Há decisões que sabemos que temos de tomar, mas que continuam sucessivamente adiadas. Rever o crédito à habitação, renegociar um contrato, constituir uma poupança, comparar um seguro, tratar de uma dívida ou começar a preparar um objetivo financeiro são exemplos de decisões que, apesar de importantes, raramente parecem urgentes.
E é precisamente aí que está o problema.
Confundimos aquilo que não é urgente com aquilo que não é importante.
Enquanto a prestação continua a ser paga, o contrato continua válido e a conta bancária continua a ter dinheiro no final do mês, é fácil concluir que não há razão para mexer. O pensamento é simples: “quando tiver tempo, vejo isso”, “para o mês trato disso”, “agora não vale a pena complicar” ou, talvez a mais perigosa de todas, “se está tudo a funcionar, mais vale não mexer”.
O problema é que as decisões financeiras adiadas não ficam paradas à nossa espera. A realidade continua a mudar enquanto nós esperamos.
Imagine uma família que tem um crédito à habitação contratado há alguns anos e que nunca mais analisou as condições. O crédito continua a ser pago todos os meses, mas, entretanto, os rendimentos aumentaram, o perfil financeiro da família melhorou e o mercado de crédito mudou. É perfeitamente possível que existam hoje condições mais interessantes, seja através de uma renegociação, seja através de uma transferência, seja pela revisão de outros custos associados ao financiamento.
Se essa análise tivesse sido feita há dois anos e permitisse poupar 70 euros por mês, o adiamento dessa decisão já teria custado 1.680 euros.
Não houve uma multa. Não apareceu uma fatura extraordinária. Ninguém cobrou diretamente esse dinheiro.
Foi simplesmente o preço de não decidir. Adiar também é decidir
Esta é uma ideia que merece ser levada a sério: quando decidimos não analisar, não comparar ou não agir, estamos também a tomar uma decisão. Estamos a decidir manter exatamente aquilo que temos.
Imagine alguém que paga 90 euros por mês por um conjunto de serviços, seguros e subscrições que nunca mais reviu. Se conseguir reduzir esse valor para 65 euros, libertará 25 euros por mês. Parece pouco. Mas são 300 euros por ano.
Se a revisão for sucessivamente adiada durante cinco anos, estamos a falar de 1.500 euros que poderiam ter ficado disponíveis para poupar, amortizar dívida ou simplesmente aumentar a margem financeira.
É por isso que o custo do adiamento é particularmente difícil de perceber: não aparece numa fatura com a indicação “custo de não ter decidido”. Está escondido nos pequenos valores que continuam a sair da conta todos os meses.
Porque é que fazemos isto?
A resposta não está apenas na falta de organização. Muitas vezes, adiamos porque determinadas decisões financeiras provocam desconforto.
Rever um crédito significa olhar para uma dívida de longo prazo. Comparar seguros implica perceber coberturas e exclusões que nem sempre dominamos. Analisar despesas obriga-nos, por vezes, a reconhecer que estamos a gastar dinheiro de uma forma que já não faz sentido. E começar a poupar pode obrigar-nos a admitir que, até agora, não temos conseguido criar a margem que gostaríamos.
É mais fácil não mexer.
Há também uma questão comportamental importante: o benefício de uma boa decisão financeira costuma ser futuro, enquanto o esforço para a tomar é imediato.
Comparar dois seguros pode exigir uma hora de trabalho hoje para poupar 20 euros por mês durante vários anos. Rever um crédito pode implicar reunir documentação, fazer simulações e comparar propostas. Constituir uma poupança significa retirar dinheiro do consumo presente para proteger uma necessidade futura que esperamos nunca ter.
O nosso cérebro tende a valorizar mais aquilo que pode obter agora do que aquilo que poderá ganhar mais tarde.
É por isso que a decisão consciente precisa, muitas vezes, de contrariar a decisão mais confortável.
O adiamento também pode tornar a decisão mais difícil
Existe ainda um efeito particularmente perigoso: quanto mais tempo deixamos passar, mais difícil pode ser recuperar margem de manobra.
Imagine uma pessoa que começa a trabalhar aos 30 anos e decide que vai começar a poupar “quando tiver mais estabilidade”. Aos 35, surgem novas despesas. Aos 40, os filhos, a casa e os créditos ocupam grande parte do orçamento. Aos 45, começa a pensar na reforma.
Em nenhum destes momentos houve necessariamente uma decisão errada. Houve uma sucessão de adiamentos.
Se tivesse começado com 100 euros por mês aos 30 anos, teria colocado de lado 1.200 euros por ano. Em dez anos seriam 12.000 euros, sem considerar qualquer remuneração. Começar aos 40 não torna a poupança impossível, mas significa que o tempo disponível para construir essa reserva é menor e que será necessário um esforço maior para atingir o mesmo objetivo.
O mesmo princípio aplica-se ao crédito, aos seguros, aos contratos e a praticamente todas as decisões financeiras.
O tempo pode trabalhar a nosso favor, mas também pode trabalhar contra nós.
Nem todas as decisões têm de ser grandes
Talvez uma das melhores formas de combater esta tendência seja deixar de pensar que precisamos de “resolver as nossas finanças” de uma só vez. Não precisamos. Podemos começar por uma decisão.
Escolher um crédito e verificar as condições atuais. Pegar num seguro e perceber exatamente o que estamos a pagar. Analisar os últimos três meses de extratos e identificar uma despesa recorrente que já não faz sentido. Definir uma transferência automática de 50 ou 100 euros para uma conta de poupança.
Uma decisão pequena pode não transformar imediatamente a situação financeira de uma família, mas pode criar algo mais importante: o hábito de decidir em vez de adiar.
E esse hábito acumula-se.
Hoje revê-se um seguro. No próximo mês analisa-se um crédito. Depois ajusta-se uma despesa. Mais tarde aumenta-se a poupança.
Não se trata de viver permanentemente preocupado com o dinheiro. Trata-se de não deixar que o dinheiro seja gerido exclusivamente pela inércia.
O que pode fazer hoje?
Se existe uma decisão financeira que está a adiar há algum tempo, não tente resolver tudo hoje. Faça apenas o primeiro movimento.
- Se é um crédito, procure o contrato e veja qual é o spread, o tipo de taxa, o prazo e os restantes custos associados.
- Se é um seguro, confirme quanto paga e, sobretudo, o que está efetivamente coberto.
- Se é a poupança, defina um valor possível e coloque-o de parte quando recebe o rendimento, em vez de esperar pelo final do mês.
- Se são despesas recorrentes, reveja os últimos extratos e procure aquilo que continua a ser pago sem que já exista uma verdadeira decisão por trás dessa despesa.
Não precisa de saber imediatamente qual é a melhor solução. Precisa de começar por procurar a informação que lhe permita decidir.
Porque uma das maiores barreiras à boa gestão financeira não é a falta de dinheiro. É a ausência de ação sobre aquilo que já sabemos que deveríamos analisar.
Ter finanças com cabeça também significa isto: não esperar que uma decisão se torne urgente para começar a tratá-la como importante.
Quanto mais cedo analisamos, mais possibilidades temos. Quanto mais tarde decidimos, mais provável é termos de reagir às circunstâncias em vez de escolher entre alternativas.
E talvez a pergunta que devêssemos fazer com maior frequência não seja “posso deixar isto para amanhã?”, mas sim “quanto me pode custar deixar isto para amanhã?”
Porque, quando falamos de dinheiro, o adiamento raramente é gratuito.
No próximo artigo vamos olhar para uma consequência ainda mais básica desse adiamento: o desconhecimento financeiro. Há pessoas que sabem exatamente quanto recebem, mas não sabem quanto gastam; sabem o valor da prestação da casa, mas desconhecem o custo total do crédito; sabem quanto pagam pelo seguro, mas não sabem exatamente o que está coberto.
E isso levanta uma pergunta que pode ser mais incómoda do que parece: “Quanto custa não saber quanto custa?”
Porque não podemos tomar boas decisões sobre aquilo que não conhecemos.
Fale connosco
Dúvidas, comentários ou sugestões de temas para a rubrica Finanças com cabeça podem ser enviados para nuno.godinho@rede.doutorfinancas.pt