Em março de 2025, pouco tempo após a depressão Martinho, numa caminhada pela serra de Sintra, onde terão caído cerca de cem mil árvores, perante um cenário dantesco, a Ana disse-me, simplesmente, isto: “A Natureza nunca se engana.” Depois do choque provocado pela devastação que tinha diante dos olhos, aquela afirmação transportou-me para outra dimensão da tragédia, mais profunda e mais verdadeira, que acabara de testemunhar.
Habituámo-nos a olhar para a Natureza como se ela existisse para nos servir sem custos. Quando uma cheia invade uma cidade, dizemos que a água foi cruel. Quando uma tempestade derruba o pinhal de Leiria, afirmamos que a Natureza enlouqueceu. Quando um incêndio destrói milhares de hectares, falamos de desastre. Mas a Natureza não conhece crueldade, nem bondade, nem erro. Não pune, não recompensa, não faz justiça. A Natureza simplesmente é natural e não antropocêntrica. Somos nós que interpretamos os fenómenos naturais à luz dos nossos interesses, das nossas necessidades e dos nossos medos. Chamamos catástrofe àquilo que é apenas a manifestação dos processos que moldam a Terra há milhões de anos. O vento não sabe que existe uma estrada ou um parque industrial. O rio ignora a construção de casas no seu leito de cheia. O mar não distingue entre uma arriba desabitada e um empreendimento turístico. A Natureza não se adapta às nossas decisões; somos nós que deveríamos aprender a compreender os seus ciclos, ritmos e limites. Talvez o maior equívoco da civilização moderna tenha sido colocar o ser humano no centro, melhor, no topo.

Durante décadas, alimentámos a ilusão de que dominamos a Natureza, de que a tecnologia resolve qualquer problema e de que os recursos naturais existem para serem explorados sem limites e sem regras, sempre mais e mais a qualquer custo. Esquecemo-nos de uma evidência tão simples quanto incómoda: somos apenas mais uma espécie entre milhões que habitam este pequeno planeta. Continuamos a insistir que é só uma questão de milhões de euros e tudo se resolve. A Terra não gira à nossa volta, giramos com ela e dependemos dela, queiramos ou não.
Aquilo a que chamamos destruição é, frequentemente, o início de um novo ciclo. Uma árvore tombada deixa entrar luz na floresta, alimenta fungos, insetos e microrganismos, devolve nutrientes ao solo e cria condições para o nascimento de nova vegetação e árvores. Uma cheia transporta sedimentos que fertilizam os campos. Uma erupção vulcânica cobre a paisagem de cinzas que, um tempo depois, originam alguns dos solos mais férteis do planeta. Na Natureza, a morte e a vida não são opostos; fazem parte do mesmo processo. Também por isso a Natureza não desperdiça. Aquilo que para nós é resíduo, para os ecossistemas é recurso. Uma folha caída transforma-se em húmus. Um tronco morto torna-se abrigo para centenas de organismos. Um animal que morre continua a alimentar a vida.
Em vez de procurar dominar os processos naturais, importa aprender com eles. A floresta ensina-nos diversidade. O solo ensina-nos paciência. A água ensina-nos adaptação. A argila ensina-nos que a vida depende da capacidade de reter e disponibilizar recursos. Contrariamente ao nosso modo vida linear, sempre a consumir com mais intensidade e a descartar, na Terra tudo, em todas as escalas e meios, são ciclos. Daqui, deste choque, resulta a insustentabilidade cujas consequências conhecemos cada vez melhor.
Cada elemento da Natureza transporta uma inteligência acumulada ao longo de milhares de milhões de anos de evolução. A ciência, quando é verdadeiramente humilde, aproxima-nos desta compreensão. Quanto mais conhecemos o funcionamento dos sistemas naturais, mais percebemos a sua extraordinária complexidade e mais evidente se torna que a estabilidade absoluta não existe. A mudança não é a exceção; é a regra. A transformação permanente é a própria essência da vida. Talvez seja esse o verdadeiro significado daquela frase dita, quase em silêncio, na serra de Sintra: a Natureza nunca se engana porque nunca deixou de ser fiel às leis que a governam. Quem se engana, demasiadas vezes, somos nós, quando insistimos em viver como se estivéssemos fora dela. E talvez seja precisamente aqui que reside a maior lição do nosso tempo: a inteligência humana só encontrará o seu verdadeiro lugar quando reconhecer que a maior inteligência continua a ser a da própria Natureza. É assim tão difícil de aceitar?
PS – A tragédia do Nepal mostra, mais uma vez, aquilo que aqui se defende: o gigantesco deslizamento nos Himalaias é um fenómeno natural. A Natureza não se enganou e, por mais difícil que seja aceitá-lo, os fenómenos geológicos não são cruéis: simplesmente acontecem segundo as leis e dinâmicas da Terra.
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