Pois é, pois é,
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor, o que vai dizer
Segunda-feira
Deixa-me Rir, Jorge Palma
Há uma coisa estranha no sofrimento humano: quase todos sabemos o que é sofrer, mas isso não significa que saibamos reconhecer o sofrimento dos outros.
Na verdade, conhecemos a nossa própria dor, ou seja, sabemos o que é uma noite sem sono, a angústia de uma perda, o medo de uma doença ou aquele momento em que percebemos que alguma coisa dentro de nós mudou. Contudo, quando olhamos para o sofrimento de outra pessoa, tudo se torna mais difícil.
Nesta altura, precisamos de explicações, por vezes procuramos causas, sinais, comportamentos que nos permitam compreender aquilo que estamos a ver. Ora, quando não encontramos uma explicação que julgamos para nós mesmos satisfatória, recorremos muitas vezes ao julgamento (“Mas ela tinha tudo.”; “Podia ter pedido ajuda.”; “Há pessoas em situações muito piores.”; “Não se percebe como alguém pode chegar a esse ponto.”). Todas estas frases são ouvidas com frequência, algumas nascendo da indignação, outras da perplexidade e outras ainda de uma tentativa sincera de compreender. O problema é que nenhuma delas nos dá acesso àquilo que verdadeiramente importa: a experiência interior de quem sofre.
É essa dificuldade que, de maneiras muito diferentes, os casos de Arnaud Denis e Lindsay Clancy nos colocam diante dos olhos. É certo que não são histórias equivalentes, nem podem ser colocadas no mesmo plano. Num caso, encontramos um homem que, depois de anos de doença, dor e perda de autonomia, decidiu recorrer à eutanásia na Bélgica. No outro, uma mulher acusada de matar os três filhos, cuja defesa sustenta que sofria de uma perturbação psiquiátrica grave e que, no momento dos acontecimentos, não tinha uma perceção adequada da realidade.
Há entre os dois casos uma distância enorme. Porém, ambos nos confrontam com uma questão difícil: até onde conseguimos compreender um sofrimento que não sentimos e que, muitas vezes, não conseguimos sequer ver e que não aparece no corpo?
É verdade que, quando alguém está internado, ligado a aparelhos, ou perdeu uma função física, há sinais que tornam a doença visível e, como tal, compreensível aos olhos dos outros. Já no que concerne ao sofrimento psicológico é diferente. Uma pessoa pode levantar-se, trabalhar, conversar, sorrir e, ainda assim, estar a atravessar um período de enorme desespero, decorrendo daí a extrema dificuldade em reconhecê-lo.
Existe quase uma espécie de exigência social para que o sofrimento seja visível, querendo nós que a pessoa mostre aquilo que sente de uma maneira que possamos identificar. Se não o fizer, surgem as dúvidas, mesmo quando a aparência possa ser profundamente enganadora.
Uma pessoa deprimida pode sorrir. Alguém dominado pela ansiedade pode cumprir todas as suas obrigações. Uma pessoa em sofrimento extremo pode continuar a desempenhar normalmente o seu papel profissional ou familiar. Quando finalmente deixa de conseguir fazê-lo, podemos descobrir que o sofrimento já vinha de muito antes.
Por exemplo, Arnaud Denis era ator, encenador e dramaturgo. Morreu aos 43 anos, na Bélgica, depois de recorrer à eutanásia. Segundo os relatos publicados, os seus problemas de saúde começaram depois de uma cirurgia a uma hérnia inguinal, em 2023, às quais se seguiram complicações, dores persistentes e uma perda significativa de autonomia. Ora, uma doença prolongada pode retirar muito mais do que o bem-estar físico, mas independência, trabalho, relações sociais, projetos e, em última análise, uma determinada imagem que temos de nós próprios.
Com Lindsay Clancy entramos num território diferente e particularmente perturbador. Em janeiro de 2023, em Massachusetts, os seus três filhos morreram e a própria tentou depois suicidar-se.
O caso tornou-se objeto de enorme atenção pública e de uma disputa judicial sobre o seu estado mental. Durante o julgamento, especialistas divergiram sobre o seu estado mental e sobre a questão da responsabilidade criminal. Em setembro de 2026, o júri não conseguiu chegar a uma decisão unânime.
Independentemente da conclusão jurídica, há todavia aqui uma questão que merece ser pensada para além do processo judicial: a mente humana também pode adoecer de tal maneira que a realidade deixa de ser experimentada como a conhecemos.
Uma pessoa em psicose pode estar a viver uma realidade que, para ela, possui uma coerência própria, embora essa realidade esteja profundamente afastada dos factos.
Compreender esta possibilidade não significa concluir antecipadamente sobre a responsabilidade de uma pessoa concreta mas reconhecer que certas doenças podem alterar radicalmente a perceção, o pensamento e o comportamento.
Tentar compreender o que aconteceu a Lindsay Clancy não diminui a gravidade da morte dos seus filhos, não apagando também o sofrimento do respetivo pai, nem o trauma de uma família que ficará para sempre marcada por aquela perda.
Da mesma forma, reconhecer o sofrimento de Arnaud Denis não exige que todos concordem com a sua decisão de recorrer à eutanásia.
Na realidade, muitas situações humanas não cabem numa única categoria moral. A complexidade não elimina a necessidade de justiça, mas apenas impede que esta última seja confundida com uma explicação simplista.
O sofrimento tem uma dimensão interior que não pode ser deduzida simplesmente a partir das condições exteriores e é essa dimensão que tantas vezes esquecemos.
O sofrimento mental continua a ser difícil de aceitar, apesar dos avanços da medicina e da psicologia.
Aceitamos facilmente a ideia de que alguém possa ter um problema cardíaco e precisar de tratamento. Porém, temos mais dificuldade quando a doença altera o pensamento, a perceção ou a personalidade.
Nenhuma doença grave permanece confinada ao corpo ou à mente de quem a tem.
Quando alguém perde autonomia, alguém próximo passa, frequentemente, a cuidar.
Quando uma pessoa deixa de trabalhar, a família reorganiza-se.
Contudo, se alguém entra numa crise psiquiátrica, os familiares podem passar a viver entre a preocupação, a esperança, o medo, exaustão ou a total indiferença.
No caso de Lindsay Clancy, esta realidade assume uma dimensão particularmente trágica. Patrick Clancy perdeu os três filhos e ficou também perante uma situação cuja complexidade psicológica e judicial dificilmente poderá ser resolvida por uma única explicação.
Uma pessoa pode sofrer porque perdeu a capacidade de trabalhar, porque deixou de conseguir sair de casa, porque depende de outros para tarefas simples ou porque deixou de reconhecer a pessoa que era. Pode sofrer pela perda de uma relação, pela solidão, pela vergonha ou pela sensação de inutilidade e porque deixou de conseguir imaginar um futuro diferente.
Esta última dimensão é particularmente difícil de compreender. Há, por exemplo, uma inegável diferença entre saber que existe uma saída e conseguir acreditar nela.
A prevenção começa muitas vezes pela capacidade de reconhecer aquilo que ainda não sabemos explicar, em que procurar ajuda não seja entendido como fraqueza e em que as famílias saibam que determinados sintomas exigem ajuda urgente.
Talvez, no fundo, compreender o sofrimento exija sobretudo humildade, já que não sabemos o que se passa dentro das outras pessoas, limitação que nos deveria tornar menos rápidos a julgar.
Arnaud Denis não foi apenas o homem que recorreu à eutanásia. Foi um ator, um encenador, um dramaturgo, um profissional, um amigo, um familiar. Por seu turno, Lindsay Clancy não pode ser reduzida a uma única palavra ou a um único momento. O mesmo acontece com qualquer pessoa, a qual é quase sempre maior e mais complexa do que aquilo que lhes aconteceu.
No fundo, uma sociedade mais humana talvez não seja aquela que encontra rapidamente uma explicação para todas as tragédias mas aquela que consegue permanecer diante daquilo que não entende sem deixar de ver a pessoa.
Algumas dores deixam marcas no corpo, outras mudam a mente e outras ainda roubam a autonomia, a esperança ou a identidade, permanecendo completamente invisíveis.
Ora, é precisamente por não as vermos que temos o dever de aprender a reconhecê-las.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.