Há poucos dias o Papa encerrou o encontro internacional da juventude franciscana em Assis, Itália, apelando à mobilização dos cristãos nas situações de injustiça social mais profunda assim como à rejeição dos preconceitos. Segundo a Agência Ecclesia, terá desafiado os milhares de participantes num encontro franciscano de jovens: “Ousai acreditar na palavra do Evangelho, tornai-vos humanos com a liberdade de Jesus Cristo.”
E acrescentou que os jovens deviam “evitar a cultura do poder” porque “derrubar os muros que separam os seres humanos uns dos outros não é, de forma alguma, trair a família, a cidade ou a tradição, mas sim libertá-las dos seus fantasmas, dos inimigos inventados pelo medo e pela ignorância, da violência com que se quer impor”.
Leão XIV alertou em Assis, sobretudo, para os verdadeiros inimigos que são inventados pelo medo e pela ignorância. E aqui o pontífice tocou no cerne da questão.
Os tiranos sempre governaram com estes dois “ajudantes”. Por um lado instilando medo sobre os seus governados, em especial o medo de penalizações derivadas das arbitrariedades do poder. Mas, nos tempos que correm, tornou-se muito comum um outro tipo de medo, o medo do que é diferente na cor de pele, cultura, língua, costumes ou religião.
Depois, e porque o medo é filho da ignorância, ambos seguem juntos, amparam-se e retroalimentam-se um ao outro. O medo é a causa de muitos erros e até há quem mate por medo.
No que toca ao povo português, é estranho como aqueles que foram os atores da primeira globalização da História, a partir deste jardim plantado à beira-mar, se vejam agora incomodados pelo diferente. A Lisboa do século XVI foi chamada um tabuleiro de xadrez, tal era a presença de tantas e tão desvairadas gentes de outras cores e regiões do mundo, que conviviam de forma ordeira na capital do império.
Além do mais, este é o mesmo povo que “deu novos mundos ao mundo”, que conviveu e se misturou durante meio milénio com gentes americanas, africanas e asiáticas, e que ainda hoje se integra sem grandes dificuldades noutras sociedades bem diferentes daquela onde nasceram.
A verdade é que o medo e a ignorância continuam a ter muita força. Mas se o primeiro resulta de fatores externos que nos podem influenciar e condicionar, já a solução para a segunda está inteiramente na mão de cada um. Basta querer aprender, conhecer e informar-se, para lá da espuma dos dias, do sensacionalismo mediático e da vertigem das redes sociais.
Afinal, os nossos verdadeiros inimigos são o medo e a ignorância, exatamente as armas preferidas dos ditadores de todos os tempos.
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