
NFACTOS/Pedro Granadeiro
À partida, a associação aos conceitos fun and quirky (divertido e peculiar, numa tradução literal) da cadeia hoteleira Six Senses não é imediata. Estaremos demasiado condicionados pela crónica de um tempo perdido, feita por Agustina Bessa Luís no romance Vale Abraão (1991), levado mais tarde ao cinema (1993), por Manoel de Oliveira, no filme com o mesmo nome? De palco de intrigas em torno da estrutura social que dominava a produção vitícola, o Douro passa agora a cenário turístico idílico, com suites panorâmicas viradas para os vinhedos em socalcos e para o leito do rio.
Transformar-se em destino de luxo, já o vimos no passado, não será fácil. Mas é curiosa a forma como o Six Senses Douro Valley dessacraliza este território. Às sessões de cinema ao ar livre e gelados artesanais oferecidos tradicionalmente pela cadeia de origem tailandesa, juntam-se surpresas como as escaladas nas árvores centenárias do bosque ou os jantares pop-up pela quinta. Não quer dizer que se tenha descurado o mundo dos vinhos. Basta pensar na master wine list do hotel, com cerca de 700 referências de vinhos (80% do Douro). A vertente enoturística é reforçada com os cursos dados pelas wine diretors Sandra Tavares da Silva e Francisca van Zeller e as provas diárias de vinhos, sempre às 19 horas, feitas em parceria com os produtores locais. Uma ideia de férias inteligentes, acrescentando algo mais à estadia, que atravessa todas as áreas do hotel.

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A primeira experiência de conversão da quinta de Vale Abraão ao turismo não teve um final feliz. Em 2007, com arquitetura de Luís Rebelo de Andrade e Giano Gonçalves e decoração de interiores de Nini Andrade Silva, abriu o Aquapura Douro Valley. Um projeto ambicioso, onde foram investidos mais de 20 milhões, que nunca conseguiu captar os turistas de luxo para o qual foi pensado. Comprado pela Explorer Investments em julho de 2013, através do Fundo Discovery (um fundo de recuperação de ativos imobiliários turísticos), a gestão do hotel foi entregue ao grupo Six Senses, com uma forte presença no mercado asiático.
A unidade fechou no final de outubro de 2014 para obras de revitalização, que procuraram anular algumas das críticas apontadas ao projeto original sobretudo, referentes ao design de interiores, como a da iluminação escassa, aliada à utilização de cores escuras. “Havia reações muito extremadas dos clientes, ou amavam ou odiavam”, conta a relações públicas do hotel, Joana van Zeller. “Hoje, quem chega, encontra um hotel novo”, garante. Cerca de 90% do mobiliário do Aquapura foi vendido, para se adaptar à estética fun and quirky da marca Six Senses. Já o lay out do hotel mantém-se praticamente inalterado, com os edifícios originais de Vale Abraão (casa principal, armazéns, etc.) unidos pelas estruturas modernas concebidas por Luís Rebelo de Andrade e Giano Gonçalves.

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Além dos 50 quartos deste corpo arquitetónico, existem sete villas (de tipologias T1 a T3), situadas na envolvente da piscina, a pensar nas famílias. Um gabinete de arquitetura nova-iorquino, o Clodagh Design, foi o responsável pela decoração de interiores. Nota-se uma preocupação em fazer uma leitura contemporânea de matérias–primas portuguesas, seja com um painel desconstruído de azulejos antigos ou com a conversão de utensílios agrícolas em peças de arte. Foram ainda ressuscitadas as referências à aristocrática família Serpa Pimentel, a anterior proprietária de Vale Abraão, que ali vivia desde o século XVIII, dedicada à produção de vinhos. “Tivemos a ajuda de Júlia Serpa Pimentel, que publicou o livro Vale Abraão: Um Lugar Antropológico, e nos cedeu o material ali reunido”, revela Joana van Zeller. Numa das paredes do restaurante, exibem-se fotografias das férias de verão ou dos jantares de aniversário de várias gerações. Imagens que são novamente reproduzidas em grandes dimensões, em algumas paredes dos corredores dos quartos. Reviver o passado, sim, mas com todo o conforto e luxo (nunca ostensivo) possível no século XXI.

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No que diz respeito aos prazeres da mesa, há experiências e ambientes para todos os gostos. No Restaurante Vale Abraão, tanto pode optar-se por uma sala mais sofisticada, com uma grande lareira a dominar as atenções, ou por uma atmosfera mais descontraída, na sala com uma cozinha aberta equipada com forno antigo a lenha, forno de pão e Josper (que combina grelha e forno). Aqui, na longa mesa de trabalho do chefe, existem alguns lugares sentados para os hóspedes, para que possam acompanhar diariamente, passo a passo, a preparação dos pratos. Há também uma grande mesa no jardim, para refeições mais descontraídas.
Recentemente, o hotel contratou o chefe jugoslavo-tornado-português Ljubomir Stanisic como consultor (o chefe de serviço será Nuno Ferraz), que apostou na ideia Good food for a good cause. Para os pratos serão transpostas as preocupações de sustentabilidade que caracterizam a cadeia Six Senses. Privilegiam-se os produtos locais e sazonais, sempre que possível retirados das duas hortas biológicas do hotel (uma delas, plantada no local onde existiu um court de ténis, lado a lado com a piscina, com um desenho semelhante a um jardim). E dá-se prioridade à riqueza nutricional dos ingredientes, transformando-os o mínimo possível. Na carta haverá também muito peixe do rio e da costa Norte Atlântica, poucas carnes vermelhas e muitos cereais integrais. O objetivo é mostrar que a saúde pode e deve estar presente na alta cozinha, sem descurar a riqueza dos sabores. A preocupação por uma oferta saudável estende-se ao próprio bar, com uma série de cocktails criados propositadamente para o Douro Valley, com a ajuda do consultor Michael D. Calahan (o seu bar em Singapura está no top 10 mundial).

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Spa de inspiração glocal
Quando vem ao nosso encontro, o espanhol Javier Suarez traz nas mãos um dos colchões de yoga, feitos de material reciclado, que existem em todos os quartos. “Quase todas as manhãs, às 8 e 30, convidamos os hóspedes a participar numa aula de yoga. Se possível, no deck exterior”, conta o diretor deste Six Senses Spa. “Temos uma rede de 31 spas espalhados pelo mundo, por isso pode dizer-se que as influências são múltiplas”, diz, não renegando, contudo, o forte cunho asiático nos tratamentos desta cadeia de origem tailandesa. Há uma preocupação em criar experiências personalizadas, que podem passar, por exemplo, por uma massagem à medida ou pela utilização de ervas aromáticas, ao gosto do cliente, nos banhos da vitality suite. Vê-se, sobretudo, uma preocupação em pensar “fora da caixa”, utilizando os recursos naturais de Vale Abraão, com programas como o forest walking (uma caminhada tranquila no bosque de cinco hectares, que os japoneses dizem ter efeitos terapêuticos), ou uma escalada a uma das árvores seculares. As propostas encaixam-se no Six Senses Integrated Wellness, um programa completo de bem-estar pensado pelos médicos especialistas da cadeia, que inclui tratamentos de spa, além de atividades de fitness e de wellness. O ideal para quem procura um alívio do stress.
As dimensões do spa são bem generosas: 2200 metros quadrados, com dez salas de tratamento com vista para os jardins e o rio, um nail bar (com serviços de manicure e pedicure que podem ser acompanhados de provas de vinhos e de queijos), uma piscina interior, um ginásio, sauna e, uns graus abaixo, laconium, além de uma originalidade dentro do grupo Six Senses: um alquimia bar, a imitar uma farmácia antiga, onde Javier ensinará os hóspedes a fazer os seus próprios cremes, óleos, máscaras e perfumes, em workshops regulares.
Todos os spas da cadeia internacional, além dos tratamentos de assinatura six senses (com os produtos da marca londrina The Organic Pharmacy) apresentam tratamentos de inspiração local. No Douro Valley, foram os citrinos, os figos, as uvas e as pedras de xisto a ser incorporados em massagens de descrições sugestivas. Retira-se, mais uma vez, do terroir duriense, aquilo que ele tem de melhor.
Hotel Six Senses Douro Valley > Quinta de Vale Abraão, Samodães, Lamego > T. 254 660 600 > quartos a partir de €265

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