Há um silêncio que habita as salas de espera das urgências e os corredores de certas instituições. Neste caso, não o definimos como uma simples ausência de ruído; mas sim como a ausência de presença. Há gente por todo o lado. Mas parece faltar a vida. Quando olhamos de perto para a forma como tratamos os nossos idosos em Portugal, somos forçados a encarar uma realidade desconfortável; uma realidade construída com tijolos de indiferença e burocracia; uma realidade onde encontramos os “verdadeiros hospícios do século XXI”.
O envelhecimento, neste limbo que antecede o fim, parece dividir-se em três cruéis caminhos.
O primeiro é aquele em que a mente parte, mas o corpo teima em ficar. O ser humano reduz-se ao funcionamento de uma máquina biológica, despido daquilo que o caracteriza, vivendo em piloto automático.
O segundo caminho é o do naufrágio total. É o destino daqueles que perdem ambas as frentes da batalha. As demências avançam de mãos dadas com um corpo que cede, sem resistência, ao peso das doenças. A esses, a vida encarregar-se-á de os levar, num desfecho que a natureza dita.
Mas é o terceiro caminho que encerra a maior das tragédias humanas. São os casos em que aquilo que nos distingue como seres humanos prevalece. O corpo, a nossa casca material, falha miseravelmente, mas a mente, esse eterno mistério, permanece intacta, presa numa jaula de osso e carne.
Certo dia, conheci um homem numa ambulância. Tinha passado uma vida rodeado de livros. Disse-me que já não temia a morte; temia os olhos, que lhe fechavam as páginas, e a memória, que lhe roubava as palavras.
A sociedade, ao contrário de mim naquele dia, não tem tempo para a poesia triste da velhice. O modus operandi atual é frio, estéril e reduzido a números. Colocamos todas estas pessoas, com as suas bagagens e dores tão distintas, no mesmo saco amorfo do “sistema”. Habituamo-nos a ouvir frases como: “O da cadeira 43 está confuso, põe-no ali ao lado do AVC da maca 78. Se ele der de frosques, pelo menos liberta a vaga até a família se lembrar“.
Foi também este mesmo idoso, nesta longa e demorada ida à urgência, que me cravou novamente uma expressão na memória: muitos dos lares em que “os” depositamos não passam de hospícios modernos. O tratamento assemelha-se à sina daquele pacote de bolachas que compramos, mas que afinal não gostamos, e que acabamos por não ter coragem de deitar fora sem motivo. Fica ali, empurrado para o fundo da prateleira, esquecido no escuro, à espera que passe o prazo de validade. Porque quando a validade expira, atirá-lo para o lixo já é legítimo e isento de culpa.
E a ironia é que apesar de toda esta complexidade clínica, há uma necessidade surpreendentemente simples que continua esquecida: companhia. O que a grande maioria destes idosos precisa não são programas complexos, atividades radicais ou maratonas ocupacionais para justificar orçamentos. Muitas vezes, precisam apenas de uma hora de conversa por dia. De uma caminhada ao sol. De um ouvido que não os apresse. Precisam, na sua base mais elementar, da dignidade de serem ouvidos.
Talvez devêssemos parar de nos concentrar tanto nos nichos culturais regionais e nas discussões fúteis da nossa sociedade, e olhar com mais atenção para o nosso futuro próximo. Esquecemo-nos, com uma arrogância assustadora, de que todos vamos passar por lá. É apenas uma questão de tempo.
E talvez, quando quem toma as decisões finalmente se aperceber disto, seja tarde demais. Talvez já seja a vez deles de passar as tardes numa cadeira igual à 43, diante de uma televisão com o som no máximo, à espera que o tempo faça o resto.
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