Tony Gatlif morreu e o cinema europeu ficou, de facto, por algumas horas, excessivamente mais certinho e bem-comportado. Perdeu aquele cineasta que parecia desconfiar de tudo o que viesse devidamente engomado, legitimado, institucionalizado e acompanhado pelo cartão de visita de uma organização político-administrativa ou de cooperação internacional. Chamava-se verdadeiramente Michel Dahmani, nasceu em Argel em 1948, filho de pai cabila e mãe cigana, viveu na rua, passou por casas de correção, descobriu Michel Simon, o teatro e, finalmente, o cinema. Não foi propriamente o percurso recomendado pela La Fémis, a principal escola pública de cinema de França, em Paris. Gatlif é um auto-didata e passou a vida a filmar precisamente aqueles a quem as boas sociedades recomendam que não façam muito barulho nem se agitem demasiado.
Fez mais de duas dezenas de filmes e, durante meio século, recusou transformar os ciganos em decoração exótica ou simplesmente num bando de delinquentes e ladrões, para que espectadores burgueses ou as chamadas “pessoas de bem” pudessem sair da sala convencidos de que tinham conhecido “outras culturas” ou identificado mais um dos males da sociedade. Em Latcho Drom, a música viajava da Índia à Andaluzia sem precisar de um professor a explicar-nos aquilo que devíamos sentir. Em O Estrangeiro Louco, Romain Duris atravessava a Roménia atrás de uma voz e acabava, como geralmente acontece no cinema de Gatlif, por encontrar muito mais do que procurava. Em Vengo, o flamenco abandonava os postais turísticos da Andaluzia e regressava ao lugar de onde nunca devia ter saído: a carne, a pobreza, a raiva e a festa. E em Exílios, que lhe valeu o Prémio de Realização em Cannes, em 2004, o regresso à Argélia transformava-se numa viagem física, política e quase xamânica.
Gatlif filmava com os ouvidos. Para ele, uma guitarra, umas palmas, as rodas de um carro, passos no chão ou um corpo a dançar podiam dizer mais sobre a História da Europa do que vinte minutos de diálogo explicativo de um consagrado historiador ou de um político europeu. Chamava à música cigana a expressão da revolta de uma diáspora obrigada a sobreviver. E talvez aí esteja a chave de tudo: o seu cinema não pedia compaixão, exigia presença. Não queria que olhássemos para as suas personagens como quem observa uma espécie protegida atrás de um vidro. Queria meter-nos no meio delas.
Foi também um cineasta irregular, felizmente. Há realizadores tão impecavelmente coerentes que apetece verificar se ainda têm pulsação. Gatlif podia exagerar, derrapar, tornar-se lírico quando talvez bastasse ficar quieto. Mas mesmo o seu pior excesso tinha sangue e alma. E poucos realizadores europeus conseguiram, durante tanto tempo, falar de imigração, racismo, exílio, identidade e perseguição sem transformar os filmes num relatório destinado à sede da União Europeia, em Bruxelas, ou ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo.
O seu último filme foi Ange, de 2025, estreado em Portugal a 23 de Julho deste ano, com Arthur H — o cantautor francês Arthur Higelin fora do palco —, Suzanne Aubert, Maria de Medeiros e Mathieu Amalric. Uma viagem de um músico envelhecido à procura de um velho amigo e, inevitavelmente, de alguma coisa parecida com felicidade. Cannes mostrara-o em 2025 no Cinéma de la Plage; Portugal recebeu-o poucas semanas antes da morte do realizador. Há despedidas que o cinema escreve sem saber que está a escrevê-las.
A notícia da morte chegou também aqui ao Lido, em plena 83.ª Mostra de Veneza, e foi sentida nas sessões oficiais da tarde. Fez sentido. Gatlif nunca foi exatamente um homem de cerimónias, mas merecia aquele instante coletivo de silêncio. Morreu em Arles, aos 77 anos, quando preparava ainda outro filme, um projeto histórico. A família despediu-se desejando-lhe “latcho drom”: boa viagem.
É provavelmente a expressão mais certa para o seu desaparecimento. Tony Gatlif passou a vida inteira em viagem. Entre Argel e Paris, a Camarga e a Roménia, o flamenco e o jazz manouche, Cannes e as estradas onde ninguém pede passes nem passaportes. Agora partiu outra vez, por uma estrada mais longínqua. O problema é que, desta vez, não levará uma câmara consigo. Que pena.