Quando se fala da indústria do açúcar, o debate público tende a centrar-se quase exclusivamente, e compreensivelmente, na nutrição. A alimentação ocupa hoje um lugar central nas preocupações da sociedade e a saúde pública deve continuar a ser uma prioridade. Mas reduzir o futuro da indústria açucareira a uma discussão sobre um único ingrediente é ignorar a profunda transformação que este setor atravessa. A realidade é que produzir açúcar na Europa nunca foi tão exigente.
À pressão para reduzir a pegada carbónica juntam-se metas ambientais cada vez mais ambiciosas, exigências crescentes dos consumidores, volatilidade dos mercados internacionais, aumento dos custos de energia, necessidade de reforçar a autonomia estratégica europeia e um quadro regulatório em permanente evolução.
É um contexto que obriga a indústria a fazer muito mais do que produzir. Obriga-a a inovar.
Foi precisamente essa uma das principais conclusões do encontro anual da World Sugar Research Organisation, realizado recentemente em Verona. Ao contrário da imagem tradicional de um setor centrado apenas na produção, o debate incidiu sobretudo sobre ciência, sustentabilidade, inovação, saúde pública e competitividade. Essa mudança de agenda diz muito sobre a transformação que a indústria está a viver.
Hoje, uma empresa açucareira é chamada a responder simultaneamente a desafios que, há poucos anos, eram tratados separadamente. Tem de produzir de forma mais eficiente, reduzir emissões, investir em economia circular, utilizar melhor os recursos naturais, responder às expectativas dos consumidores e acompanhar a evolução do conhecimento científico sobre alimentação e saúde.
Poucos setores enfrentam tantas exigências em simultâneo.
A ciência alimentar evoluiu significativamente nas últimas décadas e continua a evoluir. O debate sobre os alimentos ultraprocessados e sobre a classificação NOVA demonstra precisamente que existem matérias onde a investigação continua em desenvolvimento e onde importa distinguir entre hipóteses científicas, associações estatísticas e relações causais demonstradas. A melhor
resposta para esta incerteza não é ignorar a ciência, mas investir ainda mais em investigação e garantir que as políticas públicas acompanham a evolução do conhecimento.
O mesmo acontece com a obesidade – hoje sabemos que resulta da interação entre fatores biológicos, genéticos, ambientais, comportamentais e sociais. Esta compreensão, muito mais sofisticada do que aquela que existia há apenas alguns anos, recorda-nos que os grandes desafios da saúde pública dificilmente se resolvem através da procura de um único responsável.
Para a indústria alimentar, esta realidade representa uma responsabilidade acrescida. Inovar deixou de ser uma opção competitiva para passar a ser uma obrigação. Melhorar processos produtivos, aumentar a eficiência energética, reduzir desperdícios, valorizar subprodutos, investir em novas soluções tecnológicas e responder às preocupações dos consumidores são hoje dimensões inseparáveis da atividade industrial.
É também por isso que o debate sobre alimentação não deve colocar indústria e saúde pública em lados opostos. A Europa enfrenta hoje um desafio particularmente complexo. Pretende promover estilos de vida mais saudáveis, reforçar a sustentabilidade ambiental, preservar a competitividade da sua agricultura e garantir segurança alimentar num contexto geopolítico cada vez mais instável. Nenhum destes objetivos pode ser alcançado isoladamente.
Precisamos de uma agricultura forte, de uma indústria inovadora e de consumidores bem informados. E precisamos de políticas públicas que incentivem a inovação sem perder de vista a evidência científica.
A indústria do açúcar faz parte dessa equação até porque representa um exemplo claro da transformação que toda a indústria agroalimentar europeia está a viver.
O verdadeiro desafio já não é produzir mais. É produzir melhor. Com menor impacto ambiental. Com maior eficiência. Com mais conhecimento científico. Com maior capacidade de inovação. E com um compromisso permanente de responder às expectativas legítimas da sociedade.
É essa transformação silenciosa, exigente e muitas vezes pouco conhecida que merece fazer parte do debate público. O futuro da alimentação não dependerá apenas daquilo que produzimos, mas da forma como conseguirmos conciliar ciência, sustentabilidade, competitividade e confiança.
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