Em vésperas da quarta edição do Book 2.0 – O Futuro da Leitura, organizada pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, onde será um dos oradores principais, Markus Dohle confessa-se ansioso por viajar até Lisboa para divulgar o “sucesso contínuo” dos mercados do livro e a importância de ler.
“Há muitas razões pelas quais podemos ser otimistas em relação ao futuro dos livros e da leitura, mas eu sou um otimista baseado em dados”, diz o fundador e antigo EO da Penguin Random House, a maior editora de livros comerciais do mundo. “Por exemplo, o mercado português era em 2025 cerca de 40% maior do que em 2019, antes da pandemia. E o interessante é que os mercados do livro atingiram um novo patamar durante a pandemia e estão a manter esse nível e a crescer a partir dele.”
Em 2026, a Inteligência Artificial não o assusta. “As oportunidades da IA superam os desafios”, afirma. “A eficiência proporcionada por ela tornará a indústria editorial mais eficiente. Estou a trabalhar com algumas empresas e penso que a IA vai ajudar-nos a reduzir o tempo de lançamento no mercado, desde a escrita da história até ao ponto de venda.”
Imagine que tem novamente 16 anos e que os seus pais lhe dão a escolher entre comprar aqueles ténis fantásticos que andava a namorar, ótimos para jogar ténis, ou um monte de livros. Qual seria a sua escolha?
[Risos] Bem, eu pediria os dois.
Era um miúdo rico. OK.
Não. Venho de uma família de classe média, e a nossa geração foi a primeira a ter a oportunidade de ir para a universidade. Mas tentaria que eles me dessem os dois, e vou explicar porquê. Em primeiro lugar, estou muito envolvido no desporto, joguei ténis e também fui treinador quando era jovem. Aliás, jogava ténis e futebol. Somos uma família muito desportista, mas também somos uma família que acredita na educação e acredita no conhecimento. Então, éramos ambiciosos a ler e a aprender, porque acreditávamos verdadeiramente nisso. Cresci numa família que queria proporcionar-nos uma ótima educação e tínhamos muitos livros em nossa casa, porque os meus pais eram membros do Clube do Livro Bertelsmann, que em Portugal seria o equivalente ao Círculo de Leitores. Então, cresci com livros e com desporto. Portanto, pediria os dois.
Mas gostava mesmo de ler nessa altura? Estou a tentar imaginá-lo aos 16 anos e não consigo vê-lo sentado a ler um livro.
[Risos] Para ser sincero, era um miúdo ambicioso na escola e nos estudos. Por isso, a resposta é: sim. Adoro Natureza, desporto, estar ao ar livre e fazer exercício, mas acreditava que, para ter uma boa vida, deveria ser ambicioso nos meus estudos, e a leitura fazia certamente parte disso.
Tinha 21 anos e andava na universidade quando o Muro de Berlim caiu. O seu mundo mudou muito nesse dia?
Esse é um daqueles dias em que nos lembramos do que fizemos. Eu estava em Estugarda por causa de um jogo de futebol com o Bayern Munique e, quando chegámos a casa, à noite, o muro caiu e a única coisa que queríamos era ir para Berlim. Para mim, foi um ponto de viragem na minha vida. Tive a sorte de crescer cem quilómetros a oeste da Cortina de Ferro, então no lado certo das coisas, no lado ocidental. Portanto, tive sorte, em primeiro lugar. Em segundo lugar, sou um fã de História e na nossa família falávamos muito sobre História e política. Então, cresci com a noção da difícil primeira metade do século XX, dos tempos sombrios e das suas consequências, como a Cortina de Ferro e o Muro de Berlim. Discutíamos muito em casa se ele caía ou não, e depois, da noite para o dia, caiu, e, sim, mudou o mundo para todos nós. O facto de ninguém ter morrido nessa noite e de ter sido uma transição pacífica foi como uma dádiva. Que milagre aconteceu nessa noite! Ficámos todos extremamente gratos.
Estava na universidade e tinha escolhido Engenharia. Nada de literatura, nada relacionado com livros. O que é que se passava na sua cabeça na altura?
[Risos] Quando era jovem, adorava ir à escola, como já disse, por isso queria ser professor, e depois só dei aulas de ténis durante a universidade. Eu era bom a Matemática, mas também noutras coisas como História, Línguas e Literatura, então queria ter uma formação muito generalista. Por isso, comecei a estudar Engenharia, fiz algumas coisas técnicas e Informática, e também estudei Economia e Gestão. Portanto, tive uma espécie de educação generalista, podemos chamar-lhe Engenharia Industrial, e depois o meu percurso profissional foi contraintuitivo em relação à minha formação.

Em nenhum momento pensou continuar como treinador de ténis?
Não, isso foi algo que começou aos 16, 17 anos, depois tirei a licença e era mais para ganhar algum dinheiro, embora gostasse de formar pessoas, de as ajudar a melhorar. É um trabalho muito honroso ser professor e preparar as crianças para a vida e torná-las melhores em diferentes coisas. Mas durante a universidade sabia que, quando entrasse na vida profissional, o meu trabalho como treinador de ténis chegaria ao fim.
Foi para a área dos livros, mas não propriamente para a edição, e quando se tornou CEO da Random House receberam-no como um outsider. Deve ter doído…
Deixe-me esclarecer as coisas. Entrei numa empresa de média diversificada, a Bertelsmann, e comecei na distribuição de livros e na cadeia de abastecimento. Geri durante oito anos a maior distribuidora de livros da Alemanha e depois fui para a impressão e a produção, que é a etapa anterior. A partir daí, fiz isso durante seis anos internacionalmente, em suma, da Rússia à Colômbia. Tinha um conglomerado de várias empresas a nível internacional, também já nos EUA. Então, disseram-me “Olha, já fizeste a distribuição e a impressão, agora podes fazer livros. Vem e damos-te a edição” e mandaram-me para Nova Iorque gerir a Random House. Era um outsider, por muitas razões. Mandaram um alemão para gerir a Random House na América e a nível global, e eu era uma espécie de engenheiro industrial, por isso viam-me como um outsider. Mas, no final de contas, percorri toda a cadeia de valor dos livros de trás para a frente: distribuição, produção, edição.
Sim, não era propriamente um recém-chegado.
Nessa altura, já tinha participado em 14 ou 15 Feiras do Livro de Frankfurt. Por isso, conhecia muito bem a indústria e o processo de publicação de livros, mas, claro, do ponto de vista operacional, não do ponto de vista criativo. Passei 14 anos na área operacional do mercado editorial e, depois, mudaram-me para o lado criativo.
Renunciou ao cargo de CEO da Random House quando o Departamento de Justiça norte-americano bloqueou a compra da Simon & Schuster. Continuar não era opção para si?
Quando saí, no final de 2022, as manchetes eram: “Foi bom enquanto durou.” Tive uma ótima experiência na Random House, que se tornou Penguin Random House em 2013, quando nos fundimos. Houve uma fusão em todo o mundo, e eu conduzi a integração pós-fusão de duas empresas globais, e tudo correu muito bem, não só para nós, mas também para os livreiros, autores e leitores. Por isso, quando a Paramount decidiu vender a Simon & Schuster em 2020, tive uma ideia muito clara de como fazer com que esta voltasse a ser um êxito para os autores, livreiros e leitores, e, com sorte, também para nós. Assim, no final de 2020, assinei o contrato para adquirir a Simon & Schuster por 2,2 mil milhões de dólares, que depois foi contestado por causa das leis antimonopólio e pelo governo. Seguiu-se uma batalha legal de dois anos até que [a compra] foi finalmente bloqueada. E, naquele momento, depois de 15 anos como CEO da Penguin Random House, era absolutamente o momento certo para eu seguir em frente. Porque era o meu negócio, porque tivemos aquele percurso maravilhoso e os meus sucessores já estavam prontos para assumir o cargo. Continuar sem a aquisição da Simon & Schuster era a coisa certa a fazer por outra pessoa. E fazem-no muito bem. A empresa está a correr bem e eu ainda estou muito próximo da Penguin Random House.
É consultor?
Sim, hoje sou consultor e investidor, ajudo muitas empresas no mercado editorial global. Além disso, trabalhei apenas para uma empresa em toda a minha vida: a Bertelsmann, durante quase 30 anos. Por isso, não quis trabalhar para mais ninguém, nem para um concorrente, porque, de certa forma, ajudei a construir a empresa que é hoje. E ela está muito bem, tenho muito orgulho nisso.
Mas as pessoas ficaram em choque quando anunciou a sua saída, e a perguntar-se “o que vai ele fazer?”
Está tudo bem, eles estão a fazer as coisas bem. Eu tinha passado 30 anos da minha vida profissional dedicado aos livros, por isso pensei que a melhor ideia para mim seria manter-me no ramo editorial. Já tinha, de certa maneira, construído uma vida em entidades do sector e também em organizações sem fins lucrativos. Trabalho para a PEN e para muitas outras em prol da liberdade de expressão. Sou orador principal, falo sobre o mercado editorial a nível global, em todo o mundo. Sou consultor de editoras e livreiros. Invisto em startups, em novas empresas do sector, também em empresas de IA no sector editorial. Então, tenho uma vida profissional maravilhosa e uma vida plena no mundo dos livros. Fiz uma transição tranquila e penso que ainda tenho muito a contribuir para o sector.
É já um cliché apontar o dedo à Inteligência Artificial, mas o Markus acredita que ela vai beneficiar a indústria do livro e não prejudicá-la. Pode elaborar? Confesso que estou um pouco desconfiada.
A indústria do livro sofreu uma transformação digital muito boa. Nas minhas conferências falo sempre em três pontos de inflexão. O primeiro foi a invenção do ecommerce. Há 30 anos, a Amazon começou por ser uma livraria e toda a gente pensava que era o fim, que ela ia destruir a indústria, mas aconteceu o contrário: a indústria beneficiou do ecommerce de muitas maneiras. Fortaleceu os negócios, as prateleiras infinitas estão a beneficiar o catálogo e os livros antigos, e, claro, ganhámos um alcance sem precedentes. Esse foi o primeiro ponto de viragem. Todos pensaram que seria negativo, mas, no final, o resultado foi extremamente positivo. Depois, há 15 anos, ou quase 20 anos, começou o boom à volta dos ebooks e dos audiolivros digitais e a reação foi a mesma. Toda a gente pensava que os livros impressos estavam a morrer e iam desaparecer para sempre. “Gutenberg está morto.” E, num cenário de desgraça e pessimismo, “os ebooks estão a dominar o mercado”, assim como os audiolivros digitais. Mas este ponto de viragem também beneficiou o mercado editorial, porque temos modelos de negócio muito estáveis e rentáveis para a distribuição digital das nossas histórias. Portanto, as editoras e a indústria do livro beneficiaram dos formatos digitais, e isso tornou o negócio mais robusto e aumentou novamente o nosso alcance. Agora, com a IA, a reação é a mesma. As pessoas dizem: “É o fim.”
As pessoas, no geral, são avessas à novidade.
Já agora, tudo começou com os jornais no século XVIII, quando as pessoas pensaram “os livros vão desaparecer”. E, depois, com a rádio, a televisão, os filmes, a internet, as redes sociais, a reação foi sempre a mesma. As pessoas declaram o fim do ecossistema do livro e da era Gutenberg, mas é o contrário: a indústria editorial sempre cresceu. Agora, as oportunidades da IA superam os desafios. A eficiência proporcionada por ela tornará a indústria editorial mais eficaz. Estou a trabalhar com algumas empresas e penso que a IA vai ajudar-nos a reduzir o tempo de lançamento no mercado, desde a escrita da história até ao ponto de venda. Só há um senão, que são os direitos de autor. Precisamos de proteger os direitos de autor e o valor das nossas histórias e dos nossos autores. Essa é, sem dúvida, uma luta importante. Temos de ter a certeza de que o valor do conteúdo, o valor da propriedade intelectual e o trabalho dos nossos autores estão a ser protegidos. Esta luta já está em curso, mas estou confiante de que teremos sucesso e que a IA terá um efeito amplamente positivo no setor. Sou um otimista em relação à IA.
Na pandemia, muitos de nós voltámos para os livros físicos, estávamos fartos de ecrãs. Mas, se calhar, o mal está feito e as pessoas já perderam a capacidade de atenção e a possibilidade de se envolverem com uma história longa, de ficção.
A maioria dos mercados do livro deu um enorme salto durante a pandemia. Por exemplo, o mercado português era em 2025 cerca de 40% maior do que em 2019, antes da pandemia. E o interessante é que os mercados atingiram um novo patamar durante a pandemia e estão a manter esse nível e a crescer a partir dele. Não perderam muito depois da pandemia e isso é muito positivo para a indústria global do livro. Quanto à capacidade de atenção, tem toda a razão, ela está sob pressão por causa do scroll infinito, das redes sociais e de tudo o resto. É por isso que ler textos longos e mergulhar em histórias de longo formato e personagens complexas é extremamente importante, sobretudo para os mais novos. E os sistemas educativos começam a compreender isso. Temos movimentos em Itália, França e noutros países onde as escolas põem as crianças a ler em silêncio durante 15, 20 minutos por dia, em papel, para reeducar a capacidade de atenção e o foco em conteúdos mais longos. Com certeza já leu que a Suécia fez marcha-atrás na utilização de dispositivos digitais na sala de aula e está a regressar ao papel.
Sim, os governos estão a tentar reverter a situação em vários países.
Ajudar a reeducar o foco e a capacidade de atenção é o principal, mas também penso que os próprios jovens começam a compreender que estarem a fazer scroll sozinhos nas redes não os vai fazê-los felizes, não vai trazer-lhes uma vida social. Vai torná-los viciados. Por isso, o que já estamos a ver é um movimento analógico e penso que é apenas o início. As pessoas estão a regressar ao papel, aos livros impressos, porque existe uma fadiga digital. As livrarias estão a passar por um renascimento, porque as pessoas querem ter novamente a experiência física de folhear livros. E há festivais literários e feiras do livro, e muitos jovens a irem a festivais de leitura – até se encontram para ler juntos em silêncio durante algumas horas, antes de irem a uma festa.
Em Portugal, temos um boom de festivais literários e eles são um sucesso porque as pessoas querem estar perto dos seus autores favoritos. Querem um autógrafo, querem ouvi-los.
Há uma tendência geral por detrás disso. As pessoas querem ter uma comunidade novamente, querem juntar-se com outras pessoas que gostam do mesmo conteúdo, história ou autor. Ler é um ato muito solitário, mas os jovens querem sentir-se parte de uma comunidade e querem fazer da leitura e dos livros um evento comunitário, porque querem ter uma vida social e conhecer pessoas com interesses semelhantes e talvez os mesmos autores favoritos. Portanto, há aqui uma tendência muito positiva a acontecer. Curiosamente, por mais estranho que possa parecer, este fenómeno de fandom [comunidade de fãs] surge muito das redes sociais por causa das conversas sobre livros, dos influencers literários e dos líderes de opinião.
Portanto, é um círculo.
De repente, o digital e as redes sociais tornaram-se um motor de marketing para os livros, é incrível. Diria que atualmente o crescimento dos livros também é impulsionado pelas redes sociais. Depois, existe concorrência com outros média, mas também funcionam como motor de marketing para os livros.
Sim, mas as editoras também estão a trabalhar nisso. Não sejamos ingénuos.
Claro. As pessoas da publicidade e do marketing tentam utilizar as redes sociais para divulgar os seus autores e os seus livros, e alguns autores também são muito bons a divulgar as suas próprias histórias e marcas. E, sim, tudo isso é ótimo para a leitura. Do que precisamos, agora, é de leituras mais longas, porque sabemos pela neurociência que elas nos tornam mais inteligentes e sabemos pela psicologia que nos tornam mais empáticos, porque nos colocamos no lugar dos outros. Precisamos disso na nossa sociedade. A sociedade precisa de livros e de leitura de longo formato, porque tem um efeito positivo nos valores humanos e na democracia.
É por essa razão que devemos “regressar às origens, regressar aos livros”, o tema do Book 2.0?
Gutenberg foi basicamente o ponto de partida da leitura, dos livros e da divulgação do conhecimento. E todos sabemos o quão profundo foi, e até os historiadores estão a dizer que a invenção da imprensa foi muito mais importante do que a invenção da internet, porque iniciou a divulgação em massa de histórias e de conhecimento no mundo. Precisamos de regressar aos livros e à leitura em formato longo, porque nos torna mais inteligentes. Constrói sinopses no nosso cérebro que nada mais cria – sobretudo ler em papel. E, mais uma vez, gosto de repetir que sabemos pela psicologia que mergulhar em personagens e histórias complexas, de uma forma profunda, e identificarmo-nos com os pontos de vista de outras pessoas durante horas e dias cria empatia e valores humanos nas pessoas. E de que mais precisamos neste mundo polarizado do que o desenvolvimento da empatia e dos valores humanos?
É sabido que o exercício da chamada leitura longa treina o pensamento crítico necessário para combater a desinformação e manter a saúde da democracia.
Sim, hoje temos provas científicas disso. Por isso, adoro a ideia de “regressar às origens, regressar aos livros”. Eles são importantes para o desenvolvimento de uma sociedade pacífica, humana e democrática. E não estou a exagerar. Acredito sinceramente que os livros podem dar um contributo significativo e muito positivo para a estabilização da democracia no planeta. A IA é apenas um ponto de viragem na nossa transformação digital; precisamos de uma sociedade que leia e aprecie os livros, porque isso faz-nos bem. Portugal tem, como já disse, um mercado 40% maior do que antes da pandemia. E penso que iniciativas como o Book 2.0 e outras do género estão realmente a ajudar a divulgar e a desenvolver uma cultura de leitura ainda melhor na sociedade, o que é muito positivo. Acredito mesmo nisso, então é uma honra ir a Lisboa apresentar o meu ponto de vista. Tenho uma visão global porque trabalho internacionalmente há muitos anos e espero poder contribuir para o sucesso da conferência. Estou ansioso por divulgar a importância dos livros e da leitura. Sou um otimista, na verdade, sou um otimista baseado em dados. Há muitas razões pelas quais podemos ser otimistas em relação ao futuro dos livros e da leitura.
Em 2022, prometeu doar pelo menos 500 mil dólares para criar um fundo, em parceria com a PEN, com o objetivo de preservar o debate aberto e defender o papel dos livros como pilar da democracia e da sociedade norte-americana. É um ativista?
Sim, luto contra a proibição de livros e sou um grande defensor da liberdade de expressão e da liberdade de escrever e de ler. Isto, claro, está sob pressão em muitas partes do nosso planeta, incluindo no mundo ocidental.
Incluindo nos EUA. O Markus ainda mora em Nova Iorque?
Moro.
OK, muito diplomático. Mas é contra a proibição e o ataque aos livros, certo?
Claro. Cresci a estudar História e não se trata apenas da proibição dos livros. Trata-se também das ameaças contra autores, jornalistas, ativistas. É algo muito perturbador e perigoso, e claramente um risco para o nosso sistema democrático, se a liberdade de escrever e de ler e a liberdade de expressão estiverem sob pressão. E estão em muitos países do mundo, infelizmente também em algumas partes do mundo ocidental. Por isso, uma parte significativa do meu tempo é dedicada à defesa da liberdade de escrever e de ler.
Há pouco, disse que ia falar sobre tendências e interrompi-o. Que tendências globais prevê para a edição de livros?
Não vejo qualquer risco estrutural para o mercado editorial. Vejo-o a crescer novamente em 2026 e não vejo qualquer sinal de que esta tendência positiva vá parar. Também vejo muitas oportunidades no Sul Global e nas economias emergentes para o livro e a leitura. A população mundial está a crescer, mas especialmente as taxas de alfabetização estão a aumentar. E, claro, temos a oportunidade, digitalmente e em formato impresso, de melhorar as nossas cadeias de abastecimento e de levar mais livros às mãos de mais leitores. Portanto, não vejo um risco estrutural. A única coisa com que precisamos de ter cuidado é com os direitos de autor.
Está a falar do facto de estarem a ser comprados livros para alimentar a IA e que depois são destruídos?
Não, mas temos, é claro, de preservar o registo dos livros e o catálogo antigo. Falava da necessidade de preservar o valor da narrativa, da propriedade intelectual, da criatividade e dos criadores das histórias que são os nossos autores. É extremamente importante. Ainda nas tendências, vejo o papel continuar a prevalecer, mesmo nos mercados emergentes ou em economias como a Índia, onde pensávamos que a transição para o digital seria demasiado rápida. Até nestas economias emergentes, o livro impresso é o formato preferido. Mas somos agnósticos em relação ao formato. E, ao contrário dos jornais, revistas e televisão, nunca tivemos receitas publicitárias, não dependemos disso. Não perdemos essas receitas porque nunca as tivemos. Por isso, também estamos protegidos nesse aspeto, uma vez que a Google, a Meta e outras não conseguiram nem tentaram obter receitas publicitárias da nossa parte.
Portanto, o mercado editorial é sólido.
Sim, porque também vejo que a tendência analógica e a fadiga digital e dos ecrãs impulsionarão as pessoas em direção aos livros, ao papel e à imersão em histórias reais. Porque, mais uma vez, os novos formatos de média tentam proporcionar uma gratificação instantânea e uma descarga de dopamina, enquanto os livros oferecem uma experiência mais profunda e transformadora que deixa as pessoas mais felizes do que simplesmente ao continuarem a fazer scroll num ecrã. Penso que veremos esta tendência analógica, e tenho muita esperança de que ela impulsione não só o crescimento do mercado e da indústria global do livro nos próximos anos e décadas, mas que também tenha um efeito muito positivo na nossa sociedade.
Última pergunta: quando os seus dois filhos eram adolescentes, se tivessem de escolher entre uns ténis fantásticos e um monte de livros, o que escolheriam?
[Risos] Ah, eles são bons leitores, e o meu filho até trabalha na indústria, mas também são muito bons em desporto. Ambos jogam bem ténis e a minha filha jogou futebol pela seleção nacional, nas categorias sub-20 e sub-17. Mas acho que, como a maçã está perto da árvore, provavelmente teriam escolhido os dois.