Paul Schrader não precisa de assassinos em série, extraterrestres, bombas, perseguições de automóveis nem sequer de grandes orçamentos para fazer filmes. Dêem-lhe um homem, uma cadeira, um quarto, um caderno — desta vez nem o caderno é absolutamente indispensável — e, sobretudo, uma culpa suficientemente pesada, e ele arranja maneira de nos deixar incomodados durante hora e meia. Curiosamente, quase sempre com aquela sua precisão dos 90 minutos: nem mais nem menos. Aos 80 anos, idade em que seria perfeitamente legítimo dedicar-se a retrospetivas, homenagens e a explicar aos jovens como se fazia cinema quando ainda havia película, Schrader aparece no terceiro dia da Mostra de Veneza com The Basics of Philosophy e faz uma das coisas que melhor sabe: encosta um homem à parede da própria consciência e fica a ver quanto tempo ele aguenta sem fugir.
Apresentado Fora de Competição, precisamente com 94 minutos e fotografia de Sean Price Williams, o filme chega ainda a Veneza com Martin Scorsese como produtor executivo. E não há aqui um Schrader a experimentar uma nova pele, mas um argumentista e cineasta veterano a regressar obsessivamente ao mesmo território para descobrir que, afinal, ainda não acabou de o escavar.
Um homem respeitável com culpa na consciência
John Jorissen, interpretado por um extraordinariamente contido Jack Huston, é professor de Filosofia numa pequena universidade do Midwest. Ensina, escreve um livro sobre o filósofo Espinosa, vive uma relação sentimental civilizada com Becca (Sofia Boutella), também professora, e mantém com Willie, o filho adolescente dela, aquela prudente proximidade de quem talvez esteja prestes a formar uma família. É inteligente, educado, rigoroso, funcional. Em resumo: exatamente o género de homem que Paul Schrader adora começar a desmontar. Porque Jorissen esconde uma história.
A morte do pai, Melvyn (Bill Pullman), homem respeitado, rico e poderoso, traz ao funeral Miguel Vasque (Daniel Zovatto), um jovem ligado a um episódio do passado que a família tentou resolver da maneira mais americana possível: com dinheiro, silêncio e a esperança de que o tempo funcionasse como lavandaria moral. Não funcionou. Quando era mais novo, Jorissen cometeu um abuso sexual sobre Miguel, então adolescente; o pai tratou depois de comprar uma espécie de acordo informal, pagando a educação do rapaz em troca do desaparecimento do problema. Décadas mais tarde, o problema regressa. E tem rosto. A partir daqui, The Basics of Philosophy poderia transformar-se num drama convencional sobre denúncia, punição e ajuste de contas. Schrader faz precisamente o contrário. A questão não é saber se Jorissen fez o que fez. Sabemos que fez. A questão é muito mais complexa: o que fazemos com um homem que praticou um ato imperdoável, sabe que o praticou, vive há anos esmagado por ele e talvez tenha mudado? É aí que entra Espinosa. E é aí que o filme deixa de ser apenas um drama sobre culpa para se transformar num excelente duelo entre filosofia e consciência.
Pode um homem mudar? Perguntem a Espinosa
Schrader nunca foi propriamente um cineasta interessado em personagens felizes. Uma personagem feliz, no seu cinema, duraria talvez sete minutos antes de começar a escrever um diário, beber demasiado, olhar para uma arma ou descobrir que Deus afinal não existe. De Travis Bickle, em Taxi Driver, a Ernst Toller de No Coração da Escuridão, passando pelo jogador William Tell de The Card Counter: O Jogador ou pelo ex-neonazi Narvel Roth de O Mestre Jardineiro, há sempre alguém que fez alguma coisa, pensa fazer alguma coisa ou está convencido de que deveria pagar por alguma coisa. Jorissen é a nova versão desse arquétipo a que o próprio Schrader chama o “homem no quarto”: profissionalmente competente, emocionalmente isolado e condenado a viver com a voz que lhe fala quando todas as outras se calam. Só que agora essa voz chama-se Baruch Espinosa. Num dos momentos conceptualmente mais deliciosos do filme, Jorissen confronta-se com o filósofo e com a questão central: podem as pessoas mudar? A resposta de Espinosa é devastadoramente simples: o homem é produto das circunstâncias, a liberdade é muito menos livre do que gostamos de imaginar. Jorissen agarra-se ao livre-arbítrio porque, evidentemente, precisa dele. Sem livre-arbítrio não pode ter mudado; e, se não mudou, toda a arquitetura moral que construiu para conseguir sobreviver desaba. E depois aparece uma segunda questão, talvez ainda pior: mesmo admitindo que alguém possa mudar, tem direito a ser perdoado? Schrader é suficientemente inteligente para não responder. E suficientemente cruel para nos deixar a pergunta no ar.
Jack Huston, finalmente no centro da sala
Jack Huston, ator que passou por Ben-Hur e pela televisão de Boardwalk Empire, encontra aqui aquilo que a carreira lhe devia há demasiado tempo: um grande papel principal. Schrader percebeu que precisava de um ator capaz de transformar repressão em espetáculo sem transformar a personagem num espetáculo. Huston faz quase tudo por subtração. Um olhar que demora um segundo a mais, uma frase que sai excessivamente controlada, um corpo que parece permanentemente ocupado a impedir que alguma coisa transborde. É uma interpretação extraordinária precisamente porque Jorissen não pode pedir a simpatia do espectador. E Huston nem sequer tenta consegui-la. Melhor ainda. Sofia Boutella, (Kingsman: Serviços Secretos e A Múmia), dá a Becca uma autonomia fundamental: não é a habitual mulher cinematográfica colocada ao lado do pecador para lhe distribuir compreensão e absolvição em doses domésticas. Daniel Zovatto é igualmente forte enquanto Miguel Vasque, sobretudo porque Schrader lhe recusa a função fácil de vítima destinada apenas a facilitar o arco dramático do protagonista. Bill Pullman, inesquecível presidente americano de O Dia da Independência, representa outra forma de pecado: a geração que acreditava que dinheiro, poder e boas intenções conseguiam transformar crimes em assuntos encerrados. Dana Delany, Sheryl Lee Ralph e Nathaniel Rateliff completam um elenco que Schrader utiliza sem gordura, e Richard Gere surge brevemente, quase como uma pequena assinatura afetiva entre velhos cúmplices. Gere foi o rosto que transformou American Gigolo num dos filmes definidores do início da carreira do realizador e regressou recentemente ao seu universo em Oh, Canada. Não é preciso fazer muito mais. Às vezes, uma aparição basta para convocar 46 anos de cinema.
E há Martin Scorsese
Não realiza, não escreve, não aparece. Mas está lá como produtor executivo, repetindo a função que já desempenhara em The Card Counter: O Jogador. Schrader escreveu para Scorsese Taxi Driver, O Touro Enraivecido e A Última Tentação de Cristo; cinquenta anos depois, os dois continuam a conversar através dos mesmos temas — pecado, culpa, violência, fé, redenção — como dois cineastas que passaram uma vida inteira a descobrir que o cinema talvez seja a melhor igreja para quem prefere fazer perguntas a ouvir sermões. Schrader contou que Scorsese viu The Basics of Philosophy, gostou particularmente do filme e aceitou associar-se ao projeto. Talvez não seja coincidência que este seja também um dos Schrader recentes em que a violência física quase desaparece. A batalha acontece dentro da cabeça de Jorissen. A ameaça mais terrível não é uma arma: é a possibilidade de construir uma vida nova em cima de um passado que continua vivo. E Schrader guarda para o final uma imagem extraordinariamente ambígua. Um casamento deveria significar futuro, recomeço, promessa. Aqui transforma-se numa espécie de tribunal sem juiz. Há um homem diante de uma criança, uma memória que regressa e alguns segundos a mais num olhar. Só isso. Mas nesses segundos cabe o filme inteiro.
The Basics of Philosophy é cinema moral sem moralismo, filosofia sem aula magistral e provocação sem essa mania muito contemporânea de nos explicar exatamente aquilo que devemos pensar. Schrader não absolve Jorissen, mas também não permite que o espectador saia da sala confortavelmente satisfeito por o ter condenado. Aos 80 anos, continua a fazer uma coisa cada vez mais fora de moda: confia na nossa inteligência. E deixa-nos com uma pergunta que talvez Espinosa tenha respondido demasiado depressa. Pode um homem mudar? Schrader passa 94 minutos a dizer-nos que não sabe e nós também ficamos sem saber.
PAUL SCHRADER | 80 anos, uma vida inteira a discutir com Deus
Paul Schrader nasceu em Grand Rapids, Michigan, em 1946, no interior de uma família calvinista tão rigorosa que o futuro argumentista de Taxi Driver cresceu praticamente proibido de ver cinema. Talvez esteja aí uma das grandes ironias da história cultural americana: impediram-no de ir ao cinema e ele acabou por passar cinquenta anos a fazê-lo. Chegou aos filmes pela crítica e pela teoria. Estudou cinema na UCLA, teve em Pauline Kael uma importante mentora intelectual e publicou, em 1972, Transcendental Style in Film: Ozu, Bresson, Dreyer, livro fundamental onde procurava perceber como aqueles cineastas utilizavam a austeridade formal para chegar ao espiritual. Esse triângulo — transcendência, culpa e desejo — nunca mais o abandonou.
Depois veio Hollywood. Escreveu Taxi Driver (1976) para Martin Scorsese e Travis Bickle tornou-se o primeiro exemplar perfeito daquilo a que hoje chama o seu “homem no quarto”: solitário, obsessivo, escondido atrás da profissão e convencido de que escrever talvez impeça a cabeça de explodir. Seguiram-se para Scorsese O Touro Enraivecido e A Última Tentação de Cristo.
Como realizador, Schrader construiu uma carreira irregular, fascinante e frequentemente muito melhor do que a respetiva reputação comercial sugere. Fez American Gigolo, com Richard Gere; Mishima, provavelmente a sua obra formalmente mais deslumbrante; O Rapto de Patty Hearst; Auto Focus; e depois conheceu uma extraordinária segunda juventude com No Coração da Escuridão, The Card Counter: O Jogador e O Mestre Jardineiro. O primeiro valeu-lhe, aos 71 anos, a primeira nomeação ao Oscar de Melhor Argumento Original. Veneza entregou-lhe o Leão de Ouro de Carreira em 2022.
A diferença é que Schrader deixou praticamente de fingir que quer fazer cinema comercial. Reduziu orçamentos, ganhou independência e transformou a economia digital numa forma de liberdade: filmes baratos, atores importantes, grandes festivais e produtores suficientemente sensatos para não lhe perguntarem onde está a perseguição de automóveis. Aos 80 anos não parece minimamente interessado em despedidas. Tem novos projetos preparados e continua a escrever, filmar, provocar e discutir publicamente quase tudo: cinema, política, inteligência artificial, religião ou Hollywood. Mas, por baixo do provocador, continua provavelmente o rapaz calvinista de Michigan a discutir consigo próprio, com Deus e com a possibilidade da redenção. O homem mudou? Depois de The Basics of Philosophy, seria imprudente perguntar-lhe.