Quando, há quase dois meses, umas senhoras resolveram almoçar em Sintra, Portugal travou uma grande batalha cultural. Sobre o assunto escreveram ou falaram o Expresso, o Público, o Diário de Notícias, o DN Brasil, o Observador, a SIC Notícias, a RTP, a Rádio Renascença, o Correio da Manhã, o Notícias ao Minuto, a Executive Digest, o Polígrafo, a Euronews, a Folha de S. Paulo, a MAGG, o The Intelligent, o 7MARGENS, o Hora H, o Atlantic Lisbon, o Diário de Odivelas e o Notícias que Contam. O Expresso, não inteiramente satisfeito, dedicou-lhes ainda um episódio do Expresso da Manhã, artigos de opinião e, naturalmente, Ricardo Araújo Pereira.
Entretanto pronunciaram-se ministros, eurodeputados, antigos deputados, pastores evangélicos, feministas, conservadores, cronistas de esquerda, cronistas de direita e, finalmente, pessoas preocupadas com o facto de todas as anteriores estarem a falar delas. Delas, isto é, das senhoras.
O movimento ainda não foi lançado. Parece que será em Novembro. É obra: nunca, em tão pouco tempo, tão poucas mulheres, tão pouco conhecidas, fizeram tão pouco para dar tanto trabalho.
Eu próprio, que, segundo me dizem, sou conservador, não faço ideia de quem seja a maior parte das comensais. Nem exactamente o que pretendem — embora quando souber, suspeite que me sentirei confirmado. Pelo que tenho lido, também mais ninguém sabe. Mas sabe-se o mais importante: ameaçam a igualdade, importam a polarização americana, trazem consigo a agenda evangélica brasileira, não perceberam nada do Roger Scruton e, possivelmente, radicalizam a democracia portuguesa.
O conservadorismo aceitável em Portugal é uma coisa delicadíssima. Pode desconfiar-se da revolução, mas se a revolução estiver longe do centro de Lisboa. Pode falar-se da família, mas sem entusiasmo. Da religião, desde que devidamente arrumada na pasta do património. Da diferença entre homens e mulheres, desde que seja para concluir que nenhuma diferença interessa particularmente para o caso. E da imigração, desde que se comece por esclarecer que a imigração é indispensável. Feitas estas declarações preliminares, pode então o cidadão prosseguir para conservar à vontade.
Há, além disso, dois pecados sociais que são tramados de perdoar em Portugal e que neste almoço eram demasiado ostensivos para sobreviverem à falta de assunto do mês de Agosto: ser-se demasiado brasileiro e demasiado evangélico. O Brasil que nos agrada tem boa música e boa literatura. O outro chega-nos com menor facilidade ao coração. Cá se vai aceitando a ideia de pluralidade religiosa, mas custa habituarmo-nos à circunstância desagradável de as religiões diferentes do catolicismo não terem obrigação de ser politicamente progressistas.
Mas há ainda um terceiro problema, e esse é letal: o Chega. A febre é tanta que, neste momento, a vida portuguesa passou a fazer uso do chegómetro: um extraordinário instrumento que serve para indicar a distância a que o cidadão está do Partido Chega. Não lhe chamam assim, claro; chamam-lhe outras coisas: razoabilidade, moderação, Polígrafo SIC, etc. Mas só depois de descoberta a distância, somos livres de formar opinião. No caso de Sintra, como havia gente do Chega a almoçar, o ponteiro bateu no vermelho e o bacalhau ficou logo estragado.
Adolfo Mesquita Nunes, por exemplo, acha muito bem que as mulheres se associem, mas receia a radicalização. Lídia Pereira não quer levar a discussão para um plano binário, mas avisa que aquelas mulheres não compreenderam a “essência do conservadorismo”. Margarida Balseiro Lopes declarou-se feminista e explicou que o que continua a fazer falta são feministas mais activas.
A frase de Lídia Pereira é particularmente inspiradora. O movimento ainda está numa fase tão embrionária que a própria eurodeputada reconhece não conseguir identificar exactamente o que ele é. Consegue, no entanto, identificar aquilo que não é: conservador.
Tem uma certa razão. Um grupo de mulheres conservadoras nunca se chamaria “Mulheres Conservadoras”. Parece uma associação fundada por alguém que acabou de descobrir que é possível ser mulher e conservadora ao mesmo tempo e decidiu comunicar a descoberta ao mundo. Há qualquer coisa de excessivamente literal, quase enternecedor, na coisa. Tendo em conta o contingente brasileiro do grupo, é natural essa jovialidade tão pouco portuguesa.
Claro que se fossem mulheres conservadoras a sério, teriam escolhido uma designação mais contida, e a coisa ter-se-ia dado, por exemplo, no Grémio Literário. Ou então tinham ficado em casa que é o lugar predilecto de qualquer conservador, seja homem ou mulher. É que, para um conservador, nunca é sem alguma dose de embaraço que anuncia a sua circunstância ideológica. Também por isso, a desfaçatez novo-mundista de se apresentarem precisamente com o nome que não deveriam usar é o que mais me faz simpatizar com elas.
É possível que as Mulheres Conservadoras venham a defender disparates. É possível, também, que importem ideias brasileiras que não façam qualquer sentido em Portugal. E é até possível que a frase “ser conservadora é querer conservar o que é bom” mereça a troça que recebeu.
Mas, até agora, o disparate mais interessante está na dimensão da reacção ao pouco que disseram. E isso é uma coisa que ninguém lhes pode tirar. Para todos os efeitos, o grupo de senhoras que escolheu Sintra para almoçar deu um contributo valioso para uma causa que, segundo me garantem há muitos anos, preocupa profundamente todas as instituições, partidos e associações que se prezem: aumentar a visibilidade das mulheres na vida pública. Pelos resultados das últimas semanas, começaram muitíssimo bem.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.