A família Delgado ia sair para comprar uma árvore de Natal. Cinco anos depois ainda está em casa. Convenhamos que já todos tivemos fins-de-semana assim, mas isto talvez seja exagero. Em A Última Casa, novo filme de Louis Leterrier para a Netflix, Ann (Greta Lee), Jason (e grande actor brasileiro Wagner Moura) e os dois filhos, Graham e Ruth — interpretados inicialmente por Noah Alexander Sosnowski e Riley Chung e, cinco anos depois, já adolescentes, por Gabriel Barbosa e Emma Ho — descobrem numa manhã chuvosa que não conseguem abrir a porta, partir uma janela ou simplesmente sair para comprar leite. Uma força misteriosa selou a casa. Os vizinhos estão na mesma situação. Não há Internet. Não há telefone. Não há Uber Eats. E, num dos pormenores mais verdadeiramente irónicos e aterradores do filme, a família parece possuir apenas dois DVD para enfrentar a eternidade. O apocalipse, percebe-se finalmente, não são os monstros. É ver Annie pela 147.ª vez.
A premissa é óptima porque começa exactamente no ponto onde ainda conseguimos imaginar-nos dentro dela. Chove. As portas não abrem. As janelas, quando alguém tenta parti-las, recompõem-se praticamente sozinhas. O telefone morreu. O Wi-Fi também. Primeiro pensamos numa avaria. Depois numa conspiração ou mesmo num apagão, o que não deixa de ser um dia possível. E a seguir pensamos em extraterrestres. Finalmente começamos a olhar para os miúdos e a calcular quantos quilos de massa e latas de conservas existem na despensa. A Última Casa transforma muito depressa o sonho imobiliário da classe média — casa bonita, jardim, cozinha equipada, grande janela para a rua — num quase T0 existencial, com a estrutura a colapsar e sem saída de emergência. E é então que Wagner Moura entra em modo ‘MacGyver doméstico’.
MacGyver, Delgado & Filhos, Lda.
Jason é engenheiro desempregado, pescador desportivo, pai de família e, aparentemente, licenciado em todas as competências necessárias para sobreviver ao fim da civilização. O homem olha para uma chaminé e não vê uma chaminé: vê um corredor logístico de abastecimento alimentar. Olha para um fio, uma tábua, um anzol e três parafusos e pensa imediatamente: jantar. Se lhe dessem um clipe, um soutien velho e uma torradeira avariada, provavelmente construía uma central hidroeléctrica. Ao fim de algum tempo já se caçam pequenos animais através da chaminé, fabrica-se equipamento, improvisam-se sistemas de sobrevivência e administra-se aquela casa como se a Protecção Civil ou os Bombeiros tivessem aberto ali uma delegação.
Ann, interpretada por Greta Lee, também não fica propriamente a ver Netflix, até porque, tragicamente e ironicamente, não há Netflix dentro do filme da Netflix: há os tais dois DVD, Air Force 1 e Annie. Cultiva alimentos, reaproveita tudo o que é reaproveitável, organiza a vida doméstica e tenta impedir que marido, filhos e sanidade mental expirem antes das conservas. O casamento transforma-se numa pequena empresa familiar chamada Delgado & Filhos, Lda., especializada em agricultura interior, gestão de resíduos, engenharia de emergência, psicologia infantil e sobrevivência contra criaturas cuja política de imigração é bastante simples: ninguém sai de casa.

Greta Lee, depois da delicadeza emocional de Vidas Passadas, e Wagner Moura, vindo de O Agente Secreto, estão muito acima do material sempre que o argumento lhes permite simplesmente serem pessoas. Funcionam especialmente bem nos momentos em que o extraordinário passa a ser rotina: jantar com aquilo que apareceu, ensinar os filhos, fingir normalidade, envelhecer, discutir, reconciliar-se e continuar. É aí que A Última Casa percebe uma coisa interessante: talvez o verdadeiro terror não seja ficar fechado três dias. É ficar fechado tempo suficiente para que o absurdo se transforme em quotidiano.
Cinco anos de confinamento, agora com monstros
Naturalmente, é impossível assistir a isto sem ouvir ao longe o fantasma do ‘lockdown’ de 2020. Confinamento, medo do exterior, notícias inexistentes, escassez, famílias transformadas em pequenas repúblicas independentes e aquela sensação de que o mundo continua algures mas ninguém sabe exactamente como. Só que a pandemia ainda permitia abrir a janela, ir ao supermercado e à farmácia. Aqui nem isso. Louis Leterrier pega na memória colectiva do confinamento e pergunta: muito bem, acharam difícil? Então experimentem cinco anos, sem Wi-Fi e com monstros no jardim.
Leterrier é, aliás, o homem certo para transformar uma avaria doméstica numa verdadeira operação da NATO. Formado cinematograficamente na escola de Luc Besson, passou por Correio de Risco e realizou Correio de Risco 2, pôs Jet Li à pancada em Danny the Dog – Força Destruidora, soltou Edward Norton em O Incrível Hulk, mandou Perseu enfrentar deuses e monstros em Confronto de Titãs, fez desaparecer bancos em Mestres da Ilusão, juntou Sacha Baron Cohen e Mark Strong em Irmãos e Espiões e acabou ao volante de Velocidade Furiosa X, onde já não havia automóveis: havia praticamente foguetões com matrícula.
Depois de passar anos a destruir cidades, Leterrier decidiu portanto destruir uma moradia arruinada. E a verdade é que a mudança de escala lhe faz bem. Durante boa parte do filme, A Última Casa funciona justamente porque troca a pirotecnia pela engenharia doméstica. A sobrevivência interessa mais do que a explicação. Como vão comer? Onde arranjam água? O que acontece quando os medicamentos acabam? Até onde se pode manter uma infância relativamente normal quando lá fora parece ter terminado a humanidade? E quantas espécies diferentes consegue Wagner Moura retirar de uma chaminé antes de aquilo começar a parecer o menu de degustação de um restaurante finório de chef?
Quando Hollywood começa a explicar tudo
O problema começa quando o filme decide que estas perguntas não chegam e sente necessidade de explicar o mistério. Hollywood sofre frequentemente desta doença: inventa uma coisa extraordinária e depois passa o último acto a estragá-la com esclarecimentos. Enquanto não sabemos o que está lá fora, tudo é possível. Quando começamos a saber, algumas possibilidades eram francamente melhores. Surgem criaturas, intenções, mensagens e uma moral ecológico-humanista que entra pela porta precisamente quando pensávamos que a porta continuava fechada.
Também a física de A Última Casa convém ser recebida com alguma generosidade cristã. As janelas regeneram-se. A casa não permite saídas mas aceita certas importações. O exterior obedece a regras que parecem ter sido discutidas numa reunião de argumento de formatos Netflix onde alguém perguntou «isto faz sentido?» e outro respondeu «desde que ninguém pense muito». É ficção científica, evidentemente, e não estamos a exigir uma inspecção da Comissão de Classificação de Espectáculos. Mas existe uma diferença entre mistério e canalização narrativa entupida.
Felizmente, Leterrier filma com energia suficiente para quase sempre nos empurrar para a cena seguinte antes de começarmos a preencher o livro de reclamações da Netflix. A Última Casa é um daqueles filmes que funciona melhor quando não tentamos ganhar-lhe uma discussão. Tem ritmo, atmosfera, algumas excelentes ideias visuais e dois actores suficientemente bons para convencer-nos de que caçar o jantar pela chaminé é uma etapa razoável da vida conjugal.
E talvez seja essa a grande graça do filme. Sob os monstros, a ficção científica e toda a geringonça apocalíptica, A Última Casa fala da velha fantasia de que uma família, se permanecer unida, consegue sobreviver a tudo. Leterrier acredita nisso, mas acrescenta algumas condições: convém que o pai seja engenheiro, a mãe saiba cultivar legumes dentro de casa, os filhos não sejam completamente insuportáveis, exista uma chaminé funcional e ninguém tenha escolhido viver num apartamento moderno com ventilação central. Não é pouco.
A Última Casa não é grande ficção científica, nem sequer tenta entrar para a história do cinema pela porta da frente, até porque a porta da frente não abre. Mas é um eficaz filme de sexta-feira à noite, suficientemente absurdo para nos divertir, suficientemente claustrofóbico para nos inquietar e suficientemente bem interpretado para sobreviver às próprias inverosimilhanças: Greta Lee e Wagner Moura, são de facto mal-empregados, para este filme. Porém, A Última Casa deixa ainda uma importante lição para o futuro da humanidade: quando chegar o apocalipse, esqueçam ouro, criptomoedas e bunkers subterrâneos. Comprem uma casa com chaminé. E façam, tanto quanto possível, amizade com um engenheiro.