Primeiro foi a Comporta, onde, durante anos, os ricos nacionais descobriram esse extraordinário prazer aristocrático de brincar aos pobrezinhos. Chapéu de palha, camisa branca amarrotada, pés descalços, peixe grelhado e uma casa que parecia uma cabana de pescador, embora tivesse custado o PIB de uma pequena freguesia. Agora chegou a internacionalização do conceito. Em Melides, a elite global descobriu finalmente a vida simples. E, como seria de esperar, complicou-a extraordinariamente.
Naturalmente, não resisti à reportagem que faz capa da revista do Expresso esta semana sobre o CostaTerra, depois de ter visto também, há dias, uma edição do Repórter Sábado, no canal NOW, sobre o mesmo admirável mundo novo. Aquilo lê-se menos como reportagem imobiliária do que como o press book do grande blockbuster deste verão. Temos cenário — 292 hectares e quase 2,7 quilómetros de frente de mar —, estrelas internacionais, realeza britânica, pilotos de Fórmula 1, magnatas tecnológicos, helicópteros, drones, mansões e até um elétrico 28 remodelado e baptizado de “Desejo”. Falta Hans Zimmer compor a banda sonora e Christopher Nolan explicar-nos que, em Melides, o tempo corre ao contrário.
O filme poderia chamar-se CostaTerra — A Terra do Nunca. Ou, melhor ainda, Horizonte Perdido: Melides. Shangri-La, o vale imaginado por James Hilton no romance Lost Horizon, de 1933, e eternizado por Frank Capra em Horizonte Perdido (Lost Horizon, 1937), um refúgio escondido do mundo onde o tempo abrandava, as pessoas envelheciam devagar e a humanidade podia proteger-se da barbárie exterior. O CostaTerra vende uma fantasia parecida, só que, em vez de monges tibetanos, há personal trainers; em vez do Grande Lama, uma administração americana; e, em vez de atravessar os Himalaias de mula, chega-se de jato privado a Tires ou Beja e segue-se de helicóptero. O progresso serve precisamente para isto: tornar o misticismo mais confortável.
No Shangri-La de Hilton, Hugh Conway era um ocidental cansado do mundo que encontrava finalmente a paz. Hoje seria provavelmente fundador de uma tecnológica, depois de vender a empresa por 4 mil milhões, divorciar-se duas vezes e anunciar no LinkedIn que decidira reconnect with what truly matters. Henry Barnard perceberia imediatamente o potencial de networking. Miss Brinklow abriria um retiro espiritual sustentável. E o Grande Lama faria uma conferência sobre moderação enquanto alguém lhe servia um Petrus Pomerol 2020. Não são equivalências morais, atenção. É apenas casting. E neste filme, o casting é caro.
Entre os nomes associados pela imprensa ao clube estão Harry e Meghan, a princesa Eugenie, pilotos como Max Verstappen e Lando Norris, estrelas como Nicole Kidman e Sharon Stone e bilionários como Jeff Bezos e Elon Musk. A Discovery Land Company não confirma identidades e protege religiosamente a confidencialidade dos membros, o que acrescenta ao empreendimento aquele indispensável toque de Eyes Wide Shut, embora, tanto quanto sabemos, com muito mais golfe, bastante menos máscaras venezianas e provavelmente melhores toalhas.
A vida simples dá uma trabalheira
Mas o melhor de tudo é a filosofia. O CostaTerra vende o chamado simple luxury: autenticidade, família, natureza, surf, cavalos, pés descalços, longos jantares sob as estrelas e regresso às coisas essenciais. Tudo muito Henry David Thoreau, desde que Thoreau tivesse spa, piscina infinita de 50 metros, cabeleireiro, sala de cinema, sala de jogos, restaurantes, bares, equipa médica, segurança 24 horas, drones, instrutores privados e alguém encarregado de garantir que nunca lhe faltava leite no frigorífico.
Os americanos atravessaram assim o Atlântico para descobrir aquilo que qualquer avozinha alentejana sabia há cem anos: legumes da horta, peixe grelhado, pão, queijo, azeitonas, vinho tinto, silêncio e uma mesa grande. A diferença é que a avozinha fazia tudo isso sem lhe chamar farm-to-table, sem pagar 200 mil euros para entrar num clube e sem precisar de um concierge para lhe explicar que o tomate nasce na terra e não numa caixa com a palavra organic. No CostaTerra, os membros escolhem os produtos na horta e alguém trata depois de os transformar em almoço. Isto é verdadeiramente extraordinário: a humanidade levou dez mil anos desde a invenção da agricultura para conseguir transformar o ato de apanhar uma courgete numa experience. A simplicidade, quando custa suficientemente caro, deixa de se chamar simplicidade. Passa a chamar-se lifestyle.
O CostaTerra é, no fundo, a americanização integral da vontade de fugir da América. Querem escapar à ostentação e constroem casas com quatro cozinhas. Querem natureza e fazem um campo de golfe. Querem anonimato e chegam de helicóptero. Querem autenticidade e importam um modelo de clube privado aperfeiçoado pela Discovery em comunidades de milionários espalhadas pelo mundo. Querem viver como portugueses, mas com uma condição essencial: não terem de viver como os portugueses.
Só falta contratarem Lionel Messi para ensinar futebol às crianças. Cristiano Ronaldo já não deve estar disponível: preferiu montar o seu Shangri-La particular na Quinta da Marinha, em Cascais, onde, entre outras amenidades de inspiração franciscana, não faltam piscinas, spa, cinema e pista de bowling. Entre Messi em Melides e Ronaldo em Cascais, o campeonato mundial da vida simples promete ser renhido.
Oligarcas, só se forem de t-shirt
Também é maravilhosa a seleção social. Não basta ser rico. É preciso ser o rico certo. A reportagem assinala a ausência de milionários oriundos da Rússia, China ou países do Golfo e explica que a entrada depende de convite. Não se quer o velho oligarca com portões de seis metros, mármore até à casa de banho do cão e torneiras de ouro. Prefere-se o novo multimilionário de t-shirt que diz community, wellness, sustainability e disruption. Convenhamos: entre aquilo a que chamamos “oligarca” quando vem de Moscovo e aquilo a que chamamos tech billionaire quando chega da Califórnia, por vezes a diferença essencial é um bom departamento de relações públicas. Entre uns e outros, venha o Diabo e escolha, desde que tenha sido previamente aprovado pelo comité de admissão.
A certa altura, aquilo parece uma temporada de The White Lotus escrita pelos argumentistas de Succession. Toda a gente quer paz, natureza, família, autenticidade e pés descalços, mas é necessária uma pequena cidade de empregados para tornar possível tanta espontaneidade. O verdadeiro luxo contemporâneo já nem consiste em possuir coisas. Consiste em nunca ter de pensar nelas. O frigorífico enche-se sozinho. A horta transforma-se em almoço. O cavalo aparece. O professor de surf espera. O sushi chega à espreguiçadeira. Há cocktails numa casa na árvore, pizza a meio de uma partida de golfe e Garrett McNamara para ensinar os milionários a apanhar ondas. Peter Pan nunca teve semelhante serviço na Terra do Nunca.
Do outro lado da vedação, muda o género do filme
Só que depois há aquilo a que, no cinema, chamamos o fora de campo. Junto deste paraíso, moradores do antigo parque de campismo queixam-se da degradação dos serviços, do encerramento do supermercado, da peixaria e da padaria, das limitações à circulação e da incerteza sobre o próprio futuro. Na mesma região onde a natureza se tornou o mais caro dos produtos de luxo, a investigação Green to Grey, citada pelo Expresso, calcula em 800 mil litros de água por dia o consumo necessário ao campo de golfe. A Discovery contrapõe que reduziu substancialmente a área relvada, utiliza águas residuais tratadas e escolheu uma variedade de relva mais resistente à seca.
E é precisamente aqui que o CostaTerra deixa de ser apenas uma irresistível comédia sobre ricos para se transformar numa imagem bastante exata do nosso tempo.
Num mundo onde as desigualdades se tornam cada vez mais obscenas e, sobretudo, mais visíveis, a classe verdadeiramente global já não compra apenas casas. Compra segurança, silêncio, paisagem, tempo, anonimato, acesso, serviços e a sensação suprema de que o mundo exterior deixou de existir. Shangri-La era uma utopia criada para preservar a civilização. O CostaTerra talvez seja a versão do século XXI: preservar uma determinada civilização do incómodo de ter de olhar para a outra.
O grande filme de Melides já está, portanto, em rodagem. Tem estrelas, cenários, figurantes, catering ilimitado, orçamento de blockbuster e até trailer. Só falta decidir o género. Para quem está lá dentro, romance idílico. Para quem olha de fora, comédia de costumes. Para os moradores do campismo e para quem tenta simplesmente chegar à praia, drama social. E, para o resto de nós, espectadores deste admirável mundo novo, ficção científica: a história de pessoas tão ricas que, para regressarem à vida simples, tiveram primeiro de construir uma realidade inteira que as protegesse da realidade.
Slavoj Žižek foi buscar uma frase a Morpheus, em The Matrix, e transformou-a no título de um dos seus livros. Depois de tanta Terra do Nunca, tanto Shangri-La, tanta natureza cuidadosamente servida e tanta realidade mantida à distância por vedações, drones e cartões de membro, basta olhar para o outro lado do portão: “Bem-vindos ao deserto do real”.
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