Já se sabe que a governação de Luís Montenegro é um penoso exemplo de como é possível degradar a confiança nas virtualidades das instituições democráticas, ao vermos o País vegetar com uma liderança que se arrasta com uma limitada legitimidade democrática meramente formal, pela degradação dos padrões éticos exigidos para o exercício de funções públicas com um primeiro-ministro patrocinado por empresas amigas e uma visão estratégica que não vai além da sobrevivência dia a dia.
Estamos perante uma crise energética, e potencialmente económica global, num quadro marcado pelos acrescidos riscos para a segurança europeia e de esmagamento do espaço de competitividade europeu entre a agressividade da arrogância americana e o renascimento do gigante chinês.
Como ameaças de médio e longo prazo, estamos confrontados com um inverno demográfico que poderá conduzir, mesmo com a mitigação de danos resultante da imigração, a um envelhecimento acelerado e a um declínio súbito da população em idade ativa e pelas consequências dramáticas das alterações climáticas e do aquecimento global.
Se juntarmos a tudo isto a dimensão de incerteza provocada pela emergência de rompante de uma IA, que vem alterar radicalmente o mundo do trabalho e lança ameaças apocalípticas à própria sobrevivência da humanidade, vemos como é, por estes tempos, quase heróica a capacidade de ter uma visão otimista do mundo e das nossas vidas.
Perante tudo isto, temos um Governo isolado, que não procura soluções e só pensa em perdurar até umas próximas eleições. Pelo meio, tenta iludir o impacto social e económico da crise energética, assiste impávido à desconstrução do Ministério da Educação e prepara novas medidas de fragilização do mercado de arrendamento, mesmo na semana em que as novas rendas aumentam 10,2%, e ultrapassaram a média nacional de 10 euros/m2 e o limiar dos 20 euros/m2 nos apartamentos T0/T1 em Lisboa.
Neste quadro dececionante, a ministra Graça Carvalho, apesar da inconsequência de algumas das suas medidas, tem sido um oásis de preocupação com a sustentabilidade coletiva, para além dos resultados das sondagem da semana e da excitação com a espuma dos dias mediática.
Lançou, o ano passado, uma cruzada impopular entre os potentados do turismo “exclusivo” e do imobiliário de luxo, que se quer protegido dos pobres e remediados, pela defesa do direito popular à fruição das praias e pela defesa do domínio público marítimo, que é de todos.
Promoveu um programa de acesso simples para apoiar a substituição de fogões, fornos e esquentadores antigos a gás por aparelhos elétricos com maior eficiência energética. Tem prosseguido, mesmo com alguns solavancos orçamentais, os programas de apoio à instalação de janelas amigas do ambiente, de compra de veículos elétricos com abate de carros antigos e de instalação de painéis solares domésticos.
Lançou o debate sobre um Plano de Localização Simplificada de Energias Renováveis Eólicas e Fotovoltaicas, que veio estabelecer disciplina na anárquica instalação em áreas rurais de plantações extensivas de painéis solares sem qualquer vantagem para a economia local.
A versão final do “Plano de Aceleração” moderou significativamente as zonas de instalação prioritárias, estabeleceu limites máximos de ocupação do território municipal e estabeleceu uma participação local nas receitas geradas pelos parques de energia solar.
O Programa “Agua que Une” prevê 5 mil milhões de euros de investimento na salvaguarda deste recurso fundamental, dando prioridade à limitação das perdas, à poupança de recursos e à reutilização das águas residuais. São estabelecidas ações especiais vocacionadas para áreas críticas como o abastecimento do Algarve, a prevenção da desertificação do Alentejo ou as necessidades do polo industrial e tecnológico de Sines, mas foram travadas as barbaridades de fazer transvases do Douro e do Tejo para alimentar plantações extensivas ou campos de golfe do sul do País.
Mas foram dois temas recentes que vieram reforçar a solidariedade que é devida para com Graça Carvalho, tanto como provocaram a indignação troglodita do inefável Carlos Moedas e do partido zombie CDS.
Estamos a falar da reação indignada do edil alfacinha ao destapar da pobreza extrema pelo programa de reciclagem Volta e a negação das preocupações com os riscos da escassez de combustíveis por parte de João Almeida perante is ponderados apelos à poupança de consumos feitos por Graça Carvalho.
Podemos discutir se o Volta não criou mais uma taxinha encoberta ou se foi bem preparado, sobretudo para a restauração. Mas Carlos Moedas, que não tem qualquer alternativa para oferecer em matéria de incentivos à reciclagem e é incapaz de uma gestão competente da recolha do lixo em Lisboa, ficou furioso, não com a sujeira nas zonas turísticas , a selvajaria do trânsito ou o ruído dos aviões na Portela, mas sim com o aparecimento à luz do dia de uma pobreza escondida que descobriu na recolha de garrafas e latas, pagas a 10 cêntimos cada, uma nova fonte de rendimentos para combater a miséria extrema.
As reservas de jet fuel para a aviação estão em mínimos históricos, em França existem já graves problemas de abastecimento de gasóleo e gasolina, mas em Portugal apesar do aumento do preço do gasóleo em quase 60 cêntimos por litro, e da gasolina em cerca de 40 cêntimos, os consumos continuam a subir contrariando as mais elementares leis do mercado sobre oferta e procura.
Receoso do povo motorizado, Montenegro não fez nada desde o início da guerra do Irão para promover o uso dos transportes públicos, ou estimular apoupança de energia, e tem apenas gerido expetativas sobre os níveis de subsidiação dos combustíveis fósseis. Os apelos contidos de Graça Carvalho à poupança e a uma coordenação europeia que liberte o Governo de tomar sozinho decisões difíceis estão no nível mínimo de sensatez, mas provocaram uma rara clivagem na coligação PSD/CDS e declarações exasperadas de comentadores de direita como os gurus do Observador.
Por ser uma reserva de clarividência e sustentabilidade numa governação aturdida pelas ameaças eleitorais, e pela irritação causada em Moedas e no CDS, Graça Carvalho merece o prémio Laranja Doce da verdade ambiental.
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