Camila Sosa Villada, 44 anos, é um fenómeno entre a nova literatura que chega da América Latina. Muitas vezes inserida dentro do género realismo mágico, associado aos autores da América do Sul, a escritora e atriz argentina rejeita completamente esse rótulo e reage efusivamente a essa gaveta onde querem encaixá-la. A conversa com Camila é, aliás, pontuada por uma variedade de intensas emoções, que vão de uma gargalhada contagiante à mais emocionada nostalgia, quando fala dos seus pais. A Viagem Inútil, escrita em 2018, é uma breve memória sobre a sua origem, o crescimento em pequenas cidades e a descoberta da leitura e da escrita, pela mão do pai – a escrita – e da mãe – a leitura.
“A primeira coisa que escrevo na vida é o meu nome masculino”, diz Camila na primeira página deste livro. Um corpo masculino rejeitado desde criança transfigurando-se através das primeiras palavras, como escreve: “O meu primeiro ato de travestismo foi através da escrita.” Mas as suas primeiras palavras na ficção foram de amor. La Novia de Sandro, a sua primeira obra, é um livro de poesia escrito para um ex-namorado e que levava o nome do seu blogue de escrita. O travestismo corporal foi assumido primeiro em casa, depois, aos 13 anos, nas ruas da pequena cidade de cinco mil habitantes onde vivia.
Reconhece que hoje teria escrito com outra consciência, depois de conhecer melhor a história dos corpos travestis e trans na América do Sul. Uma história que une o mítico ao real e que criava pontes entre o sobrenatural e o humano. A Viagem Inútil está cheia de frases que ajudam a definir este retrato literário de uma mulher trans que foi prostituta, se transformou em atriz e, mais tarde, numa escritora que escreve a partir da dor. Evocando Alice Blanchard, “se sofre pela sua escrita, não se esqueça de escrever sobre o seu sofrimento”, Camila Sosa Villada escreve, usando o sofrimento como matéria-prima, recordando, porque é essa a literatura que faz sentido para ela. “Todas as recordações esperam ser escritas.”

Um ensaio autobiográfico de uma mulher trans, num país onde, até 2012, as pessoas trans tinham a sua circulação condicionada. Nascida em La Falda, pequena cidade argentina, em 1984, Camila descobriu a escrita ao colo do pai, com 4 anos, quando começou a escrever as primeiras palavras. Primeiro, o nome com que foi batizada, Cristian Omar Sosa Villada; depois, todo o abecedário; a seguir, os números. “Ensinar-me a escrever é o gesto de amor que o meu pai tem para mim”, escreve. A leitura foi-lhe trazida pela mãe, que lhe oferecia livros infantis, e que acabaram por separar as duas, quando Camila começa por procurar a fruição da solidão nesses momentos de leitura. Sozinhas grande parte do tempo, Camila vai percebendo aos poucos a tristeza que segue a mãe: uma mulher jovem sozinha com um filho, longe de um pai que divide o tempo com outra mulher. É neste conjunto – escrita e tristeza – que Camila vai encontrando o seu caminho: a descoberta de uma identidade não condizente com o corpo com que nasce, o travestismo, primeiro em casa, e, mais tarde, já nas ruas de uma das cidades onde cresce. A escrita era um percurso pouco natural para quem crescia num mundo rural e pobre, mas a leitura e a escrita chegam como pontos de fuga numa história já de si contrária a tudo. A Viagem Inútil é um livro duro, mas nunca triste. Não há pena, nem vitimização, e tudo nos é apresentado como uma história perfeitamente comum em qualquer lado do mundo: uma mãe, mais solteira do que acompanhada, a tentar criar sozinha um filho que se evade do seu mundo através de uma imaginação fértil, como a de qualquer criança, mais acentuada pela leitura. Sem nunca nos contar demasiado – por exemplo, nunca sabemos como Camila se torna prostituta nem como decide tornar-se atriz –, tudo acontece, no entanto, numa cadência que nunca nos faz questionar estas faltas. Tudo o que lhe acontece é-nos apresentado através da escrita: a solidão em criança e jovem; a forma como conta aos pais o seu sofrimento por não se identificar com o corpo que tem; as primeiras palavras num blogue, La Novia de Sandro, que a levam a descobrir o amor; o primeiro livro de poesia que leva o nome do blogue; a primeira peça que a faz deixar a prostituição para ser atriz; a determinação dos corpos trans. A escrita é a sua linguagem para o mundo. E por isso faz tanto sentido a frase “que tudo isto que escrevo não é mais do que um ato de amor dirigido a mim”. A Viagem Inútil não é apenas um livro de memórias, é uma obra de descoberta para alguém a quem só foi possível ser porque a escrita lhe deu as palavras para mentir e para contar a verdade. Quetzal, €14,40
Escreve no seu livro: “Com a chegada da leitura e da escrita, também chegou o talento para mentir.”
Há algo na capacidade de mentir com inocência que eu não tinha, que não me foi dado, enquanto criança. Porque a escrita não é ingénua, é mais poderosa do que eu, mas não deixa de ser o retiro da inocência, o retiro total da ingenuidade. Pode-se escrever livros ingenuamente, claro, mas não quer dizer que seja literatura.
O seu primeiro livro era de poemas, escrito por amor. Não havia ingenuidade?
Não, o amor é das coisas menos ingénuas que existem.
Porque diz isso?
Porque o amor é todo um dispositivo de comunicação, um dispositivo de propaganda para dominar as mulheres, sobretudo.
Esse não é o amor romântico?
Não, qualquer amor. Basta lembrar Carson McCullers: “O amado odeia o amante porque o amante só quer ficar com a sua alma.” É um afeto muito egoísta, não podes dar a ninguém o teu amor, nem sequer à pessoa que amas, só queres ficar com ela, satisfazer o teu desejo de amar, que o teu corpo tenha o outro, que o teu toque tenha o outro, que o nariz, as tuas mãos tenham o outro. E a literatura é igual. Sim, pode ter alguma ingenuidade, parece que cada livro começa com uma ingenuidade, mas conforme vais escrevendo, vais-te dando conta de que mudas de voz, de que és dominada pela história. Como ofício, não é nada inocente. É uma forma de dominação, de conquista de um território que deveria permanecer livre, que é o espaço do leitor.
Mas entende que o ato de escrever não é completamente livre?
Não é. A escrita que não se publica, sim. Aquela que se mantém nos teus cadernos, na tua gaveta. Mas uma vez publicada, faz parte de um esquema que não dominas.
Quando pus as mamas, andava na rua curvada, saía de casa e encolhia-me. Fui a um osteopata e ele disse-me que o meu corpo estava a proteger uma coisa que era nova para ele. Com a minha literatura passa-se o mesmo, tenho vontade de proteger o que eu crio, que é novo
Que não lhe pertence?
Que te pertence, sim, que continua a ser parte de ti, mas que já não controlas.
Escrever para teatro, onde pode representar, é diferente de escrever livros?
Acho que não. Bernard-Marie Koltés [1948-1989, dramaturgo francês] escreveu uma das minhas peças preferidas – Dans la Solitude des Champs de Coton (1986) –, que é a história entre um traficante de droga e um consumidor, e nunca mencionam o que estão a comprar ou a vender. As respostas de um e outro são monólogos. Todas as obras de Koltés são muito poéticas. Uma das peças que escrevi, Los Ríos del Olvido, para mim, a minha melhor obra de teatro – também sobre narcotraficantes de pouca monta: uma mãe, dois filhos, uma vizinha –, eu tinha acabado de vir de férias da minha cidade, onde ouvia os mais jovens a comunicarem e a falarem entre si e era terrível escutá-los, porque a maior parte da conversa era insultos e todo o conteúdo de uma frase incompreensível finalizava sempre com um “hijo de puta”. Na altura, pensei: “Há alguma mudança na língua que está a escapar-me?” Uma língua que suprime todo o conteúdo de uma frase e só ficam claros os insultos, sejam cínicos ou irónicos, está a sofrer uma mudança por uma pressão exterior. E eu lembro-me de ter tentado escrevê-lo, mas foi impossível. Em teatro seria impossível, porque a palavra está escrita para ser escutada, não como num livro, onde é escrita para ser lida. Em teatro, a palavra é sempre escrita para ser dita, e tens consciência disso quando estás a escrever.
Mas há um momento no livro em que diz que escreve para ser escutada e fala inclusive na obra de Roberto Bolaño, que escrevia como se falasse.
Sim, isso é uma ambição minha, oxalá o consiga.
E é curioso porque diz que os seus pais não falavam de sentimentos, mas trocavam cartas entre eles. E começa por fazer o mesmo para se expressar: a escrever.
Sim, é uma forma de organizar pensamentos. Organiza algo sobre nós, porque é nossa responsabilidade conhecermo-nos. Penso que as pessoas quanto mais tempo têm… podem decifrar-se a si mesmas, saber do que são capazes.
O que sentiu quando descobriu essas cartas, que os seus pais escreviam sobre os seus sentimentos?
Pareceu-me o mais natural do mundo. Lembro-me das cartas que escrevíamos para o meu pai. Houve um momento em que o meu pai se tinha separado da sua amante de toda a vida, da sua outra mulher, e nós estávamos a escrever as nossas cartas, que púnhamos no mesmo envelope, e a minha mãe desenhava nessas cartas, fazia desenhos para ele como gostaria que fosse a sua casa [Camila emociona-se e chora], como ela gostaria que fosse o seu jardim. E o meu pai tinha uma letra ilegível, mas as cartas vinham cheias de promessas. Era a forma como fizeram tudo na vida, sabe? A linguagem daquelas cartas era o mais natural que existia para mim, e eu, até ao dia de hoje, tento comunicar com os meus amantes, com os amores que perdi nesse caminho [emociona-se], por ser escritora, por não querer partilhar o meu tempo com ninguém. A solidão é um bem económico que não se quer partilhar com ninguém. Tento sempre comunicar por carta, mas é cada vez mais complicado porque é um tempo diferente. Como resistir à espera do monólogo do outro?
Tudo é mais rápido, mais impaciente.
Sim, e há uma pressão sobre o espectador, sobre o leitor. Estão todos apressados por um desfecho, ofendem-se se antecipas o final de alguma coisa. Não podemos falar sobre os livros, sobre os filmes, sobre os fins, por causa do alerta “spoiler”, como se o valor de um filme ou de um livro estivesse no final, como se fosse isso que procurássemos. E isto interessa-me muito como escritora, como contadora de histórias, ainda que seja uma história insignificante, ela não vale só pelo final. Como escritora, acho curioso. Nos contos de Borges [Jorge Luis Borges, escritor argentino], ele contava o final no início do livro [Risos].

Há dois momentos em que assume alguma solidão: quando publica o que escreve e quando assume o travestismo. Como foi passar de atos de solidão para fora?
Esses dois momentos foram uma sucessão de coincidências. Mas não estava inteiramente sozinha. Quando me travestia, o meu pai estava no quarto ao lado, a dormir. Uma coisa não tem relação com a outra, o que tem a ver é que certa gramática – não toda, porque muita está sob a influência da gramática ocidental e da gramática heterossexual também – era sobre um tempo de vida que não sabíamos que tínhamos, porque todas nós, mulheres trans, ignorávamos que a nossa idade média de vida era 35 anos. Descobrir isso foi terrível, na fragilidade de uma esquina, imediata e horrível. Nesse momento não tinha ideia de que a morte chegava em média aos 35 anos para uma mulher como eu. Mas havia no ar a sugestão de que toda a palavra não dita era uma palavra que morria connosco e, por isso, os meus tempos verbais têm algo de superação, a minha prática da escrita tem algo de superação. Estou aberta a todos os males do mundo.
Todas nós, mulheres trans, ignorávamos que a nossa idade média de vida era 35 anos. Descobrir isso foi terrível, na fragilidade de uma esquina, imediata e horrível
Por que diz isso, aberta para os males?
Porque de que outra forma se escreve, sem ser assim? Como se escreve tranquila, de porta fechada, se está tudo bem? “Querido diário, hoje esteve tudo bem: cuidei dos meus filhos, brinquei com o meu cão, fiz um carinho ao meu marido, tenho comida e casa, e agora vou contar esta história.” Não! Eu vou escrever com o pior que tenho, e com o melhor também, mas nunca tem a ver com um lugar saudável. Pelo contrário, tem a ver com tudo o que está contaminado. Como uma prática, escrever pode ser um ofício detestável.
E sempre escreve a partir de lembranças, de memórias?
Sim, acredito que sim. Há um livro meu, Soy una Tonta por Quererte [2022, não editado em Portugal], e que tem o único conto autobiográfico que escrevi, linha por linha, que é o momento em que deixo de ser prostituta e começo a trabalhar como atriz. Tudo o mais é igual ao que faz qualquer escritor ou escritora: pegar numa memória, numa imagem, numa conversa que ouviu, colocar-lhe uma roupagem diferente, uma maquilhagem diferente e contar essa história, que pode ser mais ou menos sangrenta, mais ou menos suja. Os seres humanos começam a falar assim que começam a recordar. Todo o sistema da fala se desenvolve a partir da memória. Por isso há esse lugar inútil, essa viagem inútil, que é tentar escrever antes da memória, o que aconteceu antes daquilo de que nos lembramos.
O que pensa sobre o que se diz acerca da literatura, que os homens representam a literatura e que as mulheres representam a literatura feminina?
Agora leio só mulheres, tenho uma biblioteca cheia de livros escritos por mulheres, transexuais também. Considero a literatura escrita por mulheres uma escrita muito mais direta, menos estilizada, e ainda assim tentam catalogá-la. A mim, tentam sempre colocar-me dentro do universo do realismo mágico. Digo-te “el coño por el suelo!”
Crê que é por ser uma autora sul-americana, onde o realismo mágico está tão presente?
Ninguém diria isso de Clarice Lispector. Temos de enterrar a literatura das mulheres, porque é o mesmo que o cinema das mulheres, a pintura das mulheres, o teatro das mulheres. Os homens têm a sua própria voz, individual. As mulheres estão sempre agrupadas. Para nós, chegarmos vivas à noite já é um feito, então escrever sempre foi uma arte perfeita para nós, mulheres. Para nós, travestis, também, porque podes não ter nenhum leitor, mas que importa como o livro está montado, se começa pelo final, pelo início, se a gramática se repete ou não, se há evocativos ou não, se o leitor pode sentir-se ofendido ou não. Nunca fui a um casting para ser atriz, nem andei atrás de editoras para lerem os meus manuscritos. O que me interessava era pôr cá fora as palavras.
Como foi quando publicou o primeiro livro, de poemas, La Novia de Sandro?
Quando o livro saiu, foi muito especial. Foi editado por uma editora muito pequena, Caballo Negro, em Córdoba. Nesse dia, estavam os meus pais, estava o meu ex-namorado, de quem me tinha separado e com quem nunca mais tinha falado, e esse livro é sobre essa separação. Estava a tocar um quarteto de cordas que se chama Magnolia, e em que os músicos me convidaram a cantar com eles. Nunca tinha escutado nada tão requintado, tão bom. Nessa apresentação vendemos cerca de 500 livros, estive a assinar mais de quatro horas. Estava também presente um ex-amante, que foi e ficou horrorizado por me ver de outra forma. Isso aconteceu também com alguns amigos. Mas eu continuo igual, mais bem vestida [Risos], mas continuo igual. Muita gente achou que eu tinha perdido alguma doçura. Mas eu não fiquei amarga por ficar conhecida. Fiquei assim por ver, ao meu lado, pessoas a morrer.
Viu muitas coisas duras, difíceis?
Sim, ainda hoje vejo.
Está um pouco desencantada ou desiludida com o movimento LGBTQ, com o feminismo?
Estou desencantada com aquilo que acreditava que era a identidade.
Mas a Camila não acredita em identidade, mas sim em experiência.
Exatamente. Eu acreditava que podíamos passar por uma revolução. Acreditava que haveria uma forma revolucionária de ver o poder transformador da comunidade, só que isso hoje converteu-se num valor de troca. Aos travestis nunca se deu valor, nunca vamos ser assimilados, mas, ao mesmo tempo, vai ser impossível controlar ou conter criaturas como nós.
Sei defender-me porque aprendi há muitos anos, por sobrevivência, mas há hoje muitos jovens que estão completamente expostos. Sempre que uma trans está sozinha com um homem corre o risco de ser morta
E com tudo o que se passa hoje no mundo, com a direita radical, os primeiros a controlar são os corpos trans.
Sempre. E aquilo que o fascismo traz é sempre muita pobreza e muita intolerância. Se pensarmos no Grindr [aplicação de encontros para gays], há homens a usá-lo para encontrar, violar, roubar e matar os homossexuais. Isto era muito frequente em 2021, durante uma grave crise económica na Argentina, e agora está a acontecer tudo outra vez. Perdemos muito tempo a pensar se dizemos bem o nosso pronome ou não, em vez de aprendermos a defender-nos. Eu sei defender-me porque aprendi há muitos anos, noutras épocas, em que tive de o fazer por sobrevivência, mas há hoje muitos jovens que estão completamente expostos a esse perigo. Sempre que uma trans está sozinha com um homem, corre o risco de ser morta. Temos de aprender a defender-nos. Em 1994, eu era uma travesti numa aldeia de cinco mil habitantes, sempre existimos e somos pessoas que têm um acesso ao sagrado que as pessoas cis não têm. Se formos mais atrás na História, sempre foram os travestis que conectaram o mundo dos mortos com o mundo dos vivos. Escrevi A Viagem Inútil em 2018 e hoje seria certamente outro livro. Quando o escrevi, não sabia que os travestis já existiam na América do Sul antes da invasão da Europa. É quando chegam os europeus que começamos a ser assassinados, porque não nos entendiam.
Em culturas africanas, as mulheres trans e os travestis também eram figuras de destaque.
Sim, e se eu tivesse sabido disso antes, este seria um livro muito diferente. Não me teria visto tanto como uma vítima. Tenho medo de que me leiam como uma vítima.
Pensa que quando lemos este livro a vemos assim?
Às vezes, penso que sim. Também estava a tentar perceber como seria escrever num lugar onde não era suposto eu existir. Isso parece-me o mais interessante nesse livro. Lembro-me do filme Tangerine [Sean Baker, 2015]. Um filme como esse também não deveria ter ocorrido, sobre uma prostituta trans totalmente filmado com um iPhone 5. Quando o vi no cinema, foi algo completamente inesperado. Igual a um livro de uma mulher trans que está no seu próprio lugar, na minha aldeia, a escrever sobre a minha experiência. Uma escritora como eu, que, hoje, está na mesma editora que tem Marguerite Duras. Eu, nua, ébria, ex-prostituta.
Não podemos falar sobre os livros, sobre os filmes, sobre os fins, por causa do alerta ‘spoiler’, como se o valor de um filme ou de um livro estivesse no final, como se fosse isso que procurássemos
Que está fora das normas.
Exatamente.
Disse numa entrevista: “Sou um fracasso, um fracasso total, ainda não sou a escritora que quero ser.” Que escritora quer ser?
Uma mistura de Joan Didion, Marguerite Duras, Carson McCullers, Anne Carson…
Mas a Camila tem as suas próprias experiências, as suas próprias memórias.
Somos uns invejosos, os da literatura [Risos]. Mas gostaria muito de ter escrito alguns dos seus livros, por exemplo, O Amante [Duras, 1984]. Se o tivesse escrito, seria muito feliz. The Beauty of a Husband [2001, A Beleza do Marido, Não (Edições), 2020], de Anne Carson… Não é que eu queira escrever um livro igual, eu quero escrever esse livro. Autobiography of Red [Carson, 1998, Autobiografia do Vermelho, Não (Edições), 2020], por exemplo, “O lento trabalho humano do amor equivocado”, essa frase é incrível.
Mas o seu livro tem frases marcantes: “Me envolvo com a velhice do mundo.”
Não sei se lhe acontece, a mim acontece-me muito quando estou em lugares mais antigos, como na Europa, ou em alguns lugares do México, ou até no lugar onde vivi em criança, E eu penso que estão ali há centenas, milhares de anos, a mim só um ano já me parece muito.
Acha que tem uma alma velha?
Não, mas penso que mais um ano viva é muito. A minha mãe deu-me uma porcelana com 150 anos e que já sobreviveu às nossas muitas mudanças, até às nossas discussões [Risos] e há algo nisso que é muito literário. Quando pus as mamas, andava na rua curvada, saía de casa e encolhia-me. Fui a um osteopata e ele disse-me que o meu corpo estava a proteger uma coisa que era nova para ele. Com a minha literatura passa-se o mesmo, tenho vontade de proteger o que eu crio, que é novo.
Disse que se não fosse a escrita, a sua vida seria um inferno.
Sim, continua a ser um inferno. Com a literatura, ou sem a literatura.