A maioria das famílias resolve os problemas à mesa da ceia de Natal. Liam e Noel Gallagher dos Oasis, precisaram de 16 anos, uma digressão mundial esgotada, milhões de pessoas a cantar Wonderwall, doze concertos em três continentes, uma equipa de cinema e, imagino, alguns advogados, empresários e contabilistas bastante pacientes. Cada família escolhe a terapia que pode. Oasis: Don’t Look Back in Anger, apresentado fora de competição na 83.ª Mostra de Veneza e com estreia nas salas portuguesas já na próxima quinta-feira, 10 de setembro, antes de chegar ao Disney+, é evidentemente um filme sobre o regresso dos Oasis. Mas é sobretudo sobre a história de dois irmãos que passaram anos sem conseguirem permanecer no mesmo espaço e agora têm de reaprender uma coisa aparentemente simples: estar ao lado um do outro, sobretudo em palco. Os realizadores Dylan Southern e Will Lovelace perceberam que o verdadeiro espetáculo não estava apenas no palco. Estava também nos centímetros que separavam Liam de Noel.
Primeiro tocar. Depois logo se vê se somos irmãos
A reconciliação começa como seria de esperar numa família Gallagher: praticamente sem reconciliação. Nos primeiros ensaios não há lágrimas, discursos sobre o sangue falar mais alto nem Liam a correr em câmara lenta para os braços de Noel. Felizmente. Isso seria um outro filme dos Oasis produzido pelo Canal Panda. A banda já está num grande armazém, Noel comanda as operações e Liam chega depois, sem grandes manifestações de fraternidade. Trabalham e mantêm a distância prudente de quem conhece demasiado bem o historial do outro. Não parecem zangados, mas também não estão propriamente ansiosos por recuperar os almoços de família perdidos. Durante algum tempo parecem apenas dois profissionais contratados para a mesma digressão.
Mesmo quando caminham para o palco no primeiro concerto, seguem separados. Só imediatamente antes de entrarem se aproximam, de mãos dadas ou com um braço sobre o outro. É quase preciso chegar ao palco, precisamente ao lugar onde sempre funcionaram melhor juntos, para a distância começar a desaparecer. Depois entram. E dezenas de milhares de pessoas fazem o resto.
Terapia familiar em digressão
É talvez a coisa mais bonita do filme: a digressão não se limita a celebrar uma reconciliação. Parece estar a construí-la. Concerto após concerto, alguma coisa muda. Primeiro um toque, um olhar, um sorriso. Depois chegam os abraços e esses abraços vão ficando mais demorados, mais espontâneos, mais quentes. Aparecem beijos. A linguagem corporal deixa aos poucos de parecer a de dois países que acabaram de assinar um cessar-fogo supervisionado pelas Nações Unidas. No início, Liam e Noel parecem ter concordado em voltar aos Oasis. No fim, começamos a acreditar que talvez tenham decidido voltar também um pouco um ao outro. Claro que este é um documentário autorizado sobre uma reunião milionária. Ninguém pode estar à espera de ver o grande Frederick Wiseman (1930-2026) escondido com uma câmara atrás de um amplificador, a fazer um documentário observacional. Este filme vende literalmente o regresso, o mito, a nostalgia, o concerto, a Adidas e, o streaming. Mas há coisas difíceis de fabricar por completo, e uma delas é a transformação gradual de dois homens que começam por evitar-se e acabam naturalmente próximos.
Os irmãos separaram-se. Os hinos não
Depois há as canções, e aí o filme tem uma vantagem quase indecente de nos reavivá-las: Rock ’n’ Roll Star, Supersonic, Live Forever, Morning Glory, Wonderwall, Champagne Supernova ou Don’t Look Back in Anger deixaram há muito de pertencer apenas aos Oasis. Pertencem a quem tinha vinte anos em 1995, aos filhos dessa geração e aos miúdos que descobriram a banda décadas depois no Spotify. Nos estádios estão cinquentões que durante duas horas voltam aos vinte anos ao lado de adolescentes que nem sequer eram projeto quando os Oasis se separaram. Durante 15 anos, Liam e Noel não falaram, mas as canções falaram por eles. Live Forever resume bem a passagem do tempo. Em 1994, era a magnífica arrogância de jovens convencidos de que seriam eternos. Hoje é cantada por gente que entretanto teve filhos, casamentos, divórcios, hipotecas, cabelos brancos e joelhos menos cooperantes. Aos cinquenta, “live forever” deixa de ser bravata juvenil e transforma-se num pedido perfeitamente razoável e num grito de mais que uma geração.
Finalmente no mesmo enquadramento
O documentário guarda para o fim aquilo que parecia ainda mais improvável do que a reunião musical: Noel e Liam sentados juntos a falar. Momentos de uma pequena entrevista conjunta em mais de vinte anos que se torna no verdadeiro clímax de Don’t Look Back in Anger. Concertos dos Oasis há milhares na internet. O que não víamos eram aqueles dois homens capazes de conversar sem utilizar jornais, redes sociais, guitarras ou advogados como intermediários. É aí que aparece o melhor filme dentro do filme-concerto: não uma banda que regressa, mas dois irmãos que envelheceram o suficiente para perceber que há guerras que começam a parecer ridículas quando já duram mais do que muitos casamentos. Sem exageros. Continuam a ser Liam e Noel Gallagher e seria profundamente dececionante vê-los agora discutir inteligência emocional e técnicas de respiração, quando também há muito dinheiro em jogo, evidentemente. Convém não romantizar excessivamente o capitalismo. Mas o título do documentário, acaba por dizer tudo. Uma banda cuja mitologia foi alimentada por ressentimentos regressa com um filme chamado Don’t Look Back in Anger e passa 122 minutos precisamente a olhar para trás. Só que agora com bastante menos raiva. Southern e Lovelace não fizeram a investigação definitiva sobre os Oasis. Fizeram algo mais brilhante e, afinal, bastante mais comovente: registaram uma mudança. Começamos com dois irmãos que parecem tolerar-se porque há uma série de concertos para realizar. Terminamos com dois homens que se abraçam, se beijam, riem e, finalmente, falam juntos. Talvez a música não cure tudo. Mas num estádio, pelos vistos, ajuda bastante: curou os músicos e os espectadores. E os Oasis, de facto, nunca foram apenas uma banda. Foram uma discussão familiar amplificada para milhões de pessoas. Desta vez, surpreendentemente, ninguém partiu a guitarra.
Oasis: Hinos, pandeiretas e uma guerra de 15 anos
Os Oasis nasceram em Manchester em 1991 e rapidamente se comportaram como se os Beatles tivessem acabado apenas para lhes deixar o lugar livre. Liam tinha a voz, o andar e a insolência; Noel tinha as canções e a certeza de saber como tudo devia soar bem. A combinação era explosiva, musical e familiarmente. Definitely Maybe (1994) e (What’s the Story) Morning Glory? (1995) transformaram-nos num dos grandes fenómenos dos anos 90. Supersonic, Live Forever, Some Might Say, Wonderwall, Don’t Look Back in Anger e Champagne Supernova sobreviveram ao Britpop e chegaram a novas gerações. Knebworth, em 1996, com 250 mil espectadores em duas noites, confirmou a dimensão do fenómeno. Só havia um problema: Liam e Noel conseguiam transformar qualquer divergência numa guerra civil. Houve álcool, atrasos, egos, insultos, uma pandeireta na cabeça de Noel, um taco de críquete e guitarras utilizadas para fins que certamente não constavam do manual do fabricante. O fim chegou a 28 de agosto de 2009, nos bastidores do Rock en Seine, perto de Paris. Depois de nova discussão, Noel saiu da banda e começaram 15 anos de carreiras separadas e um campeonato mundial de insultos públicos. Até agosto de 2024, quando aconteceu o improvável: anunciaram o regresso. Porquê? Idade, tempo, algum ressentimento finalmente gasto e, evidentemente, uma oportunidade comercial gigantesca. Mas talvez também porque, enquanto passaram 15 anos a provar que não precisavam um do outro, milhões de pessoas continuaram diariamente a ouvir aquilo que tinham feito juntos. Separados podiam continuar a ter boas carreiras. Juntos continuavam a ser os Oasis.