Com o Mundial de Futebol a ocupar televisores, cafés, cunhados e amigos que, até ver, têm sempre uma opinião tática para a Seleção Nacional, convém lembrar que há outra forma de sobreviver ao verão, sem futebol nem praia: entrar numa sala escura, deixar o calor à porta e apanhar uma corrente de ar fresco chamada Ernst Lubitsch. O ciclo que o Cinema Nimas dedica ao mestre termina a 14 de julho de 2026 e, portanto, isto já é um verdadeiro aviso de proteção civil. Enquanto lá fora Lisboa derrete com a elegância de um queijo esquecido no tablier do carro, lá dentro vai passando um dos realizadores mais refrescantes da idade de ouro de Hollywood. Embora refrescante, neste caso, queira dizer perverso, elegante, insolente e capaz de transformar uma porta entreaberta num tratado sobre desejo, mentira, casamento e outras formas civilizadas de desastre social.
Lubitsch nasceu em Berlim, em 1892, e morreu em Hollywood, em 1947, deixando atrás de si uma coisa que toda a gente cita e quase ninguém sabe explicar sem começar a suar, no melhor dos sentidos: o famoso “toque Lubitsch”. Não era um truque, nem uma receita, nem aquela habilidade moderna de filmar pessoas bonitas a dizerem coisas inteligentes como num anúncio de perfume francês. Era antes uma arte de sugerir tudo mostrando quase nada. Uma porta fechava-se, uma elipse fazia o trabalho sujo, um olhar dizia o que a censura não deixava dizer, e o espectador, feliz da vida, completava a indecência em casa. Lubitsch confiava no público. Hoje, muitos filmes não. Lubitsch abria uma porta e fugia.
O ciclo do Nimas, com 15 filmes em cópias digitais restauradas, atravessa o Lubitsch alemão e o Lubitsch americano, isto é, o homem antes e depois de Hollywood lhe dar dinheiro, estrelas, cenários e, sobretudo, problemas conjugais em quantidade industrial. Em “Carmen”, ainda mudo, Pola Negri entra em cena e prova que o cinema sem som também pode agitar as almas. Em “Uma Hora Contigo”, Maurice Chevalier pisca o olho à câmara com a impunidade de quem sabe que o adultério, quando cantado em francês, parece menos crime e mais sobremesa. Em “Ninotchka”, Greta Garbo ri-se, e não é apenas uma atriz a rir: é o comunismo a descobrir o luxo, a seriedade a escorregar num champanhe, a ideologia a perder a compostura diante de um chapéu ridículo. Em “A Loja da Esquina”, o amor nasce onde devia haver expediente e embrulhos, como se o capitalismo, por uma vez, acertasse numa prenda. E em “Ser ou Não Ser”, talvez a mais escandalosamente corajosa das suas comédias, Hitler e os nazis são reduzidos àquilo que também eram: criminosos, mas com um potencial cómico devastador quando tratados não como monstros invencíveis, antes como idiotas de bigode mal aparado.
O espantoso em Lubitsch é isto: ele nunca cede à solenidade. Entra, tira-lhe o casaco, serve-lhe um copo e põe-na a fazer figura de parva. As suas personagens não são santos nem demónios; são pessoas desejantes, vaidosas, medrosas, sedutoras, cobardes, brilhantes, ridículas. Gente normal. E, como toda a gente, mentem melhor do que confessam. A diferença é que, nos filmes dele, a mentira tem ritmo, a traição tem coreografia e a hipocrisia entra sempre bem vestida. Não há moralismo de mão na anca, nem sermão a bater com a régua nos dedos. Há inteligência, que é muito mais perigosa e desafiante. Lubitsch percebeu antes de quase todos que a comédia não é uma pausa da vida séria: é a maneira mais cruel, rápida e higiénica de a desmontar.
Por isso, é possível que alguns espectadores cheguem ao Nimas com medo dos “filmes antigos” e “a preto e branco”, essa categoria que muita gente trata como se fosse uma gaveta com cheiro a naftalina, tias-avós e legendas pequenas impressas nos cartões. Erro grave. Um filme antigo só envelhece quando já nasceu velho. Lubitsch, pelo contrário, parece ter acabado de sair de uma discussão no Twitter, só que com melhor guarda-roupa, melhores diálogos e muito menos necessidade de bloquear ou cancelar pessoas. As limitações técnicas e morais da época não o empobreciam; pelo contrário, obrigavam-no a ser mais esperto e sedutor. Como não podia mostrar tudo, sugeria melhor. Como não podia dizer tudo, dizia de lado. Como não podia escandalizar frontalmente, escandalizava com luvas. E a luva, em Lubitsch, era sempre mais indecente do que a mão nua.
Neste verão de futebol global, calor infernal e agendas culturais a pingar suor, a despedida deste ciclo no Nimas devia ser tratada como uma convocatória para a final no MetLife Stadium. Não para a Seleção, que isso dá lesões, comentadores a mais e muita gente a gritar para a televisão como se o selecionador estivesse escondido atrás do sofá, mas para uma equipa muito mais fiável: Lubitsch à frente, Chevalier a piscar o olho, Garbo a descongelar, Pola Negri a incendiar o ecrã, James Stewart e Margaret Sullavan a descobrirem que o amor por carta pode ser mais perigoso do que o Tinder. Até 14 de julho, ainda há tempo para entrar no fresco e apanhar uma insolação de inteligência, insolência e prazer de ver o melhor cinema que já não se faz. Lá fora, o mundo grita, marca penáltis, discute VAR e culpa o árbitro. Lá dentro, Lubitsch deixa-nos rir do desejo, da política, do casamento, da guerra, da estupidez humana e de nós próprios. E fá-lo sem grandes manifestações nem aparato: fá-lo com subtileza. É o chamado toque. Ou, em linguagem de verão, ar condicionado para a alma, com muita malícia incluída. Que arrepio!