O que é que tem maior impacto negativo na imagem e na credibilidade do Governo: a novela de irregularidades e de casos mal explicados de Luís Neves ou a contínua e persistente trapalhada na organização e na correção dos exames nacionais, da responsabilidade de Fernando Alexandre?
A resposta a esta pergunta é um dos mistérios deste verão… e da correspondente silly season. Por aquilo que se tem visto, não haverá uma resposta consensual. Até porque há circunstâncias diferentes a pôr os dois governantes debaixo de fogo: enquanto Fernando Alexandre está a sofrer por causa de decisões que tomou enquanto ministro da Educação, já Luís Neves ainda não foi acusado de nada em relação às suas funções governativas. As dúvidas a seu respeito têm todas origem nos tempos em que dirigiu a Polícia Judiciária – onde, curiosamente, a sua liderança foi unanimemente elogiada, durante anos.
Há ainda outra diferença: os atos de governação de Fernando Alexandre tiveram implicações diretas em milhares de famílias. Por isso, muitos portugueses não vão esquecer-se daquilo que, nas últimas semanas, pensaram acerca de um ministro que procurou sempre desvalorizar a dimensão dos problemas e prometer que tudo se resolveria em prazos que, afinal, acabaram por não ser cumpridos. Prova disso é o facto de na última segunda-feira, em muitas escolas, ainda não terem sido afixados os resultados das últimas provas, os quais o ministro garantia que estariam todos concluídos na sexta-feira anterior. Ou seja: um procedimento que devia ser normal – os exames nacionais – foi transformado numa espécie de anomalia, sem que ninguém consiga perceber até ao momento o que se ganhou com essa mudança, que deixará sinais de desconfiança para o futuro.
Até ao momento, já os atos de Luís Neves só tiveram consequências na sua credibilidade pessoal. Mas têm alimentado muito mais a discussão na bolha mediática. E multiplicado por parte da oposição muito mais pedidos de demissão do ministro – algo que, a partir de certa altura, deixou de ser pedido em relação ao seu homólogo da Educação.
A verdade é que a discussão acerca dos “casos” de Luís Neves se assemelha cada vez mais àquilo que se costuma ver e ouvir nos programas sobre futebol. Mais do que os factos, o que está em causa é a interpretação que se tem sobre cada um. É esta uma das imagens de marca deste verão: analisar as alegadas irregularidades de Luís Neves com a mesma lupa com que se costuma discutir se a intensidade de um empurrão dentro da área deve ser punida com penálti. Ou, neste caso, com a demissão do ministro.
Em democracia, naturalmente, qualquer opinião é legítima sobre o assunto. Mas seria melhor que o debate não ficasse inquinado com o fervor que costuma acompanhar as discussões sobre futebol: se o nosso jogador cai na área é penálti, se for o da equipa contrária já não é…
A intensidade, seja numa irregularidade como numa imprudência, tem sempre importância. Mas não pode explicar tudo. Temos de saber distinguir entre a mentira descarada e o engano – até porque este, ainda por cima, pode ser corrigido. Da mesma forma, tanto na política como no desporto, devemos valorizar a honestidade de processos e condenar a batota, a corrupção e o jogo falseado. E, por isso, devemos saber distinguir entre o que é realmente importante e aquilo que será acessório.
Neste tempo particular em que vivemos, há várias perguntas que deveriam suscitar-nos reflexão, para nos ajudar a melhor analisar a realidade. E, com isso, medir a severidade com que avaliamos os “erros” de cada político. O que é mais grave: uma mentira descarada, destinada a criar uma reação alarmista na sociedade, ou uma fuga às obrigações fiscais? E o que merece maior punição: uma decisão mal ponderada, que acaba por prejudicar milhares de cidadãos, ou uma habilidade para contornar a máquina burocrática de uma organização do Estado? Voltando à “lógica do futebol”: o que merece cartão amarelo ou vermelho?
As respostas ficam com cada um. Com a intensidade que quiserem utilizar. Mas com uma certeza: as irregularidades não são todas iguais.