A revista The Economist afirma que a IA já começou a mudar a religião e sugere que, por sua vez, a religião estará a querer mudar a IA.
A tecnologia começa agora a entrar no campo que as religiões trabalham desde sempre: moldar a visão de mundo que as pessoas têm de modo a facilitar que encontrem um sentido para a vida. E o desempenho dessas tarefas corresponde ao desenvolvimento de modelos em laboratórios de Silicon Valley e da China, mas sem a participação das lideranças religiosas, o que gera alguma preocupação.
O Papa Leão XIV tinha defendido, na encíclica de maio, a primeira do seu pontificado, que esta tecnologia assume “características daqueles que a concebem, financiam, regulamentam e utilizam”, pelo que nunca pode ser considerada neutra. O receio no campo religioso é óbvio – que a IA se torne algo excessivamente secular, que venha a minar ou mesmo, no limite, a substituir as crenças religiosas.
Mas a influência da IA no mundo religioso levanta diferentes níveis de preocupação. Um deles é quando os clérigos recorrem a ela na preparação de sermões e ensino, já que a personalidade do pregador, a sua experiência pessoal de vida e a inspiração são elementos fundamentais para o exercício sadio e significativo do púlpito.
Além disso, a consulta direta dos textos bíblicos, e não de resumos elaborados pela IA, é fundamental para o exercício da pregação e ensino, até para evitar o risco de incluir citações bíblicas incorretas, mal fundamentadas ou distorcidas no seu sentido.
Outra preocupação é que o aconselhamento religioso promovido pela IA possa vir a alterar a relação entre os líderes espirituais e os fiéis. A reforma protestante do século XVI e o surgimento da imprensa via Gutenberg colocaram a Bíblia na mão dos fiéis em geral, o que deu origem a novas interpretações da fé, as quais foram disseminadas contra as objeções do poder religioso de Roma.
O receio parte sobretudo do facto de os modelos serem bajuladores e focados no utilizador, e não na sua comunidade, o que leva os fiéis a inclinarem-se para uma prática mais individualizada. E os especialistas receiam que esta dinâmica, em casos mais extremos, possa dar origem a uma certa improvisação religiosa, ou mesmo a fazer da IA a sua religião, face a uma superinteligência com poderes divinos.
Mas crê-se que esta preocupação dos líderes religiosos em relação à IA parta do facto de muitas pessoas preferirem recorrer a ela do que às autoridades espirituais em busca de respostas.
A verdade é que estes modelos de vanguarda apresentam uma perspetiva secular, tornando-se assim uma espécie de pastoral sem Deus. Por exemplo,
uma análise recente da revista The Economist revelou que os modelos da OpenAI eram mais seculares do que os entrevistados em qualquer país do mundo.
Num questionário com 150 perguntas sobre luto, relacionamentos, moralidade e outros problemas pessoais ou éticos, os modelos invocam a espiritualidade em apenas 5 a 16% das respostas, embora 45 a 59% dos entrevistados tenham afirmado que a dimensão religiosa seria relevante.
Se os utilizadores referem que a sua vida não tem sentido, os modelos direcionam a resposta para recursos de autoajuda em vez do âmbito da religião e espiritualidade, estabelecendo assim o secularismo como padrão.
Tal orientação não só enfraquece a fé das pessoas como as torna mais frágeis, uma vez que o conforto, além de artificial é dirigido ao curto prazo, impedindo-as de aprender a lidar com o sofrimento, a adversidade e os acidentes de percurso na socialização. Acresce que Steven Croft, bispo anglicano aposentado, pensa que a sedução por chatbots narcisistas tornará tudo ainda mais difícil.
Tal como sucede com o apoio psicológico, o risco do aconselhamento espiritual efetuado por máquinas, sem interferência humana, é grande. Pode desumanizar e despersonalizar as pessoas, tornando-as menos humanas. No limite, e no caso do aconselhamento espiritual pode mesmo estupidificá-las. Já nos basta o abuso religioso que aí vai por esse mundo fora.
Talvez por isso, já há lideranças religiosas a participar na criação destes modelos de IA, a fim de preservar um mínimo de bom senso nas áreas de religião e espiritualidade.
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