Primeiro foram os fins-de-semana na Comporta, depois a semana branca na neve, a peregrinação a Santiago de Compostela com ténis de 280 euros e mochila ultraleve comprada para transportar uma escova de dentes. Agora chegou a fase superior da evolução do “betinho português”: subir o Kilimanjaro. Já não basta o almoço no Sublime, o chapéu de palha amarrotado e a fotografia descalço junto ao arrozal. Isso já qualquer administrador não-executivo consegue. O novo luxo é sofrer. Mas sofrer longe, de preferência a 5.895 metros, com um guia tanzaniano, seis camadas de roupa e bateria suficiente para provar no Instagram que esteve onde quase ninguém do grupo de WhatsApp esteve.
O Kilimanjaro tornou-se uma espécie de Comporta vertical. A praia foi substituída pela altitude, a caipirinha pelo chá quente, a espreguiçadeira pelos bastões de trekking e o sunset pelo nascer do sol em Uhuru Peak. Mantém-se o essencial: a fotografia. Antigamente, o betinho ia de férias para descansar. Hoje vai para poder contar que não descansou absolutamente nada. “Fui ao Kilimanjaro” significa qualquer coisa entre “venci os meus limites”, “reencontrei-me”, “saí da zona de conforto” e “por favor perguntem-me quanto custou”.
Não há nada de ridículo em subir uma montanha. Ridículo é transformar uma montanha numa pós-graduação em autoestima. O Kilimanjaro, património mundial da UNESCO e ponto mais alto de África, não exige técnicas de alpinismo comparáveis às do Evereste, mas continua a ser uma ascensão exigente, em altitude séria, com risco de mal de montanha e temperaturas muito abaixo de zero. É a combinação perfeita para a nossa época: parece perigosíssimo nas fotografias, mas pode ser organizado por uma agência com guia, cozinheiro, carregadores e itinerário. É O Lado Selvagem (2007), de Sean Penn, mas com assistência em terra.
A moda encaixa maravilhosamente na transformação contemporânea do luxo. O rico de antigamente mostrava o relógio. O de agora mostra a resistência cardiovascular. Antes comprava-se um Porsche; agora compra-se uma experiência “transformadora”. Maratona de Nova Iorque, retiro em Bali, Caminho de Santiago, banho gelado, triatlo, Kilimanjaro. A vida moderna inventou o paradoxo perfeito: pagar uma pequena fortuna para viver durante uma semana como alguém que perdeu a casa, o aquecimento e o oxigénio.
E depois há o vocabulário. Ninguém sobe simplesmente a montanha. “Faz uma jornada”. “Enfrenta os demónios”. “Reconecta-se com o essencial”. “Sai da sua zona de conforto”. Aos 4.600 metros, com falta de ar e um casaco que faz parecer toda a gente figurante de Evereste (2015), de Baltasar Kormákur, a descoberta acaba por ser bastante simples: somos mamíferos e precisamos de oxigénio. O conselho suaíli é pole pole, devagar, devagar. Filosofia admirável, sobretudo para gente que passou vinte anos da vida profissional a dizer “manda-me isso para ontem”.
O cinema percebeu há muito que as montanhas são óptimas para tornar os homens pequenos e os problemas grandes. Em As Neves do Kilimanjaro (1952), de Henry King, inspirado em Ernest Hemingway — que ao que se saiba nunca lá pôs os pés —, Gregory Peck tinha Ava Gardner, Susan Hayward, memórias, culpas e uma montanha. Hoje bastam um Garmin, uma GoPro, um casamento ligeiramente cansado ou uma solidão mal assumida. Em Evereste (2015), de Baltasar Kormákur, a natureza recorda brutalmente que não lê currículos, desconhece apelidos de família e não respeita cartões Platinum. E há sempre Assalto Infernal (1993), de Renny Harlin, para aqueles que, depois de duas aulas de crossfit, começam a olhar para Stallone como se fossem colegas de profissão. O Kilimanjaro oferece ainda uma enorme vantagem cinematográfica: o cenário é tão bom que dispensa argumento. A selfie faz o resto.
Convém, porém, dizer aquilo que quase nunca cabe no enquadramento. Ninguém chega lá sozinho. A epopeia individual é, na realidade, uma produção coletiva. Guias, cozinheiros e carregadores transportam tendas, comida e equipamento montanha acima enquanto o aventureiro ocidental transporta sobretudo a narrativa da sua própria superação. A fotografia final costuma ter uma pessoa ao centro, sorridente, braços no ar, como se tivesse descoberto a nascente do Nilo, mas a subida foi feita por uma pequena aldeia logística. É o velho truque do capitalismo aplicado ao montanhismo: privatizar o heroísmo e socializar o peso da mochila.
E entretanto Portugal tem ali o Pico, nos Açores, com 2.351 metros, suficientemente alto para descobrir se as pernas concordam com a biografia que estamos a escrever para o Instagram. Mas o Pico sofre de uma deficiência gravíssima: fica em Portugal. “Subi o Pico” merece um “que giro”. “Subi o Kilimanjaro” obriga a mesa inteira a pousar os talheres. Além disso, ir aos Açores descobrir que afinal odiamos montanhas é financeiramente sensato. E sensatez nunca foi o principal combustível das modas.
Esta febre diz, no fundo, menos sobre montanhismo do que sobre a necessidade contemporânea de transformar tudo em prova. Já não basta viajar: é preciso conquistar. Já não basta envelhecer: é preciso “desafiar os limites”. Já não basta estar bem: é preciso demonstrar que se está extraordinariamente bem a 5.895 metros. E se possível antes que o vizinho, o colega do escritório ou aquele casal insuportável que já fez Machu Picchu, num pacote turístico de agência de viagens, publique a fotografia primeiro.
Há evidentemente quem suba o Kilimanjaro por paixão genuína, treine durante meses, respeite a montanha, os guias e os carregadores e regresse realmente transformado. Não é desses que falo. Falo daquilo em que conseguimos transformar todas as coisas belas assim que descobrimos que conferem estatuto: uma moda, um uniforme, uma tribo e finalmente um pack premium. A aventura transformada em acessório de classe.
Ontem era a Comporta. Hoje é o Kilimanjaro. Amanhã talvez seja a Antártida, desde que haja Wi-Fi, catering sem glúten e alguém que leve as malas.
A humanidade, afinal, não mudou assim tanto. Continuamos a subir montanhas porque elas estão lá. Só acrescentámos uma razão muito século XXI: porque os outros também estão no Instagram.
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