O grande público português descobriu Afonso Gonçalves através das suas declarações contra o direito de voto das mulheres. Líder do grupo Reconquista, fundado em 2023, deu nas vistas durante o cinquentenário da Revolução dos Cravos ao desfilar fardado com as suas hostes pelas ruas de Lisboa. Desde então, tem somado provocações dirigidas a imigrantes, muçulmanos e, no geral, a todas as pessoas de origem estrangeira não europeia. “Sim, sou racista, qual é o problema?”, protestava em janeiro de 2025 perante uma transeunte indignada, sob a lente da câmara de um influenciador britânico de extrema-direita. Depois de ter apelado ao voto no CHEGA nas últimas eleições presidenciais, critica hoje o partido por não o considerar suficientemente radical para o seu gosto, e não esconderia a ambição de substituir André Ventura na liderança da extrema-direita portuguesa.

Seria fácil tomar Afonso Gonçalves por uma figura caricata, mas isso seria um erro: o jovem líder identitário, de 26 anos, conseguiu em pouco mais de dois anos tecer laços com figuras influentes da direita radical europeia e até norte-americana, a cujo lado se mobiliza a favor da “remigração” – conceito sobre o qual acabou de publicar um livro em autoedição. No segundo congresso do seu micropartido, intervieram os ativistas de extrema-direita Steve Laws (britânico), Dries Van Langenhove (belga) e Thierry Baudet (neerlandês), líder do Forum voor Democratie (Fórum para a Democracia, FvD) e membro ativo da rede internacional Patriots Network. A reunião realizou-se na Assembleia Municipal de Lisboa, a convite da juventude partidária do Chega. No terceiro, Gonçalves conseguiu trazer Martin Sellner, Hilaire Bouyé, presidente do movimento francês Les Jeunes avec Zemmour, e Lena Kotré, representante da Alternative für Deutschland (Alternativa para a Alemanha, AfD), o principal partido de extrema-direita na Alemanha. Pelo meio, reuniu-se com o influenciador masculinista norte-americano Nick Fuentes. Deve-se-lhe sobretudo a organização da segunda Cimeira da Remigração, na Figueira da Foz, em maio passado, na companhia dos seus acólitos: o austríaco Martin Sellner, hoje líder do movimento identitário na Europa; a influenciadora de extrema-direita neerlandesa Eva Vlaardingerbroek, presença ocasional na Fox News nos EUA; o belga flamengo Dries Van Langenhove, antigo deputado do Vlaams Belang e líder de um grupo apologista da violência, o Schild & Vrienden (Escudo & Amigos); e o italiano Andrea Ballarati, antigo militante da juventude dos Fratelli d’Italia, hoje à frente do seu próprio grupo.

