Há um país inteiro suspenso na expectativa dos resultados dos exames nacionais e, no entanto, por detrás dessa ansiedade coletiva, instala-se um cenário inquietante: milhares de professores classificadores confrontados com falhas técnicas, atrasos na distribuição de provas e condições de trabalho indignas de um processo que determina o futuro de gerações. Em plena transição para a correção digital, há quem não tenha recebido provas, quem não tenha acesso às plataformas e quem trabalhe sob pressão acrescida por calendários cada vez mais apertados. Os sindicatos falam num “caos” organizativo, com relatos de exames incompletos, problemas técnicos recorrentes e decisões administrativas que colocam em causa a credibilidade de todo o sistema e uma CONFAP que irresponsavelmente nem se pronuncia.
Perante isto, torna-se inevitável perguntar: como pode um país exigir rigor absoluto a quem não oferece condições mínimas de respeito?
É aqui que esta crónica começa. Chamemos-lhes, então, Os Últimos Samurais.
Num tempo em que o ruído substituiu o pensamento e o imediato esmagou o essencial, há homens e mulheres, docentes, que continuam a atravessar o limiar de uma sala de aula ou o silêncio extenuante das horas de classificação como quem entra, todos os dias, num campo de batalha invisível. Não empunham a Katana. Não vestem armaduras. Não recolhem glória. Levam apenas palavras, critérios, consciência e uma resiliência que, silenciosamente, sustenta o futuro.
Para compreender a densidade desta imagem, é preciso regressar ao Japão feudal. Os samurais não eram apenas guerreiros: eram guardiões de um código ético — o Bushidô, o “caminho do guerreiro”, onde a honra, a disciplina, a lealdade e o autodomínio valiam mais do que a própria vida. Servir era o centro da sua existência; servir com dignidade, mesmo quando ninguém aplaudia.
Mas há um detalhe decisivo: muitos samurais foram também mestres. Miyamoto Musashi ensinava que a excelência nasce da persistência, “mil dias para forjar, dez mil para polir”. Yamamoto Tsunetomo (1659-1719), no Hagakure (livro publicado em 1716), defendia uma vida de integridade silenciosa, livre de ego e orientada pelo dever. E, longe do combate, cultivavam a poesia, a caligrafia, a meditação: uma educação integral do ser humano.
No Ocidente, o cavaleiro medieval partilhava este ethos de honra e lealdade. Mas há uma diferença essencial: enquanto uns protegiam territórios, outros defendiam senhores. Hoje, os professores defendem algo mais frágil e decisivo: a consciência dos jovens.
E são os professores, ainda hoje, os últimos resistentes, não de forma épica aos olhos do mundo, mas profundamente heróica na intimidade silenciosa das salas de aula e no labor invisível da correção de exames. São guardiões de tudo aquilo que a pressa tenta apagar: o rigor, o pensamento crítico, a justiça. Continuam, mesmo quando o corpo cede e a alma acusa o desgaste de dias sucessivos de exigência e desconsideração. Continuam quando a tecnologia falha, quando o sistema hesita, quando o reconhecimento não chega. Ainda assim, levantam-se. Ainda assim, regressam.
Com uma resiliência que raramente se mede, protegem, motivam, incentivam e orientam milhares de alunos, mesmo quando trabalham com processos imperfeitos que deveriam ser exemplares. Fazem-no com uma força discreta, feita de pequenas decisões éticas, de critérios justos, de um compromisso absoluto com a equidade. Como escreveu Albert Camus, “no meio do inverno, aprendi por fim que havia em mim um verão invencível”, e talvez seja esse verão que habita, silenciosamente, cada professor que persiste.
Confúcio ofereceu-nos uma síntese quase definitiva desta missão: “Se não sabes, aprende; se já sabes, ensina.”. E acrescentou: “A educação alimenta a confiança, a confiança alimenta a esperança e a esperança alimenta a paz.” Poucas ideias são tão claras e tão negligenciadas.
Porque, sabemo-lo bem, a educação não é apenas um sistema. É uma cadeia de confiança. E essa cadeia está hoje a ser posta à prova.
Vivemos, porém, numa estranha distração coletiva. Cabeças curvadas sobre ecrãs luminosos, dedos apressados, atenção fragmentada. Fala-se mais do que se escuta, reage-se mais do que se pensa. E, nesse ruído digital incessante, vai-se perdendo o essencial: a consciência do valor daqueles que, todos os dias, ainda ensinam a pensar. Enquanto uma sociedade inteira se entretém na superfície, os professores trabalham na profundidade. Enquanto muitos deslizam por conteúdos efémeros, eles insistem na construção do sentido. E esse contraste é, hoje, um dos maiores paradoxos do nosso tempo.
Porque um professor não ensina apenas conteúdos: ensina a olhar o mundo com lucidez. Ensina a duvidar, a questionar, a interpretar. Ensina a distinguir informação de conhecimento, opinião de argumento, ruído de verdade. Num mundo saturado de estímulos e de respostas rápidas, é ele quem devolve a lentidão necessária para compreender. E esse gesto, aparentemente simples, é hoje profundamente revolucionário.
Há, também, uma dimensão que raramente se mede: a do impacto invisível. Um professor pode nunca saber que transformou uma vida, que evitou uma desistência, que despertou uma vocação, que foi o único adulto que verdadeiramente escutou um jovem, muitas vezes, melhor do que os pais. Mas isso acontece, todos os dias, em silêncio. E é neste tecido invisível que se sustenta a coesão de uma sociedade. Sem ele, ficamos entregues à superficialidade, à indiferença, à erosão do vínculo humano. E, no entanto, persistimos em não ver.
Persistimos em discutir resultados, rankings, estatísticas, esquecendo o essencial: o processo humano que os sustenta. Persistimos em exigir desempenho sem refletir sobre as condições. Persistimos em criticar o sistema sem cuidar de quem o mantém vivo. E, sobretudo, persistimos em olhar para baixo para o ecrã, cabeça enfiada na areia, quando deveríamos olhar em frente, para aqueles que, incansavelmente, continuam a sustentar o futuro.
Paulo Freire recordava-nos que “a educação não transforma o mundo. A Educação muda as pessoas. As pessoas mudam o mundo”. Mas essa transformação exige tempo, presença, relação, exatamente aquilo que uma sociedade distraída tende a desvalorizar.
É aqui que a metáfora dos samurais se torna mais urgente do que nunca. Tal como esses guerreiros antigos, os professores continuam a cumprir o seu dever num contexto adverso. Fazem-no, não porque as condições sejam ideais, mas apesar delas. E é essa fidelidade, à justiça, ao rigor, à dignidade, que os torna absolutamente indispensáveis.
Mas nenhuma sociedade pode sobreviver muito tempo a ignorar quem a sustenta. É tempo de agir.
Valorizar os professores, na sala de aula, na correção de exames, na organização do sistema educativo, não é um gesto simbólico: é uma exigência civilizacional. É reconhecer que a sua resiliência não pode continuar a ser confundida com tolerância ao desrespeito. É garantir condições dignas, processos rigorosos, reconhecimento efetivo.
Porque, se queremos avaliações justas, precisamos de avaliadores respeitados. Se queremos um sistema credível, precisamos de professores valorizados. Caso contrário, estaremos apenas a exigir excelência sobre o desgaste.
E isso não é futuro, é declínio. Ainda vamos a tempo. Ainda vamos a tempo de levantar o olhar, desligar o ruído e reconhecer aquilo que realmente importa. Ainda vamos a tempo de perceber que há, entre nós, homens e mulheres que continuam a resistir, não por heroísmo exibido, mas por compromisso silencioso com o outro.
No dia em que deixarmos cair os nossos professores, não perderemos apenas uma profissão. Perderemos a capacidade de continuar a ser humanos. Mas enquanto houver um professor que escolhe ficar, ensinar, corrigir com justiça, acreditar, mesmo quando tudo parece falhar, então o País ainda respira.
E os Últimos Samurais não serão o fim de uma história. Serão, ainda, a possibilidade de a recomeçar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.