As famílias estão cansadas de jornadas de trabalho de oito horas que, tantas vezes, se transformam em nove, dez ou doze.
As famílias estão cansadas de correr do emprego para ir buscar os filhos à escola e de regressar a casa numa nova corrida para fazer o jantar.
As famílias estão cansadas da subida dos preços dos legumes, da fruta, da carne, do peixe… de ter de repensar diariamente as refeições com tostões na mão.
As famílias estão cansadas da instabilidade dos preços dos combustíveis, de ter de decidir se abastecem esta semana, se esperam pela próxima ou se colocam apenas os habituais vinte euros.
As famílias estão cansadas de ter de reunir adereços de outono, camisolas de Natal, abóboras, camisolas lilás e tantas outras exigências para levar para a escola.
As famílias estão cansadas de fazer contas para perceber se sobra mês no fim do salário ou salário no fim do mês.
As famílias estão cansadas de ter de perceber de taxas de juro, Euribor, spreads, indexantes, taxa fixa e taxa variável.
As famílias estão cansadas de ouvir que têm de renegociar contratos, rever mensalidades, recalcular despesas e analisar taxas de esforço.
As famílias estão cansadas de ter de ser especialistas em finanças, economia, geopolítica, saúde, nutrição, ambiente, ecologia, agricultura biológica e tecnologia.
As famílias estão cansadas de apoios a que não conseguem aceder, porque são desenhados para que apenas os especialistas os compreendam.
As famílias estão cansadas de ter de compreender greves que as deixam sem transportes, enquanto os trabalhadores lutam pelos seus direitos laborais.
As famílias estão cansadas de ter de compreender consultas desmarcadas e urgências fechadas, enquanto os médicos lutam pelos seus direitos laborais.
As famílias estão cansadas de ter de compreender greves que deixam os filhos sem aulas e sem onde ficar, enquanto os professores lutam pelos seus direitos laborais.
As famílias estão cansadas de viver em casas que não respondem às suas necessidades, enquanto outros especulam no setor imobiliário.
As famílias estão cansadas de sobreviver nos intervalos da jornada laboral. O que sobra do dia é pouco tempo. E nesse pouco tempo pede-se que se cultivem, que estejam presentes, que brinquem com qualidade, que se informem, que corram supermercados à procura dos preços mais baixos, que negoceiem com bancos, elétricas e telecomunicações, que cozinhem refeições saudáveis, que vejam séries e que façam exercício.
Pede-se ainda às famílias cansadas que não recorram à escola, porque a escola está sobrecarregada. Que não recorram ao SNS, porque também esse está sobrecarregado.
E, se possível, pede-se às famílias cansadas que não incomodem, porque assim torna-se difícil governar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.