Há números que fazem parte da nossa vida financeira, mas que, apesar de os ouvirmos frequentemente, nem sempre sabemos dizer quanto representam no nosso caso. Sabemos quanto recebemos no final do mês, sabemos quanto pagamos pela casa e, muitas vezes, sabemos quanto temos na conta bancária. Mas será que sabemos quanto custa, por mês, manter a nossa vida? Quanto do nosso rendimento já está comprometido? Quanto nos sobra efetivamente? E, sobretudo, quanto tempo conseguiríamos resistir se o rendimento diminuísse ou surgisse uma despesa inesperada?
Estas perguntas são mais importantes do que parecem. Conhecer os nossos números não é uma questão de matemática financeira; é uma questão de consciência. Sem essa informação, é muito fácil tomar decisões com base na perceção: “acho que consigo”, “não gasto assim tanto”, “a prestação cabe no orçamento” ou “quando ganhar mais começo a poupar”. O problema é que as finanças pessoais não se gerem com base no que achamos ou no que supomos. Gerem-se com base naquilo que efetivamente acontece.
Não é necessário conhecer dezenas de indicadores. Mas há, pelo menos, cinco números que deveriam fazer parte do nosso “painel de controlo” financeiro.
1. Quanto entra todos os meses?
O primeiro número parece óbvio: o rendimento líquido mensal. É o dinheiro que efetivamente entra no orçamento familiar e que está disponível para pagar despesas, poupar e tomar decisões.
Imagine-se um agregado familiar com dois rendimentos líquidos de 1.400 e 1.600 euros. O rendimento mensal conjunto é de 3.000 euros. É este o número que deve servir de ponto de partida para todas as decisões, e não o rendimento bruto, nem um prémio ocasional, nem um mês particularmente favorável.
Mas há aqui uma distinção importante. Se parte do rendimento varia significativamente de mês para mês, convém não construir o orçamento contando sempre com o melhor cenário. Uma família que recebe habitualmente 3.000 euros, mas cujo rendimento pode oscilar entre 2.600 e 3.400 euros, deve conhecer essa realidade e perceber se a sua estrutura de despesas continua sustentável num mês de 2.600 euros.
O primeiro número não serve apenas para saber quanto ganha. Serve para saber com que realidade pode contar.
2. Quanto custa, afinal, manter a nossa vida?
O segundo número é, provavelmente, aquele que mais pessoas desconhecem: o total das despesas mensais.
E não basta saber quanto se paga pela casa. É necessário somar crédito à habitação ou renda, água, eletricidade, telecomunicações, seguros, alimentação, transportes, educação, saúde, prestações de outros créditos, subscrições e todas as restantes despesas que se repetem ao longo do ano.
Considere-se novamente um agregado com 3.000 euros de rendimento líquido mensal:
- Crédito à habitação: 900 €
- Crédito automóvel: 300 €
- Alimentação: 500 €
- Energia, água e telecomunicações: 250 €
- Transportes: 200 €
- Seguros: 100 €
- Educação e saúde: 200 €
- Outras despesas: 300 €
Estamos já em 2.750 euros de despesas mensais. À primeira vista, a família pode considerar que “consegue pagar tudo”. E consegue. Mas há uma informação muito mais importante escondida nestes números: sobram apenas 250 euros por mês.
É aqui que começa a verdadeira análise.
Uma família pode ter todas as contas pagas e, ainda assim, estar financeiramente frágil. Basta uma avaria de 1.000 euros, uma despesa de saúde inesperada ou alguns meses com rendimento inferior para os 250 euros de margem desaparecerem rapidamente.
Por isso, conhecer a despesa total é diferente de conhecer as contas que temos para pagar. É perceber quanto custa, efetivamente, a vida que estamos a levar.
3. Quanto do rendimento já está comprometido com crédito?
O terceiro número é a taxa de esforço, que já abordámos nesta rúbrica, mas que merece voltar a aparecer porque é um dos indicadores fundamentais para perceber a nossa capacidade financeira.
O cálculo é simples:
Taxa de esforço = (total das prestações mensais de crédito ÷ rendimento líquido mensal) × 100
Imagine uma família com 3.000 euros de rendimento e 1.050 euros de prestações mensais de crédito. A taxa de esforço é de 35%.
Isso significa que mais de um terço do rendimento mensal está destinado ao pagamento de créditos, antes de pagar alimentação, energia, transportes ou qualquer outra despesa.
É importante perceber que a taxa de esforço não é apenas um número utilizado pelos bancos para avaliar o risco de conceder crédito. É também uma ferramenta que cada família pode utilizar para avaliar o seu próprio risco financeiro.
Duas famílias com o mesmo rendimento podem ter realidades completamente diferentes. Se uma paga 600 euros de créditos e outra paga 1.200 euros, ambas ganham 3.000 euros, mas não têm a mesma liberdade financeira.
E é precisamente por isso que não devemos confundir “o banco empresta” com “eu consigo pagar confortavelmente”.
4. Quanto sobra depois de pagar tudo?
Chegamos ao quarto número, talvez o mais importante de todos: a margem financeira.
Se uma família recebe 3.000 euros e tem despesas de 2.750 euros, a sua margem mensal é de 250 euros. Se, depois de todas as despesas, consegue reservar 400 euros, a margem é de 400 euros.
Parece uma diferença pequena, mas não é.
Uma família com 400 euros de margem tem mais capacidade para enfrentar uma despesa inesperada, poupar, amortizar uma dívida ou simplesmente atravessar um mês mais difícil. Uma família com 50 euros de margem pode estar a funcionar aparentemente bem, mas qualquer imprevisto pode obrigá-la a recorrer ao cartão de crédito ou a outro financiamento.
Margem financeira é liberdade de decisão.
E este número deve ser acompanhado ao longo do tempo. Se há seis meses sobravam 400 euros e agora sobram apenas 150, alguma coisa mudou. Pode ter aumentado uma prestação, podem ter subido as despesas fixas ou simplesmente podem ter-se acumulado pequenas despesas que deixaram de ser pequenas quando somadas.
É por isso que não basta perguntar “quanto tenho na conta?”. A pergunta mais importante é: “quanto consigo libertar todos os meses depois de pagar aquilo que é necessário?”
5. Quanto tenho disponível se amanhã alguma coisa correr mal?
O quinto número introduz uma dimensão diferente: a poupança disponível para fazer face a imprevistos.
Imagine duas famílias exatamente com o mesmo rendimento de 3.000 euros e a mesma margem mensal de 300 euros. Uma tem 10.000 euros disponíveis numa poupança de emergência. A outra não tem qualquer poupança.
No papel, as duas parecem iguais. Na realidade, não estão.
Se surgir uma despesa inesperada de 2.000 euros, a primeira família consegue absorvê-la sem alterar radicalmente o seu orçamento. A segunda terá de encontrar os 2.000 euros através de cortes imediatos, ajuda familiar ou recurso a crédito.
É por isso que poupar não é apenas acumular dinheiro. É construir capacidade de resposta.
E não é necessário começar com grandes valores. Reservar 50, 100 ou 150 euros por mês pode parecer pouco, mas representa 600, 1.200 ou 1.800 euros ao fim de um ano. O importante é que a poupança deixe de ser aquilo que fazemos “se sobrar alguma coisa” e passe a ser considerada uma decisão dentro do orçamento.
Conhecer os cinco números muda a forma como decidimos
Voltemos ao agregado dos 3.000 euros mensais. Se souber que recebe 3.000 euros, gasta 2.750 euros, tem 35% do rendimento comprometido com créditos, dispõe de apenas 250 euros de margem e tem 1.000 euros de poupança, a sua realidade financeira torna-se muito mais clara.
Essa família pode até estar a cumprir todas as suas obrigações. Mas não tem uma grande margem para assumir novos compromissos.
Se, pelo contrário, conseguir reduzir algumas despesas, renegociar um crédito e aumentar a margem mensal para 450 euros, a situação começa a ser diferente. Não ganhou mais dinheiro. Passou a decidir melhor com o dinheiro que já tinha.
É esta a diferença entre olhar para as finanças através da conta bancária e olhar para elas através de indicadores que permitem compreender a realidade.
Conhecer estes números permite também fazer perguntas melhores: posso assumir uma nova prestação? Consigo suportar uma subida dos juros? Tenho margem para mudar de emprego? Se o carro avariar, consigo pagar a reparação? Se durante dois meses o rendimento diminuir, consigo manter as minhas obrigações? Estou a poupar o suficiente para os meus objetivos?
Não existem respostas universais. Existem respostas adequadas à realidade financeira de cada pessoa ou família.
E talvez seja esse o principal ensinamento: não precisamos de saber tudo sobre finanças para tomar melhores decisões. Precisamos, antes de mais, de conhecer os números que condicionam as nossas escolhas.
Ter finanças com cabeça é saber quanto entra, quanto sai, quanto está comprometido, quanto sobra e quanto temos disponível para enfrentar aquilo que não conseguimos prever. A partir daí, as decisões tornam-se mais conscientes, porque deixam de assentar em perceções e passam a assentar na realidade.
E conhecer a realidade é também o primeiro passo para mudar aquilo que não está bem.
Na próxima semana vamos pegar precisamente numa das perguntas que mais vezes ouvimos quando falamos de finanças pessoais: porque é tão difícil poupar? Se sabemos que devemos criar margem, se reconhecemos a importância de ter uma reserva financeira e se, muitas vezes, até sabemos onde poderíamos reduzir despesas, porque é que chegar ao final do mês com dinheiro disponível continua a ser tão difícil?
Talvez a resposta esteja menos na matemática do que pensamos — e mais na forma como tomamos decisões todos os dias.
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