Agora que entramos na Primavera e o desconfinamento está à porta, cuidar do nosso bem-estar é, ainda mais, uma prioridade. Tirar partido nos nossos recursos internos e ter um papel ativo na regulação do corpo e da mente começa por treinar a atenção e encarar a realidade com uma perspetiva positiva, sem ficar refém dos medos e dos filmes que fazemos na nossa cabeça. Este é um exercício que podemos fazer através da prática do Mindfulness, ou da atenção plena, abordagem secular trazida para o Ocidente pelo médico americano Jon Kabat-Zinn. Começou por ser usada no contexto médico, para o alívio da dor e na gestão de doenças crónicas e hoje é um método certificado para redução do stresse (Mindfulness Based Stress Reduction) aplicado na saúde, no contexto educativo e pode ser aprendida e usada por cada um de nós.
Doutorada pelas universidades de Lisboa e Coimbra, com a tese sobre como “cultivar mindfulness em contexto educacional”, Joana Carvalho desenvolveu um programa de auto-regulação emocional junto de professores e de alunos do primeiro ciclo. Uns e outros registaram melhorias ao nível do bem-estar, da redução do stresse e da regulação de emoções, além de ganhos ao nível da atenção em sala de aula e perceção de apoio dos alunos, face aos professores. Estes dados vão no sentido do que mostram as investigações sobre o Mindfulness: aumento da capacidade de foco, reforço dos circuitos neuronais da empatia e compaixão, na redução da atividade da amígdala, no cérebro, e no aumento das ligações neuronais no córtex pré-frontal, com impacto no comportamento: “Passamos a responder em vez de reagir, fazendo-o de forma mais refletida”, ou seja, sem ser no modo de sobrevivência (ataque, fuga ou congelamento).
Como criar bem-estar e mantê-lo, então, no nosso quotidiano?
“Notar, prestar atenção aos sinais do corpo, às sensações no corpo, que fala sempre primeiro”. Podemos fazê-lo regularmente, sentados, mas também no local de trabalho, numa reunião, por exemplo, “fazendo três ou quatro respirações até voltar ao ritmo respiratório e cardíaco próximos do normal”. O desconfinamento pode trazer medos e defesas, mas ser igualmente uma oportunidade para mudar de perspetiva, de atitude: na fila do supermercado, na rua, nos contactos com outros, praticar o auto-cuidado e o cuidar do outro traz sensações agradáveis, do mesmo modo que valorizar o que de bom nos acontece a cada momento e aquilo que podemos fazer no dia a dia, sem cair na armadilha de ficar a pensar no que correu mal. Longe de ser uma panaceia, aprender a notar e a reconhecer o que é positivo, parar, respirar e ser gentil consigo e com quem está à volta dá-nos um chão para lidar com o que corre menos bem e proporciona uma melhor forma de estar na vida, com impacto individual e coletivo.
Para ouvir em Podcast: