Fala-se muito da possível pulverização da Federação Russa, atendendo às imensas diferenças sociais, religiosas, geográficas, étnicas e culturais dos povos que a compõem. Os naturais de São Petersburgo, por exemplo, são profundamente distintos dos chechenos, como os eslavos o são dos asiáticos.
Os Estados Unidos também se construíram na diversidade, é certo, mas com base numa ideia de liberdade, democracia e governo do povo, ao contrário da Rússia que tem uma tradição autocrática desde os czares a Putin, passando pela ditadura soviética, e onde o estado de direito nunca serviu de norte à governação. Apesar de percalços como o persistente racismo norte-americano, a Guerra de Secessão (1861 a 1865) e as tentativas de nazificação de há cem anos, o país manteve sempre levantada a bandeira das eleições livres, justas e democráticas, coisa que a Rússia nunca teve.
Sucede que a América a partir de Trump e do efeito das redes sociais deixou de ser aquele país unido, que apesar das diferenças respeitava as instituições e um conjunto de regras de convivência cívica. Neste momento é outra coisa. E isso começou com o marco histórico do assalto ao Capitólio capitaneado por um presidente derrotado nas urnas e que pela primeira vez recusou o veredito popular como é vulgar nas repúblicas das bananas, tendo mantido até agora a narrativa das eleições “roubadas” contra todas as evidências e decisões judiciais, num insulto soez ao eleitorado, à democracia e à inteligência.
Aquilo que pareceria uma birra infantil ou um exercício de mitomania, espalhou-se rapidamente por boa parte da população, graças às notícias falsas, e desde aí o país surge dividido como nunca, nem mesmo durante a guerra civil. Daqui resulta que o trumpismo está a esmagar a administração federal a fim de entregar o poder a uma oligarquia multimilionária, retirando assim a possibilidade de promover a coesão nacional, uma vez que os estados ricos vivem bem mas os pobres nem tanto.
A cultura apocalíptica que vem detrás reforçou-se ultimamente com milícias armadas até aos dentes com armas de guerra e bunkers, que vivem num mundo virtual dispostos a lutar contra quaisquer compatriotas que não pensem como eles ou que tenham nascido com cor de pele diferente. E o facto de se acrescentar a este cozinhado uma forte argumentação religiosa torna-o ainda mais explosivo.
Por outro lado, estados muito populosos mas que valem quase o mesmo do que outros de baixa densidade devido à arquitectura do sistema eleitoral americano, no qual o voto popular não é integralmente respeitado, podem ser levados a questionar a sua posição. Um dia a Califórnia pode acordar a querer tornar-se uma república independente, ou o Illinois, ou o Texas, e aí será o cabo dos trabalhos.
O cimento que une um país federal é sempre um executivo, um parlamento uma justiça federal, uma ideia nacional e um presidente no qual a maior parte do país se reveja. Sobre o supremo tribunal americano está à vista que tal órgão é o corolário de um sistema de justiça profundamente iníquo e sequestrado pelo poder político. Sobre as instituições parlamentares, o congresso e o senado, já vimos qual é o respeito que uma parte da população tem por eles (incluindo Trump que mandou para casa os criminosos do assalto, chamando-lhes “reféns”). Sobre a administração é o que se vê. E sobre uma ideia nacional, a população está dividida entre o imaginário da América branca, imperial e dominante no mundo do pós-guerra, e a mais modesta realidade contemporânea, com a competição progressiva da China e a emergência económica da Europa.
Todos os impérios nascem e morrem um dia, e o império americano não será exceção, só que muito provavelmente morrerá por dentro, por implosão. A mudança demográfica que aponta para que os brancos sejam uma minoria dentro de alguns anos, num país que foi idealizado e governado por eles desde a independência, durante mais de dois séculos, e o declínio do poder americano no mundo fazem recear o pior.
Queiram os não os supremacistas brancos, a América será multirracial dentro de uns tempos e já está a perder a influência que teve no mundo nos últimos cem anos. Só não se sabe é se vai continuar a manter-se como um só país ou se irá partir-se de acordo com as profundas clivagens que se têm vindo a agravar especialmente desde o início do milénio. Não seria a primeira tentativa pois já no séc. XIX o tentaram através duma guerra civil.
PS – Partiu há dias Manuel Sérgio aos 91 anos (1933-2025), académico, filósofo, grande teórico da motricidade humana e sobretudo um notável humanista. Tive a oportunidade de ter algumas conversas inspiradoras com este homem cujo desaparecimento constitui uma grande perda. Em 2004 enviou-me um livro seu, autografado e uma carta muito simpática. Passaram 21 anos.
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