Há uma pergunta que raramente fazemos quando pensamos no nosso futuro: será que estamos a envelhecer à velocidade que seria de esperar ou estaremos a antecipar perdas de saúde que poderiam surgir muito mais tarde?
Habitualmente, associamos o envelhecimento àquilo que conseguimos observar. As primeiras rugas, os cabelos brancos, as alterações da pele ou as mudanças na nossa aparência física.
Mas o envelhecimento mais importante é, muitas vezes, aquele que não conseguimos ver ao espelho.
Acontece silenciosamente nos músculos, nos vasos sanguíneos, no metabolismo e nas nossas células. Pode manifestar-se através de uma perda progressiva de força, de alterações metabólicas, de menor resistência física ou de uma capacidade de recuperação que já não é a mesma.
E, frequentemente, aceitamos estas mudanças sem as questionar.
Afinal, estamos a envelhecer. É natural, não é?
Nem sempre.
É precisamente aqui que precisamos de distinguir duas realidades: as alterações associadas ao processo natural de envelhecimento e aquelas que podem ser agravadas ou antecipadas por doenças, fatores ambientais e estilos de vida.
A idade que consta no nosso documento de identificação não conta toda a história.
Duas pessoas, a mesma idade. Dois envelhecimentos diferentes.
Todos conhecemos pessoas com a mesma idade que parecem viver realidades completamente distintas.
Uma tem 65 anos e mantém uma vida ativa, autonomia e energia para realizar as atividades de que gosta. Outra, com a mesma idade, apresenta limitações físicas ou convive com várias doenças crónicas.
Esta diferença não se explica apenas pelos hábitos. A genética, as condições socioeconómicas, o ambiente, o acesso aos cuidados de saúde e a própria história clínica também influenciam profundamente a forma como envelhecemos. Mas ilustra um conceito importante: a distinção entre idade cronológica e idade biológica.
A primeira corresponde ao número de anos que vivemos. A segunda procura representar o estado de envelhecimento do nosso organismo.
Nos últimos anos, a investigação tem desenvolvido ferramentas que procuram estimar a idade biológica através de diferentes indicadores, incluindo alterações epigenéticas, parâmetros metabólicos e marcadores inflamatórios.
Os chamados relógios biológicos representam uma área promissora da investigação. Contudo, ainda apresentam limitações importantes: diferentes métodos podem produzir resultados distintos e a sua utilização clínica individual exige maior validação.
Por outras palavras, ainda não existe um exame capaz de nos dizer, com absoluta precisão, a verdadeira idade biológica de uma pessoa.
Mas já sabemos bastante sobre os fatores que influenciam a saúde ao longo do envelhecimento.
O que estamos a aceitar como inevitável?
Esta é, talvez, a reflexão que mais gostaria de provocar.
Quantas vezes ouvimos alguém dizer que já não consegue fazer determinada atividade porque está a envelhecer?
Que deixou de caminhar porque se cansa facilmente. Que perdeu força porque já passou dos 50. Que dorme mal porque a idade não perdoa.
O problema é que, quando atribuímos automaticamente todas estas alterações à idade, podemos deixar de investigar causas tratáveis ou de procurar formas de preservar as nossas capacidades.
O envelhecimento provoca alterações fisiológicas reais. Mas o sedentarismo, as doenças crónicas, a alimentação inadequada e outros fatores podem contribuir para agravar algumas dessas perdas.
A massa muscular é um excelente exemplo.
Ao longo da vida adulta, podemos perder progressivamente músculo e força. Contudo, o treino de resistência constitui uma intervenção importante para preservar ambas as capacidades, mesmo em idades avançadas.
A Organização Mundial da Saúde recomenda atividades de fortalecimento muscular pelo menos duas vezes por semana, além da atividade aeróbica regular. Para as pessoas mais velhas, recomenda também exercícios que trabalhem o equilíbrio e a capacidade funcional.
E porque é isto tão importante?
Porque o músculo não serve apenas para produzir movimento. É fundamental para o metabolismo, a estabilidade, a capacidade de recuperação e a autonomia.
Perder força não significa apenas levantar menos peso no ginásio. Pode significar, mais tarde, deixar de conseguir levantar-se de uma cadeira, transportar as compras ou subir escadas sem ajuda.
É esta perda de capacidade que precisamos de procurar prevenir.
Os sinais que merecem a nossa atenção
Talvez seja altura de começarmos a observar a nossa saúde com outros olhos.
Não para vivermos permanentemente preocupados com o envelhecimento, mas para reconhecermos alterações que justificam atenção.
A diminuição progressiva da capacidade física, a perda de força, o cansaço persistente, as alterações significativas do sono ou a dificuldade crescente em realizar atividades habituais não devem ser automaticamente atribuídos à idade.
Também não significam, isoladamente, que estamos a envelhecer biologicamente mais depressa.
São motivos para avaliar a nossa saúde, identificar possíveis causas e perceber que intervenções podem ser necessárias.
A investigação sobre o envelhecimento tem identificado relações entre determinados padrões de disfunção metabólica, alterações cardiovasculares, inflamação e trajetórias de envelhecimento menos favoráveis. No entanto, estas associações não permitem prever individualmente o futuro de cada pessoa.
O que podemos fazer é utilizar o conhecimento científico para cuidar melhor da saúde que temos hoje.
E se começássemos a pensar no futuro de outra forma?
Quando pergunto às pessoas como gostariam de viver daqui a vinte ou trinta anos, raramente me respondem que querem simplesmente ter menos rugas. Querem viajar. Caminhar. Estar com a família. Continuar independentes. Ter clareza mental. Fazer escolhas. Querem viver.
E é precisamente aqui que precisamos de mudar a nossa relação com o envelhecimento.
Talvez estejamos demasiado preocupados em acrescentar anos à vida e ainda pouco empenhados em preservar a capacidade de desfrutar desses anos.
Não precisamos de esperar pelos primeiros sinais de perda funcional para começar.
A atividade física regular, o treino de força, uma alimentação equilibrada, o sono adequado, a prevenção e o acompanhamento das doenças crónicas são componentes fundamentais da promoção da saúde ao longo da vida.
Não são estratégias que garantam uma determinada idade biológica. São escolhas que contribuem para reduzir riscos e preservar capacidades.
E há algo particularmente interessante nesta perspetiva: os benefícios não estão reservados a quem começou cedo.
Independentemente da idade, é possível encontrar oportunidades de melhoria, respeitando naturalmente as condições de saúde e as capacidades individuais.
O nosso ponto de partida não tem de determinar todos os passos seguintes.
A pergunta que realmente importa
Talvez a grande questão não seja descobrir se temos biologicamente 45, 50 ou 60 anos. Talvez seja perceber como estamos a utilizar os anos que temos. Estamos a preservar a nossa força? Estamos a cuidar da saúde cardiovascular? Estamos a manter o cérebro ativo, a cultivar relações e a criar oportunidades de recuperação? Estamos atentos aos sinais que o organismo nos transmite ou continuamos a atribuir tudo à idade?
Envelhecer é um privilégio que nem todos têm a oportunidade de experimentar. Mas envelhecer com saúde exige também atenção às condições em que vivemos e às oportunidades que temos para cuidar de nós.
Não podemos controlar todos os fatores que determinam o nosso envelhecimento. Podemos, contudo, intervir em alguns deles e procurar preservar aquilo que mais importa: a nossa capacidade de continuar a viver com autonomia, participação e qualidade de vida.
E termino com uma pergunta, sobretudo para os leitores que escolheram este tema:
Se pudesse conhecer hoje a pessoa que será daqui a vinte anos, será que ela lhe agradeceria a forma como está a cuidar de si?
Porque talvez o verdadeiro desafio da longevidade não seja impedir que os anos passem. É evitar que a nossa capacidade de viver se perca antes do tempo.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.