No início dos anos 30, quando ainda ninguém poderia conhecer o que viria a resultar do regime nacional-socialista alemão, o German American Bund promovia colónias de férias para adolescentes, com um caráter assumidamente nazi, um pouco por toda a América, onde a bandeira dos EUA era hasteada a par da bandeira com a suástica todas as manhãs. Esses acampamentos promoviam a superioridade do homem branco, eram abertamente contra a democracia e aspiravam à instalação dum regime nazi.
Nesses tempos o Ku Klux Klan dominava no sul – em 1924 entre 4 e 5 milhões de pessoas pertenciam à organização, incluindo dezenas de senadores e congressistas – e as leis da discriminação racial contavam com o apoio da maioria da população americana, que era estruturalmente racista, anti-semita e anti-imigrantes, por acreditar realmente na superioridade dos brancos e cristãos. A mensagem associava o nacionalismo cristão aos valores familiares. Henry Ford tornou-se então um dos maiores profetas antissemitas dos EUA, usando parte da sua fortuna para semear o ódio aos judeus e reforçando assim a onda anti-judaica.
A teoria pseudocientífica da Eugenia procurava provar que os caucasianos eram, de facto, uma raça superior e apontava os perigos da degeneração da raça americana. Em 1924 foi aprovada a lei Johnson Reed Act, que impunha um sistema de quotas para imigrantes vindos da Europa, pela qual cerca de 90% deles tinham que ter origem no norte europeu, isto é, brancos, pois o país tinha-se definido como uma nação branca.
Nem faltava um candidato a ditador, um alemão nacionalizado americano de nome Fritz Kuhn, que havia estado envolvido na fase inicial do partido nazi na Alemanha e no golpe de estado falhado de Hitler em 1923. Ele estava empenhado em criar um fascismo americano e entre 1936 e 1937 conseguiu uma expansão significativa da sua organização, que chegou a filiar cem mil membros.
Em 1927, o ditador Mussolini era filmado a dirigir-se aos americanos expressando a sua amizade com aquela nação, afirmando que os italianos que ali viviam estavam a trabalhar para fazer a América grande. Depois da Grande Depressão dos anos vinte, a ascensão ao poder de Hitler, em 1933, dá aos americanos inseguros uma sensação de que o fascismo e o nazismo poderiam ser boas respostas.
No final do verão de 1936, o presidente Roosevelt pediu ao chefe do FBI, Edgar Hoover, que investigasse as atividades nazis nos EUA. O FBI apresentou um relatório que apontava para a gravidade da atuação de grupos pró-nazis, mas Hoover não fez nada contra isso porque, como bom anticomunista que era, gostava da luta que os nazis davam aos comunistas.
Em 1937, dois jornalistas de Chicago de origem alemã conseguiram infiltrar-se no German American Bund, usando uma identificação falsa, e publicaram no seu jornal as loucuras do movimento, incluindo um dia especial em que se preparavam para promover uma insurreição, tomar o poder e fixar a suástica no topo do Capitólio.
O aspirante a Fuhrer germano-americano, Fritz Kuhn, acabou por cair nas malhas da lei por fraude e falsificação e evasão fiscal, devido ao facto de ter utilizado fundos da organização nazi que dirigia para pagar despesas pessoais e das suas amantes espalhadas pelo país. Foi preso em Sing Sing. Voltou à cadeia condenado, mas agora por nunca se ter registado, ao arrepio da lei. Depois do fim da guerra, o país retirou a cidadania a Kuhn e recambiou-o para a Alemanha. A organização acabou mas as ideias não. E entretanto veio Donald Trump.
O homem branco americano teve que engolir a contrariedade de ver um negro com um nome esquisito (Barak Obama) sentado na Sala Oval, mas uma mulher já seria demais (Hillary Clinton), e ainda menos uma mulher negro-asiática, isso seria o fim do mundo (Kamala Harris).
Um dos fatores de explicam o violento assalto ao Capitólio, com mortes pelo meio, é o desespero da progressiva e inexorável perda de domínio do homem branco na América, e que Trump soube interpretar e manipular muito bem com base na falsa narrativa das “eleições roubadas”. Naquele grupo de criminosos estavam supremacistas brancos, cabeças rapadas, neonazis e indivíduos que sempre foram contra o poder federal, interpretando o sentimento de parte da América profunda.
Agora, o primeiro criminoso condenado eleito como presidente do país, de seu nome Donald Trump, mandou libertar de imediato todos os insurrectos do 6 de janeiro de 2021, criminosos que vandalizaram o coração da democracia americana a seu mando. E estamos assim.
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