Nos últimos anos, o óxido nitroso tornou-se uma droga popular em festas. Este gás pode ser inalado através de balões, ou cartuchos vendidos para culinária, como os encontrados nos recipientes de chantilly. O óxido nitroso é um gás inodoro e incolor, que é utilizado desde o final do século XVIII para efeitos analgésicos e de anestésicos. Em contexto recreativo, já a alta sociedade britânica o utilizava nas “festas do riso”, populares no século XIX.
Entre outros, os efeitos do óxido nitroso incluem euforia, relaxamento e, quando misturado com outras drogas, alucinações. Como estes efeitos são fugazes, a tendência é a de que o consumidor se sirva de vários cartuchos (dezenas ou centenas) de forma a prolongar a sensação.
Os problemas associados são vários, mas um dos que mais está a preocupar os médicos britânicos é a possibilidade de o consumo intensivo levar a uma deficiência de vitamina B12 a ponto de danificar os nervos da espinal medula.
No Reino Unido tem-se verificado um aumento do consumo desta droga e dos efeitos secundários associados: desmaios, queimaduras na garganta e pulmões e danos na espinal medula. “Vemos cada vez mais jovens e adolescentes [a necessitar de cuidados de saúde]. O que é impressionante agora é a severidade das lesões e o seu um aumento ao longo dos últimos 12 meses”, relata Alastair Noyce à BBC.
Já nos Países Baixos, a venda, importação e posse de óxido nitroso é proibida desde 1 de janeiro deste ano, com exceções para uso médico e para a indústria alimentar, devido às preocupações crescentes sobre a saúde e segurança dos neerlandeses. Para Maarten Van Ooijen, Secretário de Estado para a Saúde, Bem-estar e Desporto, o uso recreativo desta droga representa “enormes riscos para a saúde”. Já para a Ministra da Justiça, Dilan Yeşilgöz-Zegerius, “a proibição do óxido nitroso ajuda enormemente a polícia na aplicação da lei. (…) Assim, a polícia poderá agir imediatamente se alguém estiver na posse de óxido nitroso sem um motivo profissional”.
Os pacientes têm apresentado danos neurológicos que se traduzem em formigueiros nas pernas e braços, perda de sensibilidade nas extremidades, quedas, incontinência, demência e incapacidade em andar. O óxido nitroso impede a normal absorção da vitamina B12, que tem como uma das suas funções a proteção das bainhas de mielina, a camada protetora dos axónios, a parte do nervo responsável pela transmissão dos sinais elétricos.
Um artigo do British Medical Journal aponta para que um maior consumo de óxido nitroso se manifeste num intensificar dos efeitos secundários: aqueles que utilizam um cartucho por sessão têm cerca de 1,9% de risco de sofrer de parestesia (formigueiro), em comparação com 8,5% em pessoas que utilizam mais de 100 cartuchos. Em geral, os que procuram cuidados médicos por causa de efeitos secundários relacionados com o abuso da “droga do riso” relatam uma utilização intensa ao longo de meses ou até anos.
Um estudo publicado no Australian Journal of General Practice apresenta o caso de uma estudante universitária de 18 anos, que descreveu um formigueiro doloroso e dormência em ambos os pés. Durante as semanas seguintes, os sintomas progrediram e a jovem relatava fraqueza e desequilíbrio, não sendo capaz de se vestir sozinha. Depois de ter sido questionada pelos médicos quando análises ao sangue revelaram uma deficiência de vitamina B12, a estudante revelou consumir até 200 cartuchos diariamente por um período de seis meses. Perante esta situação, foi iniciado um tratamento com êxito, pelo que a jovem terá recuperado as suas capacidades.
Pelo contrário, Deniz Uresin e Adam (nome fictício) não recuperaram totalmente. “Eu estava a usar tanto gás que mal conseguia andar, tinha muitas dores no corpo. Mas mesmo assim continuava a querer consumir, estava completamente viciado”, Uresin conta ainda à ITV News. “Eu estava paralisado, a minha família tinha de me levar à casa de banho. Se ficasse de pé, a minha coluna tremia. Ia constantemente à casa de banho para vomitar”, descreve Adam também à ITV News, “Tenho sorte por ainda estar vivo”.