Foi uma noite quente de verão, apenas refrescada, de vez em quando, pela passagem de algumas nuvens. Mas a temperatura voltou a subir assim que os primeiros acordes ecoaram na Avenida dos Aliados. Um público vibrante, apaixonado pela música e pela literatura, reuniu-se para assistir a um concerto único: pela primeira vez, três dos maiores nomes da música do Norte , Rui Reininho, Pedro Abrunhosa e Rui Veloso ,partilharam o mesmo palco para celebrar a palavra escrita e a identidade do Porto.
O Babell proporcionou uma noite inesquecível onde a música encontrou a literatura. A entrada fazia-se com um livro na mão, transformando cada bilhete numa história diferente e reforçando a ideia de que a cultura pode unir gerações.
Rui Reininho interpretou um poema de Pedro Homem de Mello, Pedro Abrunhosa deu voz às palavras de Vasco Graça Moura e Rui Veloso revisitou as letras de Carlos T., apresentando ainda temas inéditos criados especialmente para o festival.
Entre o público encontravam-se pessoas vindas de todo o País, unidas pela paixão pela música portuguesa. Nuno Picado, fã incondicional da música nacional antes de qualquer outra, entrou com “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago. Com entusiasmo, conta que assiste todos os anos a cerca de dez concertos de Rui Reininho, quatro de Pedro Abrunhosa e um de Rui Veloso: “Isto é o palco de sonho.”
Natural do Porto, mas residente nos Açores, tirou férias propositadamente para assistir ao concerto. Foi também através dos concertos que conheceu Cátia Pombo, dentista e uma das maiores admiradoras dos GNR. Confessa, entre risos, que gostaria que a sua vida fosse passada de concerto em concerto, sobretudo dos GNR. Assistiu ao primeiro espetáculo da banda no Estádio das Antas, em 1993. O livro que lhe serviu de bilhete foi um presente de uma amiga; quando chegou ao recinto ainda nem sabia qual era o título. Entretanto, já começou a ler uma obra de Rui Couceiro. “Hoje este concerto é ouro sobre azul”, conclui.
A diversidade de gerações era uma das imagens mais bonitas da noite. Mariana, de apenas 16 anos, entrou com um livro de poesia de Manuel Alegre. Veio sobretudo para ver Pedro Abrunhosa, embora admire igualmente Rui Reininho e Rui Veloso.
Já Silva Sousa não quis perder esta oportunidade única. Comprou o livro na primeira livraria que encontrou, sem escolher o autor. Vinha atrasada e acabou por adquirir o bilhete-livro na estação, sem sequer saber quem o tinha escrito. O importante era estar presente.
As surpresas foram-se sucedendo. Pedro Abrunhosa convidou Mayra Andrade para interpretar “Um Dia o Fado Enfadou-se”, num dos momentos mais emotivos da noite.
Mas havia mais. Entre os respetivos concertos, os artistas cruzaram-se em palco para interpretar duas canções emblemáticas dos seus repertórios e estrearam um tema inédito, composto especialmente para o Babell a partir de textos de grandes poetas portugueses. A cumplicidade entre Pedro Abrunhosa, Rui Reininho e Rui Veloso transformou a Avenida dos Aliados num enorme coro, onde milhares de vozes cantaram o Porto.
Os primeiros a subir ao palco foram os GNR, seguindo-se Pedro Abrunhosa e, a encerrar a noite, Rui Veloso. Três concertos consecutivos, três histórias musicais que se encontraram num espetáculo pensado para celebrar a cidade, a literatura e a música portuguesa.
Foi muito mais do que um concerto. Foi uma celebração da cultura, da identidade portuense e das palavras que continuam a inspirar canções. Uma noite memorável nos Aliados. Um verdadeiro Porto Sentido.