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No restaurante onde costumo ir no meu no bairro acontece, como em todos os restaurantes desse género, um fenómeno curioso. Em noites tranquilas de semana é possível ir lá jantar, trocar umas palavras com os restantes clientes habituais, com o dono e os funcionários e com as restantes pessoas à mesa.
Mas em noites de fim-de-semana, particularmente se houver uma mesa mais barulhenta, toda a gente começa a falar mais alto. Uns tentam sobrepor-se aos outros, frustrados por não se conseguirem fazer ouvir. Os empregados têm de berrar os pedidos para a cozinha, ninguém se consegue fazer perceber porque toda a gente se quer fazer ouvir. A berraria atinge um nível tal que a permanência fica absolutamente insuportável e a comunicação se torna completamente impossível.
Houve um grande terramoto na Venezuela. Na televisão, um especialista entra na emissão para comentar a situação. O ecrã divide-se: do lado esquerdo podemos ver os comentadores em estúdio e do lado esquerdo passam em repetição, até à muito literal náusea, imagens de cadáveres em sacos, pessoas a agonizar presas nos escombros, sobreviventes ensanguentados e em choque.
O interesse jornalístico de passar estas imagens em pano de fundo, e em repetição infinita, sem contexto nem preparação do telespectador, é menos que nulo. O único propósito é tentar agarrar audiência atraída pelo macabro, apelar ao público que abranda quando passa por um acidente na esperança de ver uma gotinha de sangue.
Esta tática de recrutamento de espectadores não é nova. O sofrimento dos outros tem sido sistematicamente utilizado para atrair audiências e, de caminho, desumanizar aqueles cujo sofrimento é instrumentalizado de forma tão brutal. É um resultado esperado da mercantilização do jornalismo e redunda na dessensibilização geral.
Fomo-nos habituando a olhar para o jornalismo de determinada forma e se vemos com compreensível desconfiança quando os órgãos são detidos pelo Estado, temos tendência a olhar, no máximo, com uma aceitação resignada quando eles são detidos por privados.
Um facto inultrapassável é que os jornalistas são pessoas que precisam de pagar as contas e o dinheiro dos seus ordenados tem de vir de algum lado. Aceita-se, com alguma naturalidade, que o resultado do trabalho dos jornalistas deve ser posto no mercado e o seu consumo deve gerar receitas para pagar esse trabalho. Quando não havia uma forma gratuita de aceder a todos os conteúdos imagináveis, ninguém colocou verdadeiramente as perguntas a que agora devemos responder. Será que o valor do jornalismo se pode medir pelo seu sucesso no mercado? Será que o bom jornalismo é o que vende muito? Será que as estratégias de maximização do sucesso do jornalismo no mercado podem acabar por destruir o próprio jornalismo?
Não tenciono ter aqui esta conversa que daria pano para mangas, mas alguns dos fenómenos que vemos hoje na interação do jornalismo com as redes sociais são um produto desta lógica. Títulos enganadores para levar ao clique, predominância de temas polémicos para gerarem discussão, a extrema emocionalização das notícias. Temos até a “nova” tendência de fazer títulos em forma de perguntas para não dar demasiada informação ao leitor sem que ele clique. Todos estes fenómenos são o produto de um jornalismo subserviente e refém do mercado onde os valores do marketing se sobrepõem aos valores noticiosos.
Os colunistas que enraivecem multidões são valorizados, os comentadores que mobilizam exércitos prontos a digladiarem-se nas redes sociais são procurados, as notícias rápidas, baratas e com alto potencial de indignação são privilegiadas, os temas quentes são repetidos e explorados até à exaustão, as imagens chocantes são usadas em bombardeamentos incessantes, os temas do momento são espremidos até à última gota.
E se a sua reação é a de crescente indiferença, pode acalmar o seu sentimento de culpa sabendo que essa é a única alternativa à loucura. Os seres humanos simplesmente não têm capacidade para dedicar toda a sua atenção a tudo o que lhes é atirado para cima. Da mesma forma que, numa aldeia, se virmos alguém deitado no meio da rua, sentimo-nos impelidos a averiguar e oferecer ajuda mas, se o mesmo acontecer numa grande cidade, não olhamos sequer duas vezes.
As notícias estão agora totalmente dominadas pelo bizarro e pelo momentâneo, pelo chocante e pelo emotivo. A análise calma e ponderada, a investigação lenta e rigorosa, o silêncio para pensar, nada disso tem hoje lugar no mundo das notícias sem se ver a contas com um sério problema de sustentabilidade. Vemos chicos-espertos a aproveitarem-se disso para ter tempo de antena usando a sua bizarria para ter tempo de antena e, quando piscamos os olhos, governam um país.
A criança que saiu dos escombros ensanguentada, coberta de pó de cimento, em choque e traumatizada para a vida é um peão no jogo das audiências. Já não assistimos sequer a pessoas aos gritos num restaurante, assistimos a gente que se põe a dançar semi-nua em cima da mesa com um pé enfiado no tacho da massinha de peixe. Porque o importante já não é conseguir falar mais alto para passar a mensagem. Se a mensagem atrapalha o nosso plano para nos fazermos ouvir, então que se lixe a mensagem.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.