O que desejamos para os nossos últimos anos de vida? Saúde certamente, mas também carinho. Não nos sentirmos sós. Sermos relevantes para a família e os amigos. Que a nossa experiência de vida conte, que a nossa companhia e os nossos conselhos tenham ainda valor. Não sermos um fardo.
Mas com famílias tão pequenas, com comunidades tão anónimas, com uma sociedade que valoriza a produtividade sobre tudo, como ser idoso no século XXI?
As empresas de tecnologia afirmam ter a resposta. Uma aplicação para lembrar a toma dos remédios, agendar consultas, medir pulsações e outros dados médicos, emitir alertas se algo foge ao padrão.
Além do apoio administrativo, aplicativos para nos mantermos cognitivamente aptos e fisicamente ativos.
E, finalmente, a oferta da disponibilidade para conversar. Da Alexa ao Copilot, do ChatGpt ao AI Companion. Múltiplas opções para proporcionar a ilusão da conexão. E aliviar a “culpa” dos filhos… dos netos… dos sobrinhos. “A avó tem uma nova amiga, gosta muito de falar com ela.” Aliás, a avó até nos mostra as mensagens que trocam e maravilhamo-nos com a paciência, a poesia, a empatia das respostas. Nunca falamos assim com os nossos filhos, pais, amigos…
De vez em quando, um (grande) susto. Um esquema de fraude, que se inicia com um SMS ou uma mensagem de WhatsApp, que, muitas vezes, não se vai a tempo de impedir.
Nos idosos, sem compromissos laborais nem horários escolares, o tempo é ilimitado e o telemóvel omnipresente.
E se desconfiamos (… sabemos) de que um ecrã não substitui um professor, um adulto ou outra criança para interagir com os nossos filhos, somos muito mais complacentes com os idosos… “estão entretidos”.
A nossa própria velhice parece-nos muito longínqua e no processo esquecemos que estamos a construir uma realidade que rapidamente iremos habitar. Que seremos nós a ocupar os nossos dias a falar com a máquina. O amigo virtual, a enfermeira e o fisioterapeuta avatar e até o neto que gostaríamos de ter e que a Google ou a Anthropic constrói para nos lembrar que somos importantes.
Prometem-nos que a Inteligência Artificial é o caminho para a longevidade, para uma velhice com saúde. Mas se isso apenas nos conferir mais horas online com uma amizade artificial, teremos, de facto, alcançado uma velhice mais recompensadora do que a dos nossos avós?
Na lista de tarefas a completar diariamente, não parece sobrar muito espaço para o outro. Dedicamos muito pouco tempo, paciência e dinheiro a construir e s dinamizar espaços intergeracionais, a promover uma vida comunitária e familiar. Investimos muito em tecnologia e pouco no outro e na promoção das relações pessoais.
Falta promovermos espaços de convívio comum, nas escolas, nos centros de dia, nas juntas de freguesia, nos clubes desportivos… e não apenas atividades segmentadas em grupos de idade, que nunca parecem ter oportunidade de cruzar caminhos entre si.
Devemos rever as nossas prioridades coletivas, para assegurar que habitaremos um futuro mais humano.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.