Uma hora a deambular pelos corredores do supermercado, sem saber muito bem onde está o quê ou se há aqui aquelas coisas que, à força de dez anos emigrado, se tornaram parte do meu quotidiano. Senti-me naquela grande superfície comercial, onde já tinha estado centenas de vezes há muitos anos, como me senti aquando da minha primeira visita a um supermercado, quando emigrei para o Belize: como se tivesse chegado a um país novo e estranho.
A senhora da peixaria, entre conversa e preguiça, já demorava 15 minutos a amanhar e escalar um robalo e eu, que não tinha a certeza de ser completamente justificada a minha raiva, fui-me embora.
É estranha esta sensação. Uma pessoa sai do conforto do seu país, de uma realidade onde tudo lhe sai naturalmente e sem esforço, e passa dez anos no estrangeiro a viver uma sensação constante de estranheza, de desconforto, de alienação que nunca são totalmente ultrapassáveis. Sonha com o regresso ao conforto, mas esquece-se de que dez anos são muita coisa.
Apesar de as memórias de emigrante se cristalizarem no momento em que sai, a realidade que abandona continua caminho e aquilo de que se lembra acaba por desaparecer. Dá sempre para voltar atrás no espaço, mas não dá para voltar atrás no tempo. E o regresso à terra natal parece sempre uma tentativa de ver um bom filme depois de ter visto os dez primeiros minutos e passado os trinta seguintes na casa de banho.
Estive emigrado na Escócia e o meu filho habituou-se a comer haggis — e tem saudades de o fazer. Uma vez perguntou-me se, durante a noite, enquanto estivesse a dormir, eu o podia levar de avião para que, quando acordasse, estivesse já na Escócia, “só para apanhar um bocadinho de ar fresco”.
Ser-se emigrante é uma pessoa, de repente, encontrar-se numa situação em que nunca mais vai deixar de sentir saudades. Saudades de um tempo e de um espaço que já não existem, porque o mundo não fica à nossa espera. Porque o mundo que tanto custou a deixar desapareceu no momento em que abalou.
É por isso que a experiência de emigrante é, muitas vezes, a de tentar recriar, no destino, o país que abandonou. Tenta recriar o que a sua memória, necessariamente distorcida pela saudade, guarda. Mas o que é ainda mais fascinante é a experiência do emigrante regressado, espantado por já não existir aquilo a que pensava estar a regressar.
Quando estava emigrado, bastava uma ida ao supermercado, numa visita a Portugal, para me lançar no mais profundo estado de nostalgia. Não é com facilidade que uma pessoa dá por si com vontade de chorar por causa de uma secção de enchidos.
Os primeiros largos meses, ou anos, fora de Portugal foram marcados por várias situações de desconforto, nenhuma maior do que a da visita ao supermercado. Já nem falo do que isso quis dizer no Belize, mas mesmo no Reino Unido, a sensação de não haver “nada” deixava bem claro que já não estávamos em casa. As marcas diferentes, os produtos que simplesmente não existem, os produtos que existem mas que uma pessoa nunca se imagina a vir a comprar, tudo isso causa uma sensação de desajuste que não mata mas mói.
Suponho que isso deve ser ainda mais sentido quanto mais importância as pessoas atribuem às refeições, aos rituais e aos sabores. Para quem isso é uma condição essencial para se sentir “em casa”, isto significa o início de uma missão para reproduzir esses sabores e rituais. A impossibilidade de reproduzir alguns deles faz com que a experiência de comer um caldo verde ou uma caldeirada em Portugal seja transcendental.
Certa vez, já depois de voltar a Portugal, em visita a Londres e de passagem rápida pelo supermercado para comprar qualquer coisa para comer, dei por mim a olhar para as prateleiras como se estivesse a olhar para a secção de enchidos em Portugal. Um emigrante, num certo sentido, deixa de ter casa, mas, noutro, passa a ter várias. Não sei qual dos sentidos é mais desconcertante.
Ser emigrante é não se conseguir voltar a sentir verdadeiramente em casa, ter mais do que uma casa e não ter casa nenhuma. É ter saudades das terras por onde se passou e lembrá-las todas não como elas são, mas como nós as idealizamos, sempre com especial ênfase nas coisas que já não podemos ter. Ser emigrante é viver num estado permanente de saudade.
Aqui, em Portugal, isto consegue ganhar contornos ainda mais cruéis. Há pouca coisa mais alarve do que este festival, todo o santo agosto, de gozar com o emigrante. Ver aqueles que não tiveram de sair do país a exibir o seu elitismo snob contra as formas que os emigrantes têm de se manter ligados a Portugal, seja através de símbolos da bola, seja através de galos de Barcelos ou de cachecóis-bandeira no carro, é coisa que dá náuseas.
É como se a portugalidade dos emigrantes, mantida à força da resistência à aculturação, nos fizesse muita comichão. Como se lhes exigíssemos que estivessem conscientes de que não é fixe sentirem saudades da terra deles. Gozamos as palavras em francês metidas no meio de um português mantido à força da saudade e do orgulho numa terra que não os quis nem conseguiu dar uma vida decente e digna. Como se mantivéssemos um rancor invejoso por quem saiu do país sacrificando tudo e que, de caminho, fez algum dinheiro.
No fundo, é como se, durante um mês em doze, não conseguíssemos partilhar o país com aqueles que sentem saudades dele durante os outros onze.
E, já agora, também de caminho, não nos esqueçamos de que aqueles que, vindos de outros países, resolveram viver e trabalhar em Portugal, são imigrantes para nós, mas, se lhes perguntarem a eles, dir-vos-ão que são emigrantes. Porque imagino que a sensação de ter muitas casas e não ter casa nenhuma seja vivida exatamente da mesma forma.
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