Esta frase do Evangelho de Mateus (24:29), repetida no de Marcos (13:24-25), poderia ser a descrição do fenómeno desta quarta-feira, em que a um eclipse se junta uma chuva de estrelas. A diferença reside na intensidade apocalíptica dos tempos de Jesus, comparada com os tempos de hoje.
Os evangelistas usam a imagem do eclipse para demonstrar o fim dos tempos, enquanto nós, dotados de uma racionalidade única, não só sabemos que no dia 12 nenhum fim dos tempos terá lugar, como até já sabemos a data do próximo eclipse.
No que respeita a apocalipses, já passámos por uma série de avisos, e seguimos em rápida jornada até ao fim, num verão de extremos e incêndios, bem ao gosto da imagética de fim dos tempos. Mas, o acontecimento astronómico em nada irá mudar as nossas práticas e políticas, ao contrário da eficácia das frases dos evangelistas, que em muito serviram para doutrinar crentes com o medo do juízo final.
Na Antiguidade, os eclipses eram uma das mais fortes imagens que um vivente poderia experienciar. Era, sem dúvida, um alarme que expressava a máxima desordem: o astro rei perdia o seu brilho, a sua luz morria, subjugada, mesmo que por momentos, pela Lua.
O primeiro eclipse que a documentação escrita nos revela teve lugar a 3 de maio de 1375 a.C., e foi observado na cidade de Ugarit, na atual Síria. A tabuinha de argila que descreve o evento refere que o eclipse durou dois minutos e sete segundos, um longo tempo em que o mundo esteve suspenso.
Mas o exemplo mais famoso é o relato bíblico de Josué (10:12-15), onde temos uma possível descrição do eclipse solar anular ocorrido em 1207 a.C., e que serviu aos historiadores para afinarem alguns detalhes cronológicos na história do Egipto.
Diz o texto, no contexto da instalação e conquista da Terra Prometida depois do êxodo do Egipto:
“Então Josué falou ao Senhor, no dia em que o Senhor deu os amorreus nas mãos dos filhos de Israel, e disse na presença dos israelitas: Sol, detém-te em Gibeom, e tu, lua, no vale de Ajalom.
E o sol se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingou de seus inimigos. Isto não está escrito no livro de Jasher? O sol, pois, se deteve no meio do céu, e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro.
E não houve dia semelhante a este, nem antes nem depois dele, ouvindo o Senhor assim a voz de um homem; porque o Senhor pelejava por Israel.
E voltou Josué, e todo o Israel com ele, ao arraial, em Gilgal.”
De resto, a Bíblia apresenta-nos mais alguns possíveis eclipses. No texto do profeta Joel (2:31), encontramos a seguinte descrição, altamente sugestiva e profundamente tenebrosa, mais uma vez associada ao fim dos tempos:
“O Sol se converterá em trevas, e a Lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor.”
Ainda em Amós (8:9), quadro semelhante é apresentado:
“Sucederá que, naquele dia, farei que o Sol se ponha ao meio-dia, e a terra se escureça em pleno dia.”
Mas não só no mundo da Bíblia, os eclipses foram notados e notáveis. Conhecido como o “eclipse assírio”, o eclipse de Bur-Sagale foi registado nos textos assírios, identificado pelos investigadores com o eclipse que ocorreu a 15 de junho de 763 a.C.
O breve texto, diz:
“[ano de] Bur-Sagale de Guzana. Revolta na cidade de Assur. No mês de Simanu, ocorreu um eclipse do sol.”
A palavra usada no original, “akallu” (“dobrado”, “torcido”, “torto”, “distorcido”, “obscurecido”), foi interpretada como referente a um eclipse solar desde as primeiras traduções do texto original.
A primeira tentativa de racionalizar um eclipse acabou por se enredar ainda mais no quadro do mito. Heródoto, tradicionalmente apontado como o “pai da História”, refere que Tales de Mileto, um dos chamados “sete sábios”, conseguiu prever o eclipse solar que teve lugar a 28 de maio de 585 a.C. Diz o historiador que o fenómeno teve lugar quando decorria uma batalha entre Medos e Lídios, tendo o temor pelo que viam conduzido os dois exércitos a uma trégua, qual presságio que deveria ser seguido e respeitado.
Devido à possibilidade de datar com precisão o evento astronómico, Isaac Asimov, um dos grandes mestres da ficção científica, afirmou que esta batalha é o primeiro evento histórico que conseguimos datar com precisão, dizendo mesmo que a previsão de Tales fora “o nascimento da ciência”.
Ironicamente, a ciência consolidou-se, repetindo o que possivelmente Tales terá feito pela primeira vez, ao prever um eclipse, mas o temor esvaneceu-se, sem que tenham lugar quaisquer tréguas. Aliás, já nem os Jogos Olímpicos para isso servem….
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.