Éramos 12. Dez tinham vindo dos Estados Unidos, de estados como Michigan, Virgínia e Nova Iorque. Havia ainda uma brasileira de Minas Gerais. A décima segunda era eu, a única portuguesa. Estávamos em Lisboa para aprender a fazer aquele que é o doce português mais internacional.
Olhei à minha volta e pensei que aquela sala era, por si só, uma boa notícia. Ao longo dos últimos anos, encontrei pastéis de nata em aeroportos europeus, em montras de Sydney, nas ruas de Xangai, no Rio de Janeiro e até em Doha. Poucos doces portugueses viajaram tão longe. Em muitos lugares chamam-lhe portuguese custard tart; noutros, simplesmente pastel de nata. O nome pode mudar, mas a origem continua lá: Portugal.
A aula começou. A professora apresentou-se como “metade alemã, metade portuguesa”. Registei o detalhe sem lhe dar importância. Só mais tarde percebi: o que me tinha surpreendido não era a sua identidade, mas aquilo que faltou. Durante duas horas, falou-se de massa folhada, de creme, de temperaturas e de tempos de cozedura. Mas praticamente nada da história do pastel de nata. Nenhuma referência à tradição conventual, à sua ligação ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, ou à forma como aquele doce atravessou séculos até se tornar um dos maiores embaixadores da gastronomia portuguesa.

Achei estranho. Não porque todos tenham obrigação de conhecer essa história ao detalhe. Mas porque ensinar uma receita também é transmitir a cultura que lhe deu origem. Uma receita nunca é apenas uma receita. É memória. É identidade. Houve outro detalhe que me fez pensar. A experiência era apresentada como hands-on, que no bom português se traduz por “mão na massa”. Na prática, trabalhámos em dupla e dividimos a execução da receita. Dividíamos a massa, as tarefas e, inevitavelmente, parte da aprendizagem.
Ao longo dos anos, tive oportunidade de acompanhar diferentes modelos de ensino de cozinha e há um princípio que nunca vi ser posto em causa: a aprendizagem de uma técnica exige repetição, execução individual e erro. Só assim uma receita deixa de ser uma sequência de gestos para passar a ser conhecimento. No fim, brinquei e perguntei se o certificado também seria dividido. Toda a gente riu.
Mas a pergunta escondia outra: até que ponto aprendemos realmente quando fazemos apenas metade do caminho? Enquanto traduzia as explicações para a participante que não falava inglês, ocorreu-me uma ironia. Estávamos em Lisboa, a aprender a fazer o doce mais icónico de Portugal, numa aula dada em inglês, para uma sala quase inteiramente estrangeira. E, no entanto, aquilo que mais faltava era precisamente Portugal. Não a receita. A história.

Foi então que me lembrei de algumas das cidades onde encontrei pastéis de nata. Em Xangai, reconhecível na aparência, mas distante na receita. Em Sydney, tradicional, mas servido com pompa numa galeria do Queen Victoria Building. No Rio de Janeiro, “portugando” em versões Romeu e Julieta, pistácio e caramelo salgado. Em Londres, deu origem a uma marca que já chegou até Doha. Em quase todos esses lugares senti a mesma ausência: conhecia-se o doce, mas não a história. Sempre achei natural. Afinal, estavam do outro lado do mundo.
O que nunca imaginei foi encontrar exatamente o mesmo silêncio em Lisboa. O verdadeiro desafio nunca foi exportar o pastel de nata. Isso já conseguimos. O verdadeiro desafio é exportar a história que o fez nascer. Quando um produto viaja sem história, é apenas um produto. Quando viaja com identidade, transforma-se em património. O pastel de nata conquistou o mundo. Agora cabe-nos garantir que a sua história viaja com ele.
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