é discutir esses estímulos seriamente. Outra é transformar a imigração no álibi para todas as fragilidades do Estado e da economia.
A questão que interessa é e sempre foi estratégica.
Num mundo onde a população ativa diminui e as necessidades sobram, a capacidade de atrair e integrar pessoas é uma das principais vantagens competitivas das economias desenvolvidas. Seja nos setores de maior qualificação ou nos de menor. A aposta estratégica nos primeiros não desmerece a necessidade dos segundos. Muito pelo contrário. O Japão começou a reconhecer essa realidade. O Canadá transformou-a numa política de Estado. Modelos diferentes, a mesma conclusão: a questão já não é saber se haverá imigração, mas como a gerir.
Portugal também terá de escolher. Pode optar por ser um país mais fechado e mais homogéneo. É uma opção política legítima. Mas convém assumir o preço: menos crescimento, menos dinamismo económico e uma sociedade cada vez mais envelhecida. Mais pobretes, certamente tristetes e sós. A nostalgia pode ser confortável. Nunca foi um plano de desenvolvimento.
Mas, existindo a tal via alternativa, também se pode investir seriamente na integração, reforçar os serviços públicos e transformar a imigração numa vantagem económica e demográfica. Como parece que se procurava fazer até há dois anos, com bastantes falhas, naturalmente.
O que não se pode fazer é fingir que ambas as escolhas produzem os mesmos resultados.
Uma democracia liberal vive do confronto entre ideias e não da seleção conveniente dos factos.
É por isso que o verdadeiro problema português não é a imigração. É a crescente tentação de substituir o País real por um imaginado.
Porque quando a nostalgia substitui a realidade, deixa de haver boas políticas. Começa apenas a haver ilusão. E, mais cedo do que tarde, conforme se verifica, vive-se a política de terra queimada.
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