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Lisboa já teve eclipse, canícula e as praias dos arredores cheias. Faltava-lhe uma piscina. Chega esta quinta-feira, 20 de agosto, ao Cinema Ideal e vem diretamente de 1969, quando Alain Delon podia passar metade de um filme em calções de banho, Romy Schneider transformava um vestido num acontecimento, Maurice Ronet fazia da arrogância uma forma de elegância e Jane Birkin parecia saída da Swinging London. Tanta perfeição física junta talvez devesse trazer aviso médico: não olhar diretamente durante demasiado tempo. A reposição lisboeta está marcada para dia 20 e a própria promoção não resiste à comparação entre tanta beleza e os perigos de olhar para um eclipse.
Mas A Piscina não dura há mais de meio século porque os protagonistas são bonitos. Dura porque percebe que a beleza é uma excelente maneira de esconder o perigo. Jean-Paul (Alain Delon) e Marianne (Romy Schneider) passam férias numa villa emprestada perto de Saint-Tropez. Amam-se, nadam, fazem amor, apanham sol e parecem ter resolvido o problema da existência. Depois chega Harry (Maurice Ronet), velho amigo de Jean-Paul e antigo amante de Marianne, acompanhado pela filha de 18 anos, Pénélope (Jane Birkin). A partir daí, a temperatura sobe sem que o termómetro mexa.
O paraíso é uma armadilha com água azul
O argumento — adaptado por Deray e Jean-Claude Carrière a partir de uma história de Jean-Emmanuel Conil — é de uma simplicidade quase insolente. Quatro pessoas, uma casa, uma piscina, um passado mal arrumado e demasiado tempo livre. O ciúme não precisa de grandes conversas; precisa de pausas, copos, olhares e pequenas humilhações servidas com gelo. Deray pediu, aliás, a Carrière que reduzisse diálogo e descrição ao mínimo. Em cinema, felizmente, também se pode assassinar alguém com um silêncio.
A piscina é o centro geométrico e moral do filme. De dia, reflete corpos bronzeados e uma ideia publicitária de felicidade. À noite, torna-se negra. O que era lazer passa a ameaça. O que era erotismo passa a crime. A água, tão limpa, guarda a parte mais suja da história. Deray filma-a como um espelho narcísico: toda a gente olha para os outros, mas ninguém consegue deixar de se olhar a si próprio.
Jean-Paul é um escritor falhado refugiado na publicidade, ferido no orgulho diante do sucesso de Harry. Este chega com dinheiro, mulheres, música, autoconfiança e um Maserati Ghibli vermelho que não é propriamente um carro: é uma provocação com motor. A rivalidade entre os dois homens já estava escrita nos rostos de Delon e Ronet desde À Luz do Sol (Plein Soleil), o Tom Ripley de René Clément, nove anos antes. Outra vez o sol, dois homens que se tratam por amigos e se medem como inimigos, e a água à espera. Até nisso A Piscina parece um primo mais lânguido, sexual e venenoso do que Plein Soleil.
E depois há Romy Schneider
A verdadeira razão pela qual o filme continua vivo chama-se, talvez, Romy Schneider. Delon e Schneider tinham sido um dos casais mais célebres da Europa, estavam recém-separados quando rodaram A Piscina e foi o próprio Delon quem insistiu na escolha da antiga companheira para Marianne. Isso nota-se. Entre ambos existe uma memória física impossível de fabricar. Sabem tocar-se, provocar-se e afastar-se com a naturalidade de quem já conheceu o corpo e o pior um do outro.
Deray abre o filme oferecendo-nos aquilo que pensamos querer: Delon e Schneider quase nus, enamorados, belíssimos, isolados do mundo. Depois passa duas horas a destruir essa imagem. Romy começa por parecer parte da decoração sensual e acaba por tomar conta do filme. Marianne observa, sofre, percebe e escolhe. Delon tem o gesto decisivo; Schneider fica com a tragédia. E talvez seja precisamente por isso que A Piscina fez por Romy aquilo que Sissi (1955), do realizador austríaco Ernst Marischka jamais poderia fazer: libertou-a definitivamente da princesa e mostrou uma mulher adulta, sensual, inquieta e perigosamente consciente.
Jane Birkin, então com 22 anos, entra como Pénélope e introduz outra energia. Não possui a sexualidade adulta de Marianne; tem uma sensualidade distraída que os outros transformam em arma. Percebe que os adultos à sua volta são crianças com mais dinheiro, mais álcool e melhores carros. Observa e deixa-se usar até compreender que também ela está dentro do jogo. Era o seu primeiro filme francês e, nesse mesmo 1969, a sua voz e os suspiros de Je t’aime… moi non plus (1976), com Serge Gainsbourg, tratariam de acabar com o pouco sossego que ainda restava à Europa.
E os bastidores também não eram propriamente uma colónia de férias. A rodagem, no final do verão de 1968, coincidiu com o rebentar do caso Markovic, desencadeado pelo assassínio de Stevan Markovic, antigo guarda-costas e próximo de Delon, escândalo que misturou imprensa, polícia, sexo, poder e suspeitas políticas. Um thriller real a decorrer enquanto Deray filmava um thriller sobre desejo, crime e mentira. Nem o argumentista teria tido coragem de exagerar tanto.
Vestidos, óculos e um Maserati: o crime veste bem
A Piscina também é um filme sobre roupa e sobre a forma como vamos vestindo mais coisas à medida que temos mais para esconder. O guarda-roupa inclui peças de André Courrèges e tornou-se um manual involuntário do chic mediterrânico. Romy usa vestidos que revelam sem mostrar; Birkin traz mini-vestidos, ganga e aquela aparente negligência que exige normalmente bastante trabalho; Delon prova que uma camisa aberta, uns jeans e um bronzeado podem constituir uma teoria completa do vestuário masculino. E o mais inteligente é que, à medida que o filme escurece moralmente, os corpos se vão cobrindo. O vestuário deixa de seduzir e começa a esconder.
Até os acessórios ganharam posteridade. Os Vuarnet 006 de Delon tornaram-se um ícone e, mais de meio século depois, o mesmo modelo seria escolhido por Daniel Craig em Sem Tempo Para Morrer (No Time to Die). Poucos pares de óculos podem gabar-se de ter passado de Alain Delon para James Bond sem precisar de atualizar o currículo.
Harry (Maurice Ronet) conduz o Maserati Ghibli como se fosse uma extensão do ego: vermelho, caro, vistoso e incapaz de passar despercebido. O carro mede estatuto, a roupa mede desejo, os óculos permitem olhar sem ser apanhado a olhar. Nesta casa, até os objetos têm problemas psicológicos.
A fotografia de Jean-Jacques Tarbès faz o resto: luz mediterrânica, vegetação, peles queimadas pelo sol, interiores onde o ar parece deixar de circular. E Michel Legrand compõe uma banda sonora que não sublinha a tensão: infiltra-a. Run, Brother Rabbit, Run, ouvido quando Harry invade musicalmente a casa, soa a aviso que ninguém escuta. A música, como o próprio Harry, chega ruidosa demais a um lugar onde o silêncio já estava cheio de coisas por dizer. Os créditos de Tarbès e Legrand estão entre os elementos essenciais dessa construção sensorial.
Rodado na Côte d’Azur, na zona de Ramatuelle e Saint-Tropez, poucos meses depois de Maio de 68, A Piscina parece quase provocatoriamente indiferente ao mundo político que acabara de arder em França. Enquanto outros queriam mudar a sociedade, estes quatro só querem dominar-se uns aos outros. Talvez por isso envelheça tão bem: revoluções passam, o ciúme não. E Deray, que nunca teve o estatuto de autor sagrado concedido a tantos contemporâneos da Nouvelle Vague, beneficia hoje dessa aparente modéstia. Aqui interessa menos mostrar o realizador do que apertar o parafuso.
O filme começa como fantasia de férias, transforma-se em drama erótico, desliza para thriller psicológico e acaba quase policial, com o inspector Lévêque, interpretado por Paul Crauchet, a trazer para aquele Éden uma coisa bastante desagradável chamada realidade. O sol continua a brilhar, mas já ninguém consegue aquecer-se.
A Piscina é cinema de verão para quem já percebeu que o verão também pode ser sinistro. Um filme perfeito antes da praia, depois da praia ou, para os que não suportam areia nos pés, em vez da praia. Tem sol, corpos, desejo, música, moda, um Maserati e água suficiente para refrescar Lisboa. Só não convém entrar nela.
Porque a superfície continua lindíssima. O problema, como sempre, é o que está por baixo.