Dizem por aí...
Dizem por aí ... que há lições dentro de uma lancheira
A minha lição começava no mercado, passava pelas escolhas que a minha avó me deixava fazer e seguia comigo para a escola. Só mais tarde percebi que aprender a comer bem começa na liberdade de escolher, na curiosidade de provar e no exemplo de todos os que acompanham uma criança à mesa
Dizem por aí... que ser ou não ser, eis a questão
A farinheira vegetal não é farinheira de carne, tal como os cogumelos não são vieiras. Ainda assim, podem entrar numa feijoca, em favas ou num prato que faz parte das nossas memórias. Ser ou não ser: eis a questão que estes nomes deixam em suspenso. Dizem-nos o que estes produtos não são e ajudam-nos a imaginar aquilo que podem vir a ser à mesa
Dizem por aí ... que estamos a ser invadidos por norte-americanos
O risco começa quando mudamos tanto a mesa para agradar a quem vem que acabamos por lhe retirar precisamente aquilo que o trouxe até cá. A verdadeira ameaça não é a presença de norte-americanos. É, isso sim, a nossa eventual vontade de os imitarmos sem critério
Dizem por aí… que um país também se serve a bordo
Uma companhia aérea não transporta apenas passageiros. Transporta uma ideia do país que representa. A dez mil metros de altitude, cada refeição pode ser uma declaração de identidade. E, quando isso acontece, um país também se serve a bordo
Dizem por aí... que há cafés onde cabem cidades inteiras
Há cafés que se bebem, outros acordam. Era escuro, encorpado e profundamente aromático, com notas de chocolate negro e avelã torrada. A crema espessa trazia uma doçura subtil de caramelo. Daqueles cafés que dispensam açúcar. O único defeito foi a minha escolha. Devia ter pedido um cheio
Dizem por aí... Que a felicidade sabe a gelado
Há uma gastronomia de praia que raramente aparece nos livros de cozinha, mas faz parte da nossa memória coletiva. Há sabores que pertencem a uma estação. Como as sardinhas em junho ou as castanhas no outono, o gelado continua a saber a verão
Dizem por aí... Que um ucraniano me explicou Portugal
Aquilo não é apenas um restaurante. É quase um arquivo vivo da nossa identidade gastronómica. O menu é um mapa sentimental do País: percebes, lingueirão, amêijoas à Bulhão Pato, lulinhas fritas, alheira de caça, farinheira grelhada, pica-pau de porco preto, cabrito assado