Quando se ouve falar do Vírus Sincicial Respiratório (VSR), a maioria das pessoas pensa imediatamente em bebés e crianças pequenas. É compreensível. Nos últimos meses, a comunicação pública tem incidido, sobretudo, na proteção dos mais novos, sublinhando, e bem, a importância de prevenir a doença nesta população. Mas existe outra realidade que continua insuficientemente conhecida: o VSR também representa uma ameaça séria para os adultos mais velhos e para as pessoas que vivem com doenças crónicas.
Enquanto profissional de saúde, considero que esta é uma mensagem que merece chegar a mais portugueses, precisamente nesta altura do ano, quando nos aproximamos da época das infeções respiratórias.
Muitas pessoas acreditam que uma infeção por VSR será apenas mais uma constipação ou uma gripe ligeira. Infelizmente, para quem tem mais de 60 anos, doença pulmonar, doença cardíaca, diabetes, insuficiência renal ou outras condições que fragilizam o organismo, a realidade pode ser bastante diferente.
O VSR pode provocar pneumonia, insuficiência respiratória, descompensação de doenças crónicas pré-existentes e internamentos prolongados. Em muitos casos, as consequências da infeção prolongam-se muito para além da fase aguda, traduzindo-se em perda de autonomia, redução da qualidade de vida e maior vulnerabilidade a novos problemas de saúde.
Aquilo que durante anos foi sobretudo encarado como uma preocupação pediátrica é hoje reconhecido internacionalmente como um importante problema de saúde também na população adulta mais envelhecida.
Os dados portugueses ajudam-nos a perceber a dimensão do problema. O estudo ROSA, desenvolvido em Portugal e que analisou adultos hospitalizados com infeções respiratórias agudas, demonstrou que os doentes com VSR apresentavam uma mortalidade hospitalar superior à observada nos doentes com gripe, além de custos de hospitalização mais elevados e maior utilização de recursos de saúde. Os investigadores verificaram, igualmente, maior gravidade clínica e mais complicações associadas à infeção por VSR.
Estas conclusões são particularmente relevantes porque a gripe é, tradicionalmente, a infeção respiratória que mais receio gera na população adulta. No entanto, o VSR pode representar um risco igual ou até superior em determinados grupos vulneráveis.
Na prática clínica, encontramos frequentemente pessoas que desconhecem completamente esta realidade. Muitos dos meus doentes sabem que devem vacinar-se contra a gripe. Outros conhecem a importância da vacinação contra a Covid-19. No entanto, quando lhes falo do VSR, a reação mais comum continua a ser surpresa. Essa falta de conhecimento é hoje um dos principais obstáculos à prevenção.
A boa notícia é que já dispomos de ferramentas para reduzir este risco. Tal como acontece noutras doenças infecciosas preveníveis, a vacinação permite diminuir significativamente a probabilidade de doença grave e das suas consequências mais severas. Para os adultos mais velhos e para as pessoas com condições clínicas que aumentam o risco de complicações, esta proteção pode representar a diferença entre uma infeção controlável e um episódio que exige hospitalização.
É importante compreender que a vacinação não existe apenas para evitar infeções. Existe, sobretudo, para evitar as suas consequências mais graves. Quando conseguimos prevenir um internamento, uma pneumonia, uma insuficiência respiratória ou uma descompensação cardíaca, estamos a proteger muito mais do que os pulmões. Estamos a preservar autonomia, funcionalidade e qualidade de vida.Por isso, à medida que entramos em mais uma época respiratória, deixo um apelo simples. Se tem mais de 60 anos, ou se vive com uma doença crónica respiratória, cardiovascular, metabólica ou outra condição que aumente a sua vulnerabilidade, converse com o seu médico sobre o VSR e sobre as opções de prevenção atualmente disponíveis. A informação é o primeiro passo para a proteção.
Todos reconhecemos a importância de proteger os mais novos das infeções respiratórias. Mas não devemos esquecer que os nossos pais, avós, familiares e doentes mais vulneráveis, também enfrentam riscos significativos. Num país cada vez mais envelhecido, envelhecer com saúde passa inevitavelmente por investir mais na prevenção. E uma das decisões mais importantes que muitas pessoas poderão tomar antes deste inverno é informar-se sobre a sua proteção contra o VSR.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.