Há uma frase que se repete sempre que se fala de juventude: “Os jovens são o futuro.” É uma frase bonita. Talvez demasiado bonita para uma geração que está cansada de esperar pelo futuro enquanto tenta, com dificuldade, construir o presente.
No Dia Internacional da Juventude, não basta celebrar os jovens. É preciso ouvi-los. E, sobretudo, é preciso olhar com seriedade para aquilo que significa ter vinte ou trinta anos em Portugal.
Somos frequentemente apresentados como a geração mais qualificada de sempre. Nunca tantos jovens portugueses chegaram ao ensino superior, aprenderam línguas, viajaram, fizeram Erasmus, mestrados, estágios e formações. Disseram-nos que estudar era o caminho. Que o esforço seria recompensado. Que uma boa formação nos permitiria construir uma vida melhor do que a das gerações anteriores.
Nós acreditámos.
Estudámos. Preparámo-nos. Fizemos aquilo que nos pediram.
E agora?
Agora encontramos um país onde, para muitos jovens, ter um ou vários diplomas já não significa conseguir ter uma vida independente.
Entramos no mercado de trabalho e descobrimos salários que pouco combinam com o custo de vida. Procuramos uma casa e percebemos que uma renda pode consumir quase tudo aquilo que ganhamos. Fazemos contas antes de sair de casa dos nossos pais, contas antes de pensar em ter filhos, contas antes de aceitar um emprego noutra cidade. E há meses em que parece que estamos constantemente a fazer contas para descobrir se podemos simplesmente viver.
Não é falta de vontade de crescer.
É falta de condições para o fazer.
Talvez esta seja uma das maiores injustiças sentidas pela juventude portuguesa: somos uma geração altamente preparada para ser independente e, ao mesmo tempo, uma geração a quem a independência se tornou extraordinariamente difícil.
E depois chega a pergunta inevitável: “Porque é que os jovens portugueses vão embora?”
Talvez devêssemos fazer a pergunta ao contrário. Porque haveriam de ficar, se não lhes dermos razões para ficar?
Portugal conhece demasiado bem a palavra emigração. Durante décadas, portugueses partiram com uma mala à procura de uma vida melhor. Hoje, a mala mudou. Dentro dela seguem diplomas universitários, mestrados, competências tecnológicas, investigação científica, criatividade e conhecimento.
Partem engenheiros. Enfermeiros. Professores. Investigadores. Programadores. Arquitetos. Médicos. Jovens de tantas outras profissões.
E cada jovem que parte não representa necessariamente um fracasso. Conhecer outros países, culturas e formas de trabalhar pode ser extraordinário. O problema não é um jovem português poder sair. O problema é sentir que precisa de sair para conseguir aquilo que deveria ser razoável desejar no seu próprio país.
Um salário digno. Uma casa. Estabilidade. Uma carreira. Uma família, se a quiser. Alguma segurança para imaginar o próximo ano sem sentir que tudo pode desmoronar.
Não queremos um país que feche os jovens dentro das suas fronteiras. Queremos um país para onde também seja possível regressar.
Porque existe outra realidade sobre a qual falamos pouco: o cansaço de uma geração que sente que está permanentemente a tentar chegar a algum lado.
É preciso estudar mais. Ter experiência antes mesmo do primeiro emprego. Fazer mais uma formação. Construir currículo. Ser empreendedor. Ser produtivo. Ser flexível. Adaptar-se. Poupar. Pensar na reforma. Ter projetos. Aproveitar a juventude.
Tudo ao mesmo tempo.
E, no meio de tantas exigências, ainda ouvimos que os jovens “não querem trabalhar”, “querem tudo demasiado depressa” ou “antigamente também era difícil”.
Claro que era.
Cada geração teve as suas dificuldades e seria injusto esquecer os sacrifícios das anteriores. Os nossos pais e avós construíram muito daquilo que hoje temos. Mas reconhecer o passado não pode servir para ignorar os problemas do presente. O sofrimento de uma geração não deve ser a medida daquilo que a geração seguinte tem de suportar. O progresso existe precisamente para que os filhos possam viver melhor do que os pais.
E é isso que começa a preocupar: a sensação de que essa promessa está a enfraquecer.
Ainda assim, ser jovem português está muito longe de ser apenas uma história de dificuldades.
Somos também uma geração que tem muito para dar.
Somos uma geração europeia e profundamente ligada ao mundo, mas que continua a ter uma relação especial com o lugar de onde vem. Somos jovens capazes de estudar em Lisboa, trabalhar em Bruxelas, fazer amigos em Madrid e continuar a sentir que há qualquer coisa diferente quando o avião aterra em Portugal.
Somos uma geração que questiona.
Questionamos a desigualdade. Falamos de saúde mental com uma abertura que durante demasiado tempo não existiu. Preocupamo-nos com as alterações climáticas. Exigimos respeito independentemente do género, da origem ou da condição económica. Queremos trabalhar, mas recusamos cada vez mais a ideia de que viver deve resumir-se a trabalhar.
E talvez isso não seja falta de resistência.
Talvez seja progresso.
Por isso, quando se fala de políticas de juventude, não podemos continuar a tratar os jovens como uma pequena categoria à parte. Quase todas as grandes decisões políticas são decisões sobre juventude.
Habitação é política de juventude.
Educação é política de juventude.
Salários são política de juventude.
Transportes, saúde, cultura, ambiente e natalidade são políticas de juventude.
E a própria democracia é uma questão de juventude.
Um país que não consegue convencer os seus jovens de que vale a pena participar, trabalhar, criar e construir uma vida nele está a hipotecar muito mais do que uma geração. Está a hipotecar o seu próprio futuro.
É por isso que, neste Dia Internacional da Juventude, não quero pedir mais paciência aos jovens portugueses.
Já nos pediram paciência suficiente.
Quero pedir mais coragem a Portugal.
Coragem para enfrentar o problema da habitação sem meias medidas. Coragem para valorizar salários e qualificações. Coragem para criar oportunidades fora dos grandes centros urbanos. Coragem para ouvir os jovens antes de decidir por eles. Coragem para construir um país onde alguém não tenha de escolher entre viver perto da família e ter uma carreira digna.
Porque esta geração não está a pedir privilégios.
Está a pedir possibilidades.
A possibilidade de sair de casa.
A possibilidade de ficar.
E, sobretudo, a possibilidade de regressar.
Somos a geração mais qualificada de sempre. Mas não queremos ser recordados apenas como a geração mais qualificada que Portugal deixou partir.
Queremos ser a geração que ficou, que regressou, que criou, que arriscou, que transformou e que ajudou Portugal a avançar.
Por isso, talvez esteja na altura de deixarmos de repetir que os jovens são o futuro.
Os jovens são o presente.
E um país que não consegue dar futuro aos seus jovens arrisca-se, um dia, a descobrir que ficou sem nenhum dos dois.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.