De 23 a 30 de setembro, comemoramos a semana europeia do Desporto. Durante oito dias, o País mexe-se. Há caminhadas, corridas, aulas abertas, demonstrações de modalidades, atividades nas escolas, iniciativas para seniores, eventos nos parques e fotografias nas redes sociais. Municípios, clubes, associações e outras instituições juntam-se à Semana Europeia do Desporto e repetem uma mensagem simples: #BeActive.
É uma boa mensagem. Mas há uma pergunta que raramente fazemos: e nos outros 357 dias do ano?
A Semana Europeia do Desporto, criada pela Comissão Europeia em 2015, realiza-se anualmente entre 23 e 30 de setembro. A dimensão que alcançou merece reconhecimento. Só em 2025 envolveu mais de 1,5 milhões de participantes, em mais de 1.300 atividades, com mais de mil entidades parceiras.
São números impressionantes. Mas o verdadeiro sucesso de uma política pública de atividade física não se mede pelo número de participantes numa semana.
Promover atividade física não é organizar eventos durante uma semana. É criar condições, oportunidades e hábitos para que a população se mantenha ativa durante todo o ano.
E é precisamente aí que temos de ser mais exigentes.
A própria Semana Europeia do Desporto não foi criada para concentrarmos a atividade física em oito dias. O seu propósito é promover o desporto e a atividade física e incentivar estilos de vida ativos ao longo de todo o ano.
E os dados mais recentes deveriam obrigar-nos a refletir. De acordo com o Eurobarómetro Especial 574 — Desporto e Atividade Física, divulgado pela Comissão Europeia em setembro de 2026, 68% dos inquiridos em Portugal afirmam nunca praticar exercício ou desporto. É o valor mais elevado da União Europeia e está muito acima da média europeia, que se situa nos 39 por cento.
Em Portugal, apenas 4% dos inquiridos afirmam praticar exercício ou desporto quase diariamente e 24% várias vezes por semana.
Há uma evolução positiva relativamente a 2022: a percentagem dos que afirmavam nunca praticar exercício ou desporto desceu de 73% para 68%, enquanto aqueles que o fazem várias vezes por semana aumentaram de 18% para 24 por cento.
Mas continuamos no último lugar da União Europeia neste indicador.
E mesmo quando alargamos a análise à atividade física realizada fora do contexto desportivo, como caminhar, utilizar a bicicleta nas deslocações, dançar ou fazer jardinagem. 51% dos inquiridos portugueses afirmam nunca realizar este tipo de atividade, quando a média da União Europeia é de 18 por cento.
Estes números tornam ainda mais pertinente discutir aquilo que fazemos durante a Semana Europeia do Desporto.
Porque não estamos perante uma questão meramente desportiva. Promover a atividade física é promover saúde, autonomia, qualidade de vida, bem-estar e participação social.
É neste ponto que considero necessário questionar a forma como algumas instituições, incluindo muitos municípios, olham para a Semana Europeia do Desporto.
Não porque organizem atividades a mais. Mas porque, demasiadas vezes, confundimos eventos com políticas públicas.
Uma caminhada com centenas de participantes é positiva. Uma aula num jardim é ótima. Abrir gratuitamente uma piscina ou permitir que crianças experimentem diferentes modalidades é excelente.
Mas uma sucessão de eventos, por mais bem organizada que seja, não constitui por si só uma política de promoção da atividade física.
Política pública é continuidade. É garantir que uma criança encontra uma modalidade que pode praticar na escola ou depois da escola. É permitir que um sénior tenha atividade física orientada regularmente e perto de casa. É assegurar que uma pessoa com deficiência encontra instalações e programas verdadeiramente acessíveis. É criar parques, percursos pedonais e cicláveis que convidem ao movimento. É apoiar os clubes para que possam acolher mais praticantes. É diminuir barreiras económicas que afastam famílias da prática desportiva.
E é também perceber que promover atividade física é muito mais do que promover desporto federado.
Há milhares de cidadãos que nunca entrarão num clube, nunca participarão numa competição e nunca se considerarão desportistas. Mas podem caminhar, correr, andar de bicicleta, nadar, dançar ou simplesmente integrar mais movimento no seu quotidiano.
É também para eles que as políticas públicas devem ser desenhadas.
Por isso, proponho quatro mudanças na forma como os municípios encaram esta matéria.
Primeiro: medir resultados e não apenas participações.
Precisamos de saber quantos munícipes praticam atividade física regularmente, quais as faixas etárias mais sedentárias, onde estão as maiores desigualdades territoriais, quantas crianças abandonam a prática desportiva na adolescência ou quantos seniores participam regularmente em programas de atividade física.
Contar participantes num evento é fácil. Difícil é saber se essas pessoas continuam ativas seis meses depois.
Segundo: criar um Plano Municipal de Atividade Física para 365 dias.
A atividade física deve atravessar as políticas municipais de desporto, saúde, educação, urbanismo, mobilidade, juventude e envelhecimento. Um passeio pedonal seguro, uma ciclovia funcional, um parque acessível ou um recreio escolar que estimule o movimento também são políticas de promoção da atividade física.
Terceiro: utilizar a Semana Europeia do Desporto como porta de entrada, e não como ponto de chegada.
Quem experimenta uma modalidade em setembro deveria saber imediatamente onde pode continuar a praticá-la em outubro. Cada atividade experimental poderia estar ligada a uma oportunidade regular: num clube, numa associação, numa instalação municipal ou num programa comunitário.
O indicador relevante deixaria de ser apenas “quantas pessoas participaram?” e passaria a incluir “quantas continuaram?”
Quarto: prestar contas publicamente.
Porque não publicar anualmente um conjunto simples de indicadores municipais de atividade física?
Prática por grupos etários, participação de crianças e jovens, prática sénior, inclusão de pessoas com deficiência, utilização das instalações municipais, distribuição territorial da oferta, investimento municipal e evolução dos principais indicadores.
Isso permitiria identificar problemas, estabelecer objetivos e avaliar resultados.
A Semana Europeia do Desporto poderia tornar-se precisamente o momento em que cada município apresenta esse balanço à sua população e assume compromissos para o ano seguinte.
Talvez seja esse o próximo passo que precisamos de dar.
Continuemos a organizar caminhadas, corridas, aulas abertas e demonstrações. Continuemos a encher parques e pavilhões durante a Semana Europeia do Desporto. Mas não confundamos visibilidade com impacto. Quando as faixas forem retiradas, os palcos desmontados e as publicações nas redes sociais desaparecerem, começa a verdadeira avaliação de uma política pública de atividade física.
O sucesso da Semana Europeia do Desporto não deveria ser conseguir que milhares de pessoas se mexam durante oito dias. Deveria ser conseguir que cada vez mais pessoas se mexam nos outros 357.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.