Imagine uma manhã perfeitamente normal de trabalho. Tem um email importante para responder, mas não encontra as palavras certas. Copia a mensagem para uma ferramenta de Inteligência Artificial e pede ajuda. Em segundos, recebe uma resposta bem estruturada, faz duas ou três alterações e envia.
Pouco depois, chega um documento extenso. Em vez de perder meia hora a lê-lo, coloca-o na mesma ferramenta e pede um resumo. Mais tarde, precisa de analisar alguns dados, preparar uma apresentação ou melhorar um relatório. A Inteligência Artificial volta a ajudar.
No final do dia poupou tempo, trabalhou melhor e provavelmente produziu mais. Parece difícil encontrar um problema neste cenário. Aliás parece tudo o que a ficção científica promete desde há décadas.
Há, no entanto, uma questão que talvez tenha ficado por colocar: a empresa sabe que está a utilizar essa ferramenta?
É precisamente aqui que surge o conceito de Shadow AI, expressão utilizada para descrever a utilização de ferramentas e sistemas de Inteligência Artificial no contexto profissional sem o conhecimento, aprovação ou controlo da organização.
Olhando para o nome, este pode parecer demasiado técnico para algo que, na realidade, é bastante simples. Um colaborador descobre uma ferramenta que facilita o seu trabalho e começa a utilizá-la. Atenção, não existe necessariamente uma intenção de contornar regras ou colocar a empresa em risco. Existe uma necessidade, uma solução disponível e a vontade perfeitamente legítima de trabalhar melhor ou mais depressa.
O problema, esse, começa quando, juntamente com as perguntas, começamos também a entregar informação.
Um email de um cliente. Um contrato. Um relatório interno. Dados financeiros. Informação comercial. Código de uma aplicação. Uma folha de cálculo com nomes, contactos ou outros dados pessoais. Isoladamente, cada utilização pode parecer inofensiva, no entanto aquilo que copiamos para uma ferramenta externa não deixa de ser informação da empresa apenas porque utilizámos o conhecido copiar e colar.
E talvez esteja aqui uma das maiores mudanças provocadas pela Inteligência Artificial no local de trabalho. Durante anos fomos ensinados a desconfiar de anexos, pendrives, websites desconhecidos ou aplicações não autorizadas. Agora, a informação pode simplesmente sair da organização através de uma caixa de texto. E o mais curioso? Nem sequer foi roubada. Foi entregue.
Urge não olhar para a Shadow AI apenas como um problema tecnológico, o que seria manifestamente um erro. A tecnologia é somente uma parte da equação. A outra, provavelmente a mais importante, está no comportamento de quem a utiliza.
Quando uma ferramenta nos pode poupar, por exemplo, vinte minutos numa tarefa, é natural que voltemos a utilizá-la. Se funciona uma segunda vez, rapidamente passa a fazer parte da rotina. Depois de algumas semanas, já nem pensamos sobre isso. Abrimos, copiamos, perguntamos e continuamos a trabalhar.
Ligámos o piloto automático, e é nesse momento que surge uma diferença interessante de perspetiva: a empresa vê um risco; o trabalhador vê uma ferramenta que lhe poupa tempo. E ambos podem ter razão.
A resposta, por isso, dificilmente passará simplesmente por proibir a utilização da Inteligência Artificial na empresa. Uma proibição pode impedir a utilização visível, mas não garante que os colaboradores deixem de recorrer às ferramentas que já perceberam que lhes facilitam o trabalho. Em alguns casos, pode acontecer precisamente o contrário: a utilização continua, apenas deixa de ser conhecida pela organização.
Aquilo que não conhecemos dificilmente conseguimos proteger. Nesse sentido talvez seja mais útil começar por estabelecer regras claras. Que ferramentas podem ser utilizadas? Que tipo de informação pode ser introduzida? Que dados nunca devem sair dos sistemas da organização? O que deve fazer um trabalhador quando tem dúvidas?
São perguntas simples, mas precisam de respostas igualmente simples. Do lado de quem utiliza estas ferramentas, há também uma pergunta que deveria surgir antes do próximo Enter: posso realmente partilhar esta informação?
Se contém dados pessoais, informação de clientes, documentos internos, propriedade intelectual ou qualquer conteúdo que não colocaríamos deliberadamente num serviço externo, talvez seja boa ideia parar antes de copiar.
Não precisamos de transformar cada utilização da Inteligência Artificial num problema de cibersegurança. Muito menos devemos travar uma tecnologia com enorme potencial para melhorar a forma como trabalhamos. Precisamos, isso sim, de aprender a utilizá-la com consciência.
A Inteligência Artificial entrou nas empresas com mais celeridade do que a respostas destas em criar regras para a sua utilização. E, quando existe um vazio entre aquilo que a tecnologia permite fazer e aquilo que as pessoas sabem que devem fazer, o comportamento acaba inevitavelmente por preencher esse espaço. O Shadow AI é também resultado desse vazio.
Por isso, talvez o verdadeiro desafio não seja descobrir quantas ferramentas de Inteligência Artificial estão a ser utilizadas dentro de uma empresa. É garantir que as pessoas sabem onde termina a conveniência e começa o risco. Porque o problema não é perguntar à Inteligência Artificial. É esquecermo-nos de pensar no que lhe estamos a contar.
Segurança não é técnica. É humana.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.