Não é um slogan assumido pelo governo chinês, ou ainda não é, mas já foi adotado pela imprensa oficial: “a China é fixe”, ou Zhong Guo Ku, em chinês. Como OK le, bye-bye, hello e outros estrangeirismos já incorporados na linguagem das novas gerações, o adjetivo ku (fixe) é importado do inglês cool. Neste caso, trata-se de celebrar o sucesso de um destino turístico. O número de turistas que visitam a China está a aumentar cerca de 20% ao ano e, pelas contas do governo, em 2030 poderão ser 190 milhões e gerar uma receita de 150 mil milhões de dólares.
Desde o ano passado, cidadãos de 50 países, entre os quais Portugal e quase todos os outros membros da União Europeia, já não precisam de visto para entrar na China e viajar por lá durante um mês. Politicamente, o regime não mudou. O “papel dirigente” do Partido Comunista continua a ser um “princípio cardinal”. Xi Jinping, considerado o líder mais autoritário desde a morte do fundador da República Popular, Mao Tsé-Tung, em 1976, mantém-se no poder há 14 anos e em 2027 deverá iniciar um quarto mandato, fenómeno inédito no último meio século. A imagem internacional da China, no entanto, tem melhorado.
Muito acentuada no chamado Sul Global, aquela melhoria verifica-se também nos países da NATO, cujos líderes já qualificaram a China como “um desafio sistémico aos interesses, segurança e valores” da aliança. “O que realmente merece atenção sobre a onda ‘a China é fixe’ – comentou um jornal – não é só que a China agora tem mais destinos de verão, mas também que a forma como os estrangeiros percecionam a China está a mudar”.
Segundo uma sondagem feita na primavera pelo Pew Research Center em 37 países, a maioria das respetivas populações tem uma opinião positiva acerca da China. Em Espanha, essa percentagem atinge os 54%, registando uma subida de 17 pontos percentuais (pp) em relação a 2025, e em Itália, cujo governo tem poucas afinidades políticas com o de Madrid, chegou aos 51%, mais seis pp do que no ano passado e mais 20 pp do que em 2022. Na Grécia e na Turquia a percentagem também é superior a 50%. No Reino Unido são 46%, na Alemanha 35%, em França 34% e na Holanda 31%. Aquele centro, sediado em Washington, apurou também que em 25 dos países onde decorreu o estudo, incluindo Canadá e México, a China já é vista mais positivamente do que os EUA. Mesmo neste país, a percentagem de opiniões favoráveis já subiu para 27%: mais seis pp do que no ano passado e “quase o dobro de 2023”, concluiu o Pew Research Center. (No Japão, pelo contrário, aquele valor não passa dos 13%).
O recorde de opiniões favoráveis pertence ao Paquistão, com 90% de pessoas inquiridas a manifestarem uma avaliação positiva, seguido da Indonésia (84%), da Malásia (80%), do Quénia (79%), da Nigéria (79%) e de Singapura (72%). Na América do Sul, o Peru comanda a apreciação, com 72%, à frente da Colômbia (66%), do Brasil (58%) e da Argentina (56%) Na vizinha Índia, só 45% têm uma opinião favorável acerca da China.
“A perceção pública é a luz do sol que dissipa o preconceito, e a ligação humana constrói pontes mesmo sobre as divisões mais enraizadas”, dizia um artigo sobre o desenvolvimento do turismo publicado no ano passado no Diário do Povo, o órgão central do PCC. “Hoje, a China está a abraçar o mundo com confiança e abertura.” Por coincidência, o artigo saiu a 4 de junho (“Liu Si”, em chinês), uma data especialmente sensível. Foi o dia em que o Exército chinês esmagou o movimento pró-democracia da Praça Tiananmen, em 1989. Centenas de pessoas morreram, milhares de outras foram presas ou exilaram-se. É uma ferida silenciosa, que continua a sangrar na memória coletiva, mas, 37 anos depois, fora da China já não parece ter a mesma carga emotiva.
Para o governo, o aumento do turismo é um motivo de orgulho. “Uma China que persegue o desenvolvimento pacífico, fervilha com inovação e pulsa com riqueza cultural – proclamou um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros – está a conquistar cada vez mais confiança e reconhecimento em todo o mundo”.
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