O escândalo no exame de acesso à Universidade de Medicina, na Índia, terá sido o primeiro momento na criação do movimento civil autodenominado “Baratas” (na sequência de o presidente do Supremo Tribunal de Justiça assim se referir aos jovens desempregados), mas foi apenas um evento que uniu a sociedade num problema transversal. A economia indiana mostra-se incapaz de criar postos de trabalho em número bastante, e o desemprego jovem, no segmento dos que têm um diploma universitário, atingiu 29,4% em 2025. A dimensão do protesto faz vacilar a hegemonia do primeiro-ministro, Narendra Modi, e do seu Partido Bharatiya Janata Party.
Mas o problema do desemprego jovem não é exclusivo da Índia, e lá, como no Ocidente, irá provavelmente agravar-se, pondo em causa o contrato social implícito de que uma formação académica é o caminho para a estabilidade profissional e financeira.
Entre os que continuam a insistir que a Inteligência Artificial não tem impacto no emprego, apenas tornando todos os trabalhadores mais produtivos, e os que prometem um futuro que consideram “radioso” de abundância ilimitada e onde cada um de nós apenas terá um hobby, a realidade avizinha-se mais complexa.
Se na Revolução Industrial foram necessários mais de 100 anos para reorganizar a sociedade e recuperar o nível médio de remuneração dos trabalhadores, vivendo-se um período de enorme desigualdade e precariedade, é natural que perante o impacto transformativo da Inteligência Artificial, sejam cada vez mais aqueles que temem o futuro, sobretudo quando os líderes políticos parecem olimpicamente ignorar o tema.
Com a globalização do comércio, os grandes choques foram sob a forma de fábricas encerradas, que devastavam comunidades locais. Ora, a ameaça não é uma deslocalização para um país com salários mais baixos. É transversal. Chega ao nosso computador pessoal, disposta a ajudar-nos e, rapidamente, a substituir-nos no trabalho cognitivo. A ameaça não vem de barco, atravessando o Mediterrâneo, ou a fronteira do Texas, com risco de vida. É adquirida pelas empresas para melhorar processos, aumentar a produtividade e impor o seu conhecimento ilimitado, até nos tornarmos supérfluos. Os mais jovens já estão a senti-lo. Qual o incentivo económico para contratar (ou contratar o mesmo número de) juniores ou estagiários, se o tipo de tarefas pode agora ser realizado por LLM, especialmente treinados em áreas como contabilidade, direito, medicina e outras? Qual o incentivo para manter call centers, se grande parte dos problemas pode ser resolvida por uma chatbox, que faz agendamentos ou responde a dúvidas, 24 horas por dia, sete dias por semana?
Sentimos a evolução tecnológica como inevitável, imparável e, perante a ausência do tema no discurso político, procuramos controlar a ansiedade lembrando os erros que a máquina ainda faz.
É, no mínimo, negligente discutir o Código do Trabalho e o regime da Segurança Social sem reconhecer o impacto da Inteligência Artificial. Sem aceitar que sem um esforço internacional para fasear a sua introdução, seremos, não daqui a umas décadas, mas já, confrontados com uma realidade em que as empresas não têm incentivos para contratar jovens sem experiência, ainda que com um diploma. Em que os currículos universitários não se adaptaram para assegurar a formação prática, que as empresas não estarão interessadas em (ou não terão condições de viabilidade financeira para) proporcionar. Em que um número crescente de pessoas, que ainda não atingiram a idade de reforma, se tornará obsoleto, substituídas por agentes que se apropriam de tarefas administrativas, mas também cognitivas. Que nem todos seremos facilmente capazes de nos adaptar a um eventual novo trabalho e assegurar o mesmo nível de remuneração (e satisfação pessoal).
A desigualdade social e a perturbação social e política serão inevitáveis, se ignorarmos a necessidade de planear a mudança. É essencial na discussão da regulação do mercado de trabalho e do financiamento da Segurança Social centrar o discurso nos desafios do presente, e nenhum é mais relevante do que a Inteligência Artificial.
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