Um festival pode escolher um artista pelo talento, pela popularidade ou pelo prestígio internacional. É legítimo. Mas há escolhas que deixam de poder ser apresentadas apenas como escolhas artísticas, porque dizem muito sobre o que estamos dispostos a normalizar.
É por isso que a escolha de Jerry Seinfeld como cabeça de cartaz do MEO Commedia a La Carte Fest, que se realiza em Lisboa, entre 29 de outubro e 1 de novembro, merece ser discutida.
Seinfeld vai atuar na MEO Arena no dia 1 de novembro, naquela que é anunciada como a sua primeira atuação ao vivo em Portugal. Não é um nome perdido num cartaz com dezenas de artistas. É o grande nome internacional escolhido para apresentar esta primeira edição.
E quem escolheu?
O festival foi criado pelos Commedia a La Carte, o grupo formado por César Mourão, Carlos M. Cunha e Gustavo Miranda, e é co-produzido pela Last Tour e pela Aquele Abraço, com apresentação da MEO.
Pergunto: por que razão consideraram que Jerry Seinfeld era o artista que queriam colocar no centro do festival?
Jerry Seinfeld é um dos comediantes mais conhecidos do mundo mas é também uma figura pública que assumiu posições políticas muito claras relativamente a Israel e à Palestina.
Em 2018, durante uma viagem a Israel com a família, visitou a Caliber 3, uma academia de treino militar situada junto a Efrat, na Cisjordânia ocupada. A visita incluiu treino de tiro e a própria instituição publicou imagens de Seinfeld e da família, acompanhadas de armamento e de uma referência a “muito sionismo”. As fotografias acabariam por ser retiradas depois da polémica que provocaram.
Depois de 7 de outubro de 2023, o seu apoio público a Israel tornou-se ainda mais evidente. Seinfeld visitou Israel, encontrou-se com familiares de pessoas sequestradas e assumiu publicamente a sua solidariedade com o país.
Nada disto, por si só, seria razão para contestar a sua atuação. Seinfeld tem direito a apoiar Israel, tal como qualquer outra pessoa tem direito a defender as suas posições políticas.
O problema começa quando esse apoio se transforma numa tentativa de deslegitimar quem defende os direitos do povo palestiniano.
Em 2025, numa intervenção na Universidade Duke, Jerry Seinfeld comparou o movimento “Free Palestine” ao Ku Klux Klan, chegando a afirmar que o KKK seria, de certa forma, “um pouco melhor”, por assumir abertamente o seu ódio.
É uma declaração grave que não pode ser banalizada.
“Free Palestine” não significa ódio aos judeus. Significa, literalmente, liberdade para a Palestina. Significa defender o direito de um povo à liberdade, à dignidade, à autodeterminação e aos seus direitos fundamentais.
É perfeitamente possível combater o antissemitismo e, ao mesmo tempo, denunciar a ocupação israelita, a colonização da Cisjordânia, a destruição de Gaza e a morte de civis palestinianos. Aliás, é precisamente porque o racismo e o ódio devem ser combatidos sem exceções que temos de ser capazes de distinguir antissemitismo de crítica política ao Estado de Israel.
O antissemitismo existe. É real e deve ser combatido. Transformar qualquer expressão de solidariedade com a Palestina numa manifestação de ódio aos judeus é uma forma de deslegitimar toda a causa política e humanitária.
Quando essa afirmação é feita por alguém com a dimensão pública de Jerry Seinfeld, estamos perante uma posição pública.
Entretanto, Gaza continua a ser destruída e os palestinianos continuam a morrer. E a retórica de Seinfeld não existe isolada. Elementos da sociedade israelita, alguns com poder de governo, dizem coisas parecidas sobre os palestinianos. Não é sequer uma guerra o que está a acontecer. É um genocídio. Gaza é um território palestiniano onde vive uma população civil que resiste sem um exército convencional, submetida a décadas de ocupação, bloqueio e violência, e onde Israel continua a realizar ataques e a matar palestinianos, incluindo milhares de crianças. As declarações de membros do Governo israelita devem obrigar-nos a olhar para esta realidade sem eufemismos.
Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel, disse esta semana que Israel deveria matar entre 30 e 40 pessoas em Gaza todas as noites e referiu-se a palestinianos como pessoas que não seriam “dignas de vida”.
É neste contexto que a escolha de Seinfeld deve ser discutida.
Não estou a dizer que César Mourão, Carlos M. Cunha ou Gustavo Miranda apoiam as posições de Seinfeld. Não tenho qualquer base para o afirmar.
Mas existe uma diferença entre responsabilizar alguém pelas opiniões de outra pessoa e questionar uma escolha que essa pessoa fez.
Os três homens que estão na origem do festival escolheram Jerry Seinfeld como cabeça de cartaz. E têm todo o direito de fazer essa escolha. Mas, precisamente por terem esse direito, também têm de aceitar que ela seja questionada.
Conheciam as suas posições sobre Israel e a Palestina?
Conheciam a declaração em que comparou o “Free Palestine” ao Ku Klux Klan?
Consideraram a dimensão política dessa escolha?
E, perante o que hoje sabemos sobre a situação em Gaza, continuam a considerar que é esta a pessoa que querem apresentar como principal nome internacional do vosso festival?
São perguntas perfeitamente legítimas.
E não são apenas os organizadores que devem ser chamados a responder.
O festival reúne muitos dos nomes mais conhecidos do panorama cultural português. Entre eles, Herman José, Carolina Deslandes, Vasco Palmeirim, Bárbara Tinoco, Clarice Falcão, Tatanka, Fábio Porchat, Vhils entre muitos outros.
Não aceito que a resposta seja simplesmente “somos artistas, não temos nada a ver com isto”.
Têm. Têm, sim.
Quando um artista aceita participar num festival, empresta-lhe o seu nome, a sua obra, o seu talento e a sua credibilidade. Passa a fazer parte da imagem pública desse acontecimento.
E, por isso, é legítimo perguntar a todos eles se conheciam as posições públicas de Jerry Seinfeld quando aceitaram integrar o festival e se consideraram que essa participação é compatível com os seus próprios valores.
Isto não é censura.
Seinfeld é livre de dizer aquilo que pensa. A organização é livre de o contratar. Os artistas são livres de participar. Os patrocinadores são livres de associar as suas marcas ao festival.
Mas o público também é livre de criticar essas escolhas, de questionar os seus protagonistas e de decidir se quer comprar um bilhete ou associar-se àquele acontecimento.
Chama-se liberdade de expressão. A liberdade de falar não inclui o direito a ficar protegido das consequências sociais e políticas daquilo que se diz ou das escolhas que se fazem.
O festival ainda não aconteceu. Começa a 29 de outubro. Jerry Seinfeld está anunciado para 1 de novembro.
Ainda há tempo para a organização explicar a escolha. Ainda há tempo para os três organizadores responderem às perguntas que esta programação inevitavelmente coloca. Ainda há tempo para os restantes artistas dizerem se conheciam estas posições e se consideram que a sua participação é compatível com aquilo em que acreditam.
E ainda há tempo para a organização mudar de decisão sem fingir que um contrato transforma uma escolha numa fatalidade.
Não transforma.
A organização pode reconsiderar. Os artistas podem reconsiderar. Os patrocinadores podem reconsiderar. E o público pode exigir que reconsiderem.
Porque há momentos em que é importante perguntar-nos se: sabendo aquilo que sabemos, continuamos a considerar que devemos fazer essa escolha?
Um festival tem liberdade para decidir que não quer colocar no centro da sua programação alguém que deslegitima a solidariedade com um povo que está a sofrer uma das maiores catástrofes humanitárias do nosso tempo.
E os artistas têm liberdade para dizer: não quero fazer parte disto.
Ainda estão a tempo.
A todo o elenco do festival deixo a pergunta para fazerem a si próprios: Que tipo de cultura queremos celebrar quando, ao mesmo tempo que falamos de humor, liberdade e encontro entre pessoas, escolhemos como principal rosto internacional alguém que trata a solidariedade com a Palestina como se fosse equivalente a ódio racial?
Há escolhas que não são neutras. Esta é uma delas.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.