Há palavras que denunciam imediatamente quem é dos nossos. “Obrigadinho” é uma delas. Porque um estrangeiro aprende “obrigado”. Aprende “bom dia”. Aprende “se faz favor”. Mas “obrigadinho”? Isso já exige intimidade cultural. Exige convivência. Exige ter percebido que os portugueses vivem no diminutivo emocional das coisas. “Um cafezinho.” “Só um bocadinho.” “Tadinho.” “Coisinha boa.” O “inho” português não diminui. Aproxima.
Foi precisamente por isso que o Vasyl me enganou. Circulava pela Tasca do Celso como quem sempre ali pertenceu. Levava pratos, sorria, respondia às mesas com uma naturalidade desarmante e um sotaque alentejano tão convincente que eu teria jurado estar perante um rapaz nascido entre Santiago do Cacém e Vila Nova de Milfontes. Até ao momento em que ouvi: “Obrigadinho.”
Havia qualquer coisa na pronúncia. Um detalhe mínimo. Uma sílaba ligeiramente deslocada. Uma musicalidade diferente. Perguntei-lhe de onde era. “Ucrânia.” Fiquei em silêncio durante uns segundos. Catorze anos em Portugal. Imigrante. Alentejano por escolha. E naquele instante percebi que, naquela sala, provavelmente metade das pessoas que mantinham o restaurante vivo tinham vindo de fora. Dois ucranianos. Um funcionário do Bangladesh. Outros rostos orientais que consegui vislumbrar na cozinha. E, no entanto, paradoxalmente, poucos lugares me pareceram tão portugueses quanto a Tasca do Celso.
Aquilo não é apenas um restaurante. É quase um arquivo vivo da nossa identidade gastronómica. O menu é um mapa sentimental do País: percebes, lingueirão, amêijoas à Bulhão Pato, lulinhas fritas, alheira de caça, farinheira grelhada, pica-pau de porco preto, cabrito assado. Mar e montanha. Fumo, alho, coentros, azeite e carvão. Tudo servido em doses obscenas de tão generosas. E depois chegam as sobremesas – leite-creme, farófias, sericaia –, como se Portugal tivesse decidido terminar a refeição abraçando-nos. No fim, aparece ainda um licor de bolota estupidamente gelado, perfeito para aquela luz quente do Alentejo ao final da tarde.
A Tasca do Celso devia constar de um roteiro obrigatório de peregrinação gastronómica portuguesa. Não apenas pela comida extraordinária, mas porque ali existe qualquer coisa mais rara: verdade. E, por isso, o Vasyl faz tanto sentido naquele lugar. Porque Portugal nunca foi um país construído sobre pureza. Foi construído sobre mistura. Sobre partidas e chegadas. Sobre gente que saiu e gente que ficou. Sobre gente que veio. Nós próprios fomos emigrantes durante décadas. França, Alemanha, Luxemburgo, Brasil, Venezuela, Estados Unidos, Canadá, África do Sul… Fomos recebidos. Fomos acolhidos. Fomos os estrangeiros de alguém. Existe qualquer coisa de profundamente hipócrita quando um país com esta História olha hoje para a imigração com arrogância ou desprezo.
O Vasyl não me “tirou” Portugal. O Vasyl está a ajudar a mantê-lo vivo. Serve comida portuguesa com orgulho. Fala como nós. Conhece os nossos códigos. Abraçou as raízes locais sem perder as dele.
Vivi muitos anos fora de Portugal. Primeiro no Brasil, depois nos Estados Unidos. E talvez por isso me incomode tanto a facilidade com que algumas pessoas confundem nacionalidade com exclusividade. Durante os anos em que viajei pelos Estados Unidos, lembro-me de ver um billboard em Nova Iorque que dizia: “Some new yorkers are born. Some are made.” Nunca me esqueci dessa frase. Porque os grandes países – como as grandes cidades – constroem-se precisamente assim: com pessoas que chegam, trabalham, pertencem, criam raízes e escolhem amar aquele lugar como casa.
Há pessoas que nascem portuguesas. E há pessoas que escolhem sê-lo todos os dias.
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