O “processo de modernização” das Forças Armadas deverá estar concluído em 2035, e em 2049 – o ano do primeiro centenário da República Popular – a China estará “a par” dos EUA, indicou o analista militar Zhou Bo numa entrevista publicada este mês em Hong Kong. É um calendário mais dilatado do que os apertados ciclos eleitorais de Washington e uma ambição mais contida. O objetivo assumido pela liderança chinesa é ficar “a par” dos EUA e não à sua frente ou ser “os melhores”, como os Presidentes norte-americanos gostam de proclamar acerca dos seus militares.
As duas superpotências da atualidade estão destinadas à guerra? Em 2010, quando a China se tornou a segunda maior economia do planeta, outro conhecido analista militar, o coronel Liu Mingfu, escreveu que “a competição sino-americana não será outra Guerra Fria”. A explicação era simples: “A China não é um promotor de uma revolução global, como a antiga União Soviética, nem um exportador de democracia ao estilo americano.” Segundo o historiador Wang Gungwu, da Universidade Nacional de Singapura, “os chineses acreditam que nunca beneficiarão numa luta contra os americanos” e querem sobretudo “estar seguros contra qualquer agressão vinda dos oceanos”. O mesmo académico sustenta que “EUA e China concordarão em não travar uma guerra por causa de Taiwan”. “O que Pequim quer”, afirmou na semana passada, “é estar certo de que Taiwan não será usado pelos seus inimigos para qualquer ataque à China”.
A China tem as maiores Forças Armadas do mundo, com cerca de dois milhões de efetivos. Em 2012, contava apenas com um porta-aviões: hoje tem três e estará a construir um quarto (os EUA têm 11). Em número de navios, a sua Marinha já suplanta a dos EUA. Ao longo da última década, o orçamento chinês para a Defesa aumentou em média 7% ao ano. Mesmo assim, continua a ser um terço do norte-americano. No último meio século, os EUA estiveram frequentemente envolvidos em guerras e intervenções militares em vários países e continentes, desde a antiga Jugoslávia ao Irão. Quanto à China, a última vez que entrou em guerra fora das suas fronteiras foi em fevereiro de 1979, quando invadiu o vizinho Vietname. Excetuando esporádicos confrontos no mar do Sul da China, nos anos 80, há mais de um século que não trava uma guerra naval. A última foi com o Japão, em 1894, que acabou com a anexação nipónica da ilha de Taiwan.
Na referida entrevista, publicada no jornal South China Morning Post, Zhou Bo concordou que a falta de experiência bélica dos militares chineses “é um dilema”: “Não se pode saber se uma espada está afiada antes de a usarmos”, disse, mas “não se deve tirar a conclusão errada de que o Exército Popular de Libertação [o nome oficial das Forças Armadas chinesas] não é capaz de lutar”.
Mais de 30 generais, entre os quais dois vice-presidentes da Comissão Militar Central e dois antigos ministros da Defesa, foram afastados por corrupção durante os últimos cinco anos. “Isso demonstra que estamos a tentar limpar a organização”, justificou Zhou Bo. “Estes esforços anticorrupção são saudáveis e poderão tornar o EPL mais efetivo.”
Coronel reformado da Força Aérea, Zhou Bo, 63 anos, é investigador do Centro de Segurança Internacional e Estratégia da Tsinghua, uma das mais prestigiadas universidades chinesas. Num livro, publicado no ano passado, com o título Deve o Mundo Recear a China?, contesta que haja “uma ordem internacional liberal” ou um “combate entre democracia e autocracia”: “Isso não passa de uma estratégia americana para gerar alianças numa altura em que a primazia da América parece abalada.” O mesmo analista demarca-se da insistência do Partido Comunista Chinês em evocar o “século de humilhação nacional” iniciado com a Guerra do Ópio (1839-1842), e que transformou o seu país num “Estado semicolonizado e semifeudal”: “Mais do que uma vítima, a China faz hoje a inveja do mundo. Deve deixar o passado para trás e abraçar a sua força.” Zhou Bo considera que “a vitimização não é fundamento para o patriotismo”. Pelo contrário: “A vitimização conduz ao nacionalismo, ao populismo e ao isolacionismo, e isso é a última coisa de que a China precisa.”
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